Existe um Festival Ideal?

Com um público cada vez mais heterogêneo e fragmentado, fica cada vez mais difícil responder esta questão, mas certamente há muitos pontos a se melhorar nos eventos musicais

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É claro que não existe um festival de música perfeito. Cada um tem sua utopia quanto ao que seria o festival ideal – alguns focam no line-up, outros nos headliners e ainda outros na experiência do evento. Possivelmente, um festival que aliasse esses três pontos seria o mais próximo de agradar a todos, mas, como bem sabemos, é impossível agradar gregos e troianos.

A partir disso, houve a necessidade de segmentar o mercado e criar diversos moldes e tipos de festival que, mesmo não agradando todos, conseguem trabalhar muito bem com cada público individualmente, geralmente dentro de um determinado nicho. Cada um atendendo a suas próprias especificações e ideários, não seria exagero dizer que cada um dos inúmeros festivais existentes por aí vai lhe proporcionar uma experiência bem diferente do outro.

Mesmo assim, há alguns padrões que levam em consideração principalmente o tamanho e alcance destes eventos. Os festivais pequenos geralmente lhe proporcionam experiências mais intimistas e uma maior proximidade com o artista. Por contar com um pequeno público, problemas com filas são quase inexistentes; não se desgastar por ter de se locomover para cima e para baixo o dia todo e o preço dos ingressos (geralmente bem acessíveis) também somam pontos para este tipo de evento.

Já o line-up pode ser o ponto mais fraco destes, ainda mais em uma cultura de festival como a nossa, em que se demanda sempre um grande headliner. Para contornar este “problema”, esses eventos tentam ganhar atenção de um certo nicho. Nesta categoria se encontra o All Folks Fest, que já acompanhamos há algum tempo e tem seu diferencial na curadoria especializada em vertentes da música Folk. Sua experiência é focada na ideia de confrontar o rústico e urbano, o que acaba criando uma grande identificação com os fãs do gênero.

Festivais de grande porte, caso de Lollapalooza e Rock in Rio, por exemplo, apresentam outros prós e contras. Se você é uma pessoa que vai a festivais exigindo grandes nomes e apresentações colossais, esse é tipo de evento em que você irá encontrar tudo isso. A grandiosidade nesse tipo de festival também pode ser observada em sua escalação de bandas, que tenta absorver diversas vertentes e estilos, exatamente para buscar um público muito grande e bem diversificado.

Sem dúvidas, a estrutura destes são gigantescas e pensadas para atender um grande número de pessoas, porém em aglomerações como esta é impossível não existir filas, seja na entrada, banheiros ou na área de alimentação. Portanto passar alguns minutos em filas é algo altamente compreensível quando se está em um evento deste porte.

Outro problema é o preço. Ir a eventos como estes é altamente oneroso; além dos ingressos há também que custear viagem e hospedagem (para quem é de fora da cidade), além dos gastos com transporte, alimentação e mais uma série de outros custos menores que se colocados na ponta do lápis somam uma boa quantia. Ainda assim, esses festivais nos proporcionam a chance única de ver bandas consagradas, que, talvez, se não fosse pela organização do festival, nunca viriam fazer shows em nosso país.

Entre estes dois extremos, existem os festivais de médio porte que cada vez mais conseguem se estabelecer entre o público. Esses eventos compartilham quase da mesma organização e estrutura de um festival de grande porte, porém eles são pensado para um público menor e isso resolve grande parte dos problemas que os gigantes enfrentam. Se a proximidade entre artista e plateia não é tão grande quanto nos festivais de pequeno porte, a ideia de se especializar em nichos é muito bem aproveitada aqui. Planeta Terra e Sónar São Paulo estão aí para provar isso.

Nestes, mesmo com o line-up mais modesto, o preço não é tão convidativo (ou competitivo), mas ainda assim consegue trazer uma experiência bem completa de um grande festival, porém em menores proporções. Se você procura boas bandas ou um nicho especifico, mas quer fugir de grandes aglomerações este pode ser o tipo de festival perfeito para você.

Para nós, o molde de festival que mais se aproxima do “ideal” é o seguido pelo Pitchfork Music Festival, que consegue não só aliar todos os pontos positivos das outras fórmulas e um só festival como ainda minimizar ao máximo os negativos. Passamos pelo evento do ano passado e ficamos fascinados com como ele é realizado, a estrutura que o cerca e a confiança do público nas bandas convidadas, sem precisar apelar em trazer nomes gigantescos para chamar o público – não por menos, a curadoria é feita pelo próprio site que cria grande coerência entre o que vai para suas páginas e o que vai para os palcos, tanto que nele, hypes instantâneas são sumariamente descartadas.

Outro ponto interessante a se observar sobre ele é o preço altamente acessível (com um passe para os três dias sendo vendido por $120, o que equivale a aproximadamente R$242). Baixo custo e alta qualidade se devem principalmente ao ideário do site, que não procura lucro e sim uma forma de se auto-sustentar anualmente e, claro, apresentar ao vivo os destaques de suas páginas. Esse é um tipo de evento que se viesse para o país, provavelmente iria mudar as regras do jogo por aqui e que nos ajudaria a criar uma nova consciência e cultura do que se trata um bom festival.

Se 2012 foi o ano dos festivais no Brasil, neste a coisa pode não estar caminhando tão bem assim. Enquanto os menores tem conquistado cada vez mais popularidade e se consolidando, dentro e fora do seu nicho e região, os de médio e grande porte podem estar regredindo nestes quesitos. O recente cancelamento do Sónar São Paulo (alegando a instabilidade do mercado nacional para este tipo de evento), a falta de casa (para este ano) do Planeta Terra e sumiço do grande SWU (que não confirmou seu cancelamento ou descontinuação da marca) podem ser os primeiros sinais que nem tudo caminha tão bem quanto imaginávamos.

Ainda assim, os gigantes nacionais, como Rock In Rio (que ainda está confirmando atrações para a edição deste ano) e Abril Pro, e os internacionais, caso do Lollapalooza, que mesmo não esgotando seus ingressos neste ano já confirmou a edição de 2014, continuam seguindo seu rumo, mesmo com a “crise” que ronda as outras produções. E para manter o otimismo, há especulações de outros festivais internacionais chegando a terras tupiniquins como o Bonnaroo, que estava cotado desde o ano passado para aportar no Rio de Janeiro.

As incertezas do mercado estão aí, mas a cada dia parece haver mais shows (nacionais e internacionais) em nossas terras e a evolução dos festivais fica evidente aos frequentadores a cada ano que passa. Ainda assim, há muito que melhorar e isso não depende exclusivamente dos organizadores, que ainda vivem presos ao modelo de grande headliners. O público também tem de mudar a sua mentalidade e procurar um festival homogêneo e cheio de bandas que lhe interessam. Enquanto essa cultura não mudar, vamos ficar presos a estes moldes que por hora nos satisfazem, mas já dão sinal de que podem não durar por muito mais tempo.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts