Eu Tenho um Ótimo Gosto Musical, e Você?

Você provavelmente deve saber a reposta para essa pergunta, mas afinal, o que ou quem forma os nossos gostos musicais?

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Fotos: Gui Moraes

Gosto musical, em um sentido mais amplo, já foi definido como um efeito direto da dopamina em nossos cérebros (músicas que liberam mais dessa substância, diretamente ligada ao prazer, portanto seriam nossas prediletas) e até mesmo com um efeito sócio-psicológico teorizado pelo filósofo, sociólogo e musicólogo alemão Theodor Wiesengrund Adorno. Essas definições explicam, fisiologicamente e sociologicamente, o efeito da música em nossas vidas. Mas há também um lado elas que parecem deixar de fora: assim como nosso paladar, nosso gosto musical se forma através de experimentações, hábitos e preconceitos – e como tal é passível a expansões ou retrações e, portanto, não é algo inato ou imutável. E esse é um ponto importantíssimo.

Adorno e sua teoria, sobre o que ele chamou “Indústria Cultural”, são muito mais relevantes em nossa discussão do que o efeito da dopamina em nossos cérebros, então a deixaremos de lado, mas sempre tendo em mente os efeitos da substância. O filosofo alemão, entre outras tantas coisas, teorizou a “estandardização” da arte nos últimos séculos, assim como a dominância dos detentores do meio de produção e divulgação em relação ao público. O que, em sua teoria, cria um polo de influência e massificação de gostos. Porém, ela surgiu entre 1920 e 1930 e me fez pensar em como ela se aplica aos dias de hoje, quando não há mais uma única figura central que as veicule.

Sem dúvidas, o rádio teve um papel importantíssimo na veiculação e “implementação” do gosto popular durante grande parte do século XX. Porém, hoje em dia, ele não tem mais esse papel central na difusão da música – a radiodifusão por mais seccionaria que fosse, ainda contava com um número limitado de opções e estava invariavelmente sujeita à vontade dos detentores do poder de produção e, logo, da distribuição –, e quem toma este lugar é a Internet (muito mais a TV, ou qualquer outro meio), que oferece uma liberdade assustadoramente maior de escolha aos ouvintes. Mas mesmo mudando a forma de difusão, a ideia de “Indústria Cultural” ainda faz sentido?

”Mesmo mudando a forma de difusão, a ideia de “Indústria Cultural” ainda faz sentido?”

Mesmo 80 anos depois, a resposta é sim. Pois não há como não levar em consideração a influência midiática ou sociológica (como os gostos e desgostos do seu grupo de amigos, exemplo) em nossas predileções musicais e de certa forma a sua homogeneização. Mas também não há como excluir a parte que cabe a nós em nossos gostos, afinal são nossas escolhas que o moldam. E talvez a ideia mais importante a ser tirada daqui é que mesmo com diversas influências e pressões externas, não existe uma ditadura musical e no fim das contas quem manda no seu gosto é você.

Seguir tendências e ouvir o que seus amigos ouvem é algo natural, mas creio que se deter neles é uma experiência pouco valida e culturalmente pobre. Então, sua parte nisso tudo é tentar expandir seus gostos, ou a menos procurar novos artistas, gêneros e motivos para testar até onde pode chegar o que você gosta ou não. É bem provável que no meio deste caminho você encontre coisas que aparentemente só você goste ou que pelo menos não seja apelativo para a maior parte das pessoas, mas se você quer saber de uma coisa? Isso é ótimo. Saber escolher seus gostos independentemente do dos outros, expressa sua individualidade e sua unicidade como pessoa.

Então, acho que agora você não precisa pensar muito para responder a pergunta que está no título, não é? Mas se ainda lhe resta alguma dúvida, eu a respondo por você: é claro que você tem um ótimo gosto musical. Afinal, ele é seu e é tão único que ninguém pode ter um exatamente igual.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts