Entrevista: Transmissor

Conversamos um pouco mais com a banda dona de um dos melhores discos de 2014

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Os mineiros da banda Transmissor estão com disco novo na praça, o belo De Lá Não Ando Só. Os álbuns anteriores (Sociedade do Crivo Mútuo e Nacional) já mostravam a proposta da banda: um Pop ensolarado, arejado, parte mineiro, parte inglês, mas com acenos a múltiplas direções. Com as presenças de Thiago Corrêa, Leonardo Marques, Jennifer Souza, Henrique Matheus, Pedro Hamdan e o novo integrante, Daniel Debarry, a banda ganha elogios de conterrâneos ilustres como Lô Borges e se vê a meio caminho do lirismo da música brasileira setentista mas com forte e feliz capacidade de transitar pela melancolia contemporânea urbana, essa que nos dá a impressão de estarmos sozinhos no meio de uma grande e proverbial muvuca. Monkeybuzz conversou com o guitarrista e vocalista Leo Marques sobre presente, futuro e a complicada situação de sobrevivência dos artistas independentes no país, felizes pela liberdade, vitimados pela transição do momento mundial do consumo de música.

MB: Como está a recepção do novíssimo disco de vocês?

Léo Marques: Até agora estamos, muito felizes com as críticas, resenhas e percepcões em relação ao nosso novo trabalho.

MB: Como surgiu a ideia de ter Carlos Eduardo Miranda na produção? O que ele trouxe para o som de vocês?

Léo Marques: A ideia desse terceiro disco era tentar fazer diferente dos anteriores, escolher novos caminhos em todos aspectos. Como as produções dos dois primeiros foram feitas por nós mesmos, esse era um fator que queriamos explorar. Através do selo no qual trabalhamos nesse disco, Ultra Music, nos apresentaram ao Miranda e começamos essa relacão de trabalho. Ele trouxe muita coisa bacana e importante nesse processo, desde audicões de muita música pra buscar inspiração, até na hora de ajudar nos arranjos e na escolha do repertório do disco.

MB: Vocês agora são um sexteto. O que muda na sonoridade da banda?

Léo Marques: Thiago Corrêa, além de vocalista e compositor, é um grande baixista, ele gravou os baixos nos discos anteriores, mas as linhas dos baixos eram compostas por mim, por ele, ou pelo Henrique e ele executava nas gravações, mas ao vivo a gente dividia a função de baixista. Era interessante ver essa dinâmica nos shows, mas havia complicações também, o som nos shows não ficava com uma uniformidade que desejavamos. Havia um tempo que existia a vontade na banda de ter um baixista fixo nos shows. Com a entrada do Debarry, que foi no meio do processo do disco, muitas linhas de baixo já estavam prontas, mas a sua concepcão de baixo, seu jeito de tocar e suas contribuicões nas músicas deixaram o Transmissor com uma cara nova, mais sólida, mais roqueira, o apelido dele na banda é Rochedo inabalável, acho que diz muito do som do baixo dele. (risos)

MB: Falamos recentemente com Lô Borges e ele mencionou vocês como artistas mineiros interessantes e que deveriam ser mais conhecidos do público. O que é mais complicado nessa tarefa de ser visto e ouvido por mais gente?

Léo Marques: Esse é um tópico que converso muito com amigos músicos e produtores culturais. A minha opinião no momento é tentar não me preocupar tanto. Acho que temos que fazer um som honesto as nossas experiências de vida e tentar manter uma carreira sólida com discos cada vez mais pertinentes a nós mesmos. O resto deve ser reflexo desse trabalho. Seguir uma tendência estética ou modismos da atual cena dos artistas “reconhecidos” pela mídia poderia ser uma escolha em busca de também ser “incluído”, mas acho que para um artista se encontrar e progredir de verdade ele deve se despir de toda vaidade de ser reconhecido ou aceito. Talvez nosso isolamento em relação à cena paulista, devido também à falta de atenção da mídia no que vem acontecendo aqui em Minas nos últimos anos, nos leve e nos deixe cada vez mais livres pra buscar lugares, escolhas e caminhos estéticos mais inusitados e originais em nossas composições.

MB: Também conversando com Lô, ele fez menção à uma conexão de vocês com as sonoridades do Clube da Esquina. Vocês também já gravaram uma cover de Nada Será Como Antes. Acham que existe alguma relação?

Léo Marques: Normalmente, a tendência é querer dizer que não temos muita influência do Clube da Esquina, mas somente pelo fato da gente ser de Belo Horizonte, ter escutado esses artistas em algum momento da vida, saber de perto como eles vivem e o que motivou eles desde o início – que foi o encontro, a amizade -, isso tudo acaba por inspirar a gente de forma subjetiva nas nossas atitutes e tratamento um com o outro no relacionamento como banda. Temos a liberdade de ter nossas carreiras solo e também a noção que nosso encontro enquanto banda é muito especial nas nossas vidas pessoais e também musicalmente. Além disso tudo, acho que temos uma conexão com o Clube da squina em relação a forma, no nosso conceito de belo, no jeito de prezar pelas melodias, sempre com uma carga de nostalgia e melancolia bem do jeito de muitos mineiros.

