Fabiana Cozza em 5 atos

A artista paulistana fala sobre o processo criativo do exuberante “Dos Santos” e decanta seus sentimentos e epifanias

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Fotos: José de Holanda

Fabiana Cozza nutre profunda admiração por rituais e esse traço de sua personalidade vem de uma mimese familiar. Ministro de uma igreja da Pompeia, bairro da zona oeste de São Paulo, o pai da cantora dorme ao lado de uma mesa de abajur, na qual posiciona santos, bíblia, cruz entre outros símbolos que reverencia. Ele acorda, senta na cama, reza e começa o dia. Todos os dias. Foi na igreja católica que Fabiana começou a cantar; semanalmente ela estudava a sequência da liturgia e pesquisava nos livros bíblicos de canto o que queria interpretar naquele momento para ornar com a mensagem. Montava repertório dentro da missa. Ainda hoje, com 45 anos, a cantora paulistana sabe a ordem dos cantos – são letras e melodias gravadas na memória com afinco, como só a fé é capaz de fazer com a experiência humana.

“Eu sou candomblecista, mas, se você me colocar dentro de uma igreja ou uma sinagoga, ou ainda uma mesquita, eu tenho um respeito tão grande pelo ritual que, mesmo sem saber a ordem de nada, se me pedirem ajuda, eu talvez saiba me comportar, possa ajudar no ritual”, reflete. A transição da tradição familiar católica para o candomblé não foi radical e Fabiana passou também pelo budismo, umbanda e jurema. Segundo ela, um ponto em comum a todas as religiões é o silêncio. Em 2020, ano de lançamento do seu oitavo disco, Dos Santos, a sambista passou pela maior experiência de silêncio e solidão de sua vida.

No começo do ano passado, Cozza foi dar aulas de canto nos Estados Unidos. A Covid-19 já era uma epidemia global, com 15 casos isolados em São Francisco, mas não se tinha exatamente ideia da magnitude da crise sanitária. Quando ela voltou para o Brasil, eram 180 casos em São Francisco e um denso ar de preocupação se espalhava quase tão rapidamente quanto o vírus. Fabiana voltou e foi se isolar no sul de Minas Gerais, em uma casinha de férias alugada em Gonçalves. “Só eu, a mata, os bichos. Um silêncio absurdo, minhas duas cachorras e a Mantiqueira”, relembra.

Ato I — A vida é um sopro

“Todos os dias às seis da tarde — olha aí o traço católico, mas também do candomblé porque a gente não sai na rua com a cabeça descoberta às 18h — eu rezava pela saúde das pessoas, não as minhas pessoas, a saúde das pessoas no mundo, a saúde da ciência, para que tivesse iluminação, para que chegasse um remédio para curar as pessoas”, conta. “E pedia aos orixás de cura e de saúde, especialmente os que cuidam de folha, Ossain, Obaluaê, Nanã, pedia com muita fé que esse dia da vacina chegasse. O dia da cura vai chegar. O dia de tirar esse presidente vai chegar. Porque vai chegar”.

Quando aparecia o sinal da operadora, uma raridade devido à altitude, Fabiana ligava para o companheiro e falava com os pais. Ela fez por volta de seis testes de Covid-19, todos negativos, mas a bronquite foi um fator de peso para não voltar para São Paulo. E, assim, quatro meses e meio passaram, regados a luto e oração. Foram quatro também os amigos perdidos para o coronavírus, o primeiro deles o maestro Martinho Lutero. Formou uma nova família com Leca e Cris, casal que mora em Gonçalves, e ouviu muito Gil Luminoso (2006) — suporte afetivo.

Leca e Cris mandavam mensagens, preocupavam-se com Fabiana, deixavam pães e bolos no café para que ela, ao passar pela cidade, buscasse. Quando pegava a estrada para buscar os presentes e mantimentos em geral, Gilberto Gil a acompanhava. “Eu ia ouvindo o Gil cantar: o melhor lugar do mundo é aqui — aquele silêncio — e agora. E era o que eu sentia”, reflete. “O melhor lugar do mundo que eu tinha para estar, morrendo de saudade do meu companheiro, da minha família, era ali. E eu tinha que gostar daquele lugar. Um lugar de férias passou a ser o meu lugar. Eu vivi com 5 camisetas, 3 calcinhas, 2 calças, 3 casacos e 2 sapatos. E vivi bem”. Lógico que, no inverno, que chega com força nas regiões de serra, Fabiana precisou coordenar uma logística de táxis, mães, casacos e comerciantes do hortifruti de Gonçalves que costumam buscar produtos no Ceasa — e gentilmente carregaram uma mala de roupas de frio para Fabiana.

“O aqui e agora é o único lugar que te salva. A salvação é onde você está”, diz Fabiana. “Eu tive uma outra família em Gonçalves, que foram esses amigos, a Leca e o Cris. Eles faziam pão para mim. Quem dá pão para uma pessoa está dando a vida. Nunca vivi sozinha tanto tempo, quer dizer, estou sempre viajando, mas viajo com a banda, eu tenho com quem conversar. Foi o tempo que eu mais chorei também, não por mim, mas pelos outros, numa dor humana. Pela incapacidade de mudar a situação no seu macro. Chorar por não conseguir destituir esse presidente, esse governo. Mas, nessa indignação, a gente fica muito criativo. Eu voltei para São Paulo quando comecei a perceber que meu choro estava ficando muito intenso e muito constante. Aí eu comecei a achar que estava deprimida e precisava terminar o Dos Santos — coloquei na minha cabeça: o disco que eu comecei em 2019 precisava ser terminado em 2020. Era um disco para aquele ano”.

Ato II — A força da ventania

“Sabe uma coisa que nunca saiu da minha cabeça? Quando a gente vai estudar Geografia na escola e vê os fósseis”, lembra Fabiana. “É uma pedra e tem as camadas que foram forjando aquela pedra e no meio você tem um esqueletinho de algum animal que ficou ali e foi sobreposto, mas ele está ali, os anos vão sobrepondo. Eu acho que nós somos camadas de significados que se desdobram em muitos signos”. Como uma paleontologista, Fabiana Cozza dos Santos se examina e, mais, desvenda todos os Dos Santos que estão em sua narrativa. “Dos santos é o sobrenome do meu pai, era o da minha avó”, conta. “Eu não sei a história dela, nem meu pai sabe, porque é a história dos pretos da família. A minha história é a história de todos os pretos afrodescendentes brasileiros: eu não sei”.

“Eu tenho aprendido a cantar Samba melhor agora que estou ficando mais velha, sabia? Porque tem silêncio. O silêncio te dá tempo de refletir e escolher a melhor palavra ou melhor intenção para próxima frase musical. Você suspende para decantar o sentimento”

Mas, muito além de uma investigação de si, Dos Santos é também um pedido espiritual. Há oito anos, em uma caída de búzios, a mãe de santo de Fabiana disse: Minha filha, o búzios pede em nome de sua mãe Iemanjá que você faça um disco para orixá. Você pode cantar o que você quiser. Você canta nessas línguas que eu não sei, canta umas coisas que eu não entendo — não tem problema, minha filha. Orixá você tem que cantar. Você foi designada para cantar orixá, relembra, palavra por palavra. “Eu não sou desobediente. Posso demorar porque não tenho dinheiro, tem outras situações que me impedem, mas eu não sou desobediente. Fiquei com isso dentro de mim por muito tempo. Em 2017, comecei a pedir música para outros artistas”.

Para esse trabalho, duas certezas de Fabiana foram fundamentais: a confiança absoluta de que todas as coisas são da ordem do sagrado e a convicção de que não existe cantar sem estar emocionado, ideia que ela considera demasiadamente ocidental. Assim, ela sabia que queria trabalhar com um produtor musical específico. “Uma pessoa que tivesse escuta e sensibilidade para fazer um trabalho que não tivesse uma sonoridade tradicional, que não era o que eu imaginava, mas que topasse construir comigo uma linguagem mais universal para algo que eu julgo que é absolutamente universal: sagrado afrobrasileiro. Algo que está sedimentado em rituais que toda e qualquer pessoa entende: dança, corpo, silêncio, cantar e dividir a comida. Eu falei: esse cara é o Fi”.

“A concepção do disco: eu e Fi Maróstica. A gente começa o álbum de uma conversa: se é a espiritualidade que me pede, não tem muito trânsito. Quando me pede é através da voz de minha mãe e eu só entendo o tambor — porque eu fui feita no candomblé. Eu comecei a minha história na música, minha carreira, no tambor. É couro e a mão batendo no corpo da madeira: eu venho do Samba”, diz Fabiana. “E o Samba é o tambor. É o terreiro, é o corpo imantado de som, de ressonância. É a partir desse lugar que eu entendo a música. A célula mínima, essencial: tambores e voz. E o que a gente vai ter de referência harmônica? O contrabaixo do Fi. Até porque eu queria trabalhar com frequências graves. A estrutura é voz, tambor e contrabaixo”.

A sonoridade de Dos Santos preza pelos poucos elementos, inseridos e retirados cirurgicamente. Além da base fundamental — voz, tambor e contrabaixo —, aparecem guitarra em duas músicas, violoncelo em duas também e bandolim em apenas um. Destes, o único instrumento que foge do tom médio-grave é bandolim, bem agudo, mas que está alinhado à proposta lúdica da música, “Batucadinho”, uma homenagem aos Erês. São muitas participações ao longo das 19 faixas, colaborações acumuladas pela sambista nos últimos cinco anos, que formam um coro de fé. Em uníssono, Dos Santos aposta nessa curiosa investigação de si, que atravessa a busca de um povo, um curso tomado pela esperança de poder ser. Segundo Cozza, trata-se de um disco de reverência sobretudo à vida, ao sentir a vida.