MB: Como surgiu a participação do Transmissor no tributo a Belchior, lançado recentemente?

Léo Marques: Foi através do convite de Jorge Wagner. Pessoalmente, conheço muito pouco da obra de Belchior, mas uma coisa que aprendi com Transmissor é que isso é um exercício muito divertido e enriquecedor, tocar músicas de outras pessoas e descobrir a obra de artistas tão singulares quanto Belchior leva a banda a dinâmicas de trabalho bem diferentes e resultados muitos interessantes. Adoramos fazer esse tipo de coisa.

MB: Contem como vocês se conheceram e formaram a banda?

Léo Marques: Eu e o Thiago tocavamos na Diesel, uma banda muito importante na cena independente brasileira no começo dos anos 2000, morávamos em Los Angeles e estávamos terminando essa etapa com a banda lá, cada um seguindo seu caminho, mas resolvemos juntar nossas composições e retornar ao Brasil pra fazer o Transmissor. Chamamos amigos de longa data, com o objetivo de não entrar na corrida de mercado da indústria da música, fazer extamente e somente o que a gente queria, pra distanciar das nossas últimas experiências frustrantes com a indústria fonográfica nos Estados Unidos e toda sua superficialidade. Queriamos ter momentos bons e divertidos como uma banda novamente. Até hoje, o objetivo é esse, sem deixar que o caminho e os percalços nos tirem desse norte. Chamamos Pedro Handam pra tocar bateria, admirávamos seu trabalho com a banda instrumental Mordeorabo, Henrique Matheus nas guitarras, que toca hoje com Lô Borges também, Jennifer Souza se juntou à banda como compositora, cantora e guitarrista e mais recentemente Daniel Debarry, com o qual eu já havia tocado em outros projetos.

MB: As letras de vocês são sempre muito poéticas e as melodias/arranjos são solares, fluidos. Quais são as principais influências do Transmissor?

Léo Marques: São diversas influências, acho que tem muita coisa subliminar que a gente nem sabe de onde vem, mas o que escutamos no momento da feitura das músicas e nas gravacões transparecem um pouco. No primeiro disco eu escutava muito Sondre Lerche, Beck, Los Hermanos, no segundo disco a gente escutou muito coletivamente Clube da Esquina, Tim Maia (Racional), Caetano Veloso, Jorge Ben (Tábua da Esmeralda), e no terceiro disco eu escutei muito Serge Gainsburg, Tama Impala e Beach House.

MB: Vocês preferem a independência ou gostariam de ter um contrato com uma gravadora, como era nos anos 80/90?

Léo Marques: Pra mim, o atual estado da música é muito estranho e difícil de entender, porque tenho uma banda independente, mas também já assinei contrato com gravadora grande nos Estados Unidos e aqui no Brasil com a Som Livre. Cada trabalho exige uma forma diferente de ser desenvolvido. Hoje, acho que está tudo muito livre e sem um caminho pré-determinado, tem muitas formas de trabalhar, mas pra viver como artista independente e pagar as contas sem apoio financeiro de gravadora, ou de um investidor é um ato cada vez mais heróico. Através dos anos, vejo amigos e companheiros de “batalha” desistindo cada vez mais, mesmo com projetos super interessantes. Acho que quem está vivendo uma fase de ouro é o público que consome boa música grátis.

MB: Acham que o Rock ainda existe em 2014?

Léo Marques: O Rock existe sim e é de graça, talvez não nas rádios e nos programas de TV, mas está por toda Internet, basta procurar. Tenho certeza que vou me apaixonar por um disco que ja foi lançado dois ou três anos atrás, nunca na história tivemos uma abundância tão grande de música, de Rock ou qualquer outro estilo. A música está em sua melhor forma, talvez não os músicos que a produzem.

**MB: Como vocês analisam a música brasileira feita hoje?

Léo Marques: Tem muita coisa boa, mas num limbo, porque às vezes não atendem as estéticas da moda, mas que se realmente forem trabalhos de importância, uma hora ou outra vão ter seu lugar ao Sol, ainda acredito muito nisso. Brinco de falar que Belo Horizonte é a Seatlle brasileira, temos uma cena muito forte, como trabalhos muito bem feitos de vários estilios diferentes, onde todo mundo se conhece, se mistura, toca um com o outro, já tocou ou ainda vai tocar.

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ARTISTA: Transmissor
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.