Ato III — Observações sobre o ar

“Eu tenho aprendido a cantar Samba melhor agora que eu estou ficando mais velha, sabia? Porque tem silêncio”, conta Fabiana. Wilson Moreira, Dona Ivone Lara, Wilson das Neves, Clementina, Elizeth Cardoso são as maiores referências da sambista e, hoje, ela percebe neles um certo silêncio essencial. A lição também vem do teatro. “O silêncio te dá tempo de refletir e escolher a melhor palavra ou melhor intenção para próxima frase musical. Você suspende para decantar o sentimento”, explica, “Eu fui aprendendo isso conforme eu fui espaçando mais meus tempos de respiração — oh, de novo, é uma questão de ar, muito certo o Tiganá, é o tempo todo uma questão de ar”.

A referência a Tiganá Santana é sobre o texto da faixa de abertura do álbum, “Oxalá Um Dia…”. Quando Fabiana estava em Gonçalves, recebeu uma ligação do cantor, compositor e grande amigo: Minha irmã, fiz um texto para você, veja se você quer usar esse texto ou não, se você acha que tem a ver. Mas, por tudo que a gente vem conversando, eu fiz esse texto para você, relembra, de novo, palavra por palavra, “Eu chorava de um jeito tão avassalador. Eu parei o carro, tinha ido buscar alguma coisa na cidade e parei porque eu estava chorando muito”.

Uma parte do texto que voltou à tona várias vezes durante a entrevista foi: “A crise das gentes é dos ares”

Do sentido mais abstrato ao mais literal. “O que a gente respira? O que a gente consome? O que a gente põe para dentro e o que a gente não consegue pôr para fora? Tudo é ar. Tudo é respiração”, provoca. “É muito violento pensar que nesse momento em que a gente está aqui conversando tem uma pessoa sem ar em Manaus. E não é que essa pessoa está sem ar porque ela foi displicente ou porque ela desprezou uma crise sanitária, mas porque existem outros responsáveis por essa pessoa não ter ar. Isso é a vida também acontecendo. Essa catástrofe política é a vida acontecendo. A gente está agindo sobre o ar, mas o ar é contínuo como a vida. Continua pulsando. A gente vai agindo e reagindo a ela”.

Ato IV — Ciclones e outras tragédias

Tudo é sobre ar — do sentido mais belo ao mais virulento. Em 2018, Fabiana Cozza foi anunciada para interpretar o papel de Ivone Lara no espetáculo Dona Ivone Lara – Um sorriso negro, o musical. Foram cerca de 1.500 ataques na sua página do Facebook, Trending Topics do Twitter, uma mobilização virtual de ódio veio à tona. Em sua maioria, o objetivo não era discutir o fato de Cozza ser uma pessoa negra menos pigmentada do que Dona Ivone, mas alegar que Fabiana seria branca. A sambista renunciou ao papel.

“Não é sobre a discordância da ação de eu fazer ou não o musical, mas é porque isso que eu vivi corrobora com o tempo — ares — que estamos passando: da não escuta”, comenta, “Não é com essa arma que se luta, na minha opinião. Essa é a arma que os antepassados conheceram muito bem: apaga o nome, apaga a língua, apaga o que a pessoa faz, apaga de onde ela vem, apaga a família e aí se apodera. Porque a pessoa não é mais uma pessoa, ela é uma coisa, um nada. Isso foi muito difícil para mim. E tem uma coisa muito cruel nessa história: quem é branco sabe que a gente não é branco e quem é preto tem dúvida. Preto de pele clara vive no não-lugar, é a faixa de Gaza. Eu não tenho falado muito sobre isso, mas não tem como não falar porque isso também é uma coisa que precisa ser discutida: não é uma luta entre nós. Não pode ser possível entre nós. Porque quem inventou essa palhaçada de democracia racial não fomos nós — nem nós de pele clara, nem os de pele escura, isso é uma pauta branca. Essa reparação eles tinham que fazer”.

“Tem que se medir o tamanho da pedra que vai atirar, porque tem pedras que podem arrancar a cabeça do outro”

Segundo a sambista, foi ao conhecer de perto a potência violenta da não escuta que ela começou a escutar mais. Dos Santos, por exemplo, foi sua escuta para um pedido de anos, porém não se trata de uma escuta à violência em si. “Não tenho ímpeto de revidar nada, eu nem sei quem são aquelas pessoas”, diz. Imagino que as pessoas que se prontificaram a deslegitimar a vivência da Fabiana como negra nem se lembram mais do evento. Afinal, quanto uma pessoa posta por dia, né? Além do cancelado, a violência é um disparo que se fragmenta, atinge o distraído que por acaso viu o tamanho do ódio e se viu também como alvo. Fabiana recebeu cartas e presentes de mulheres como ela, negras de pele clara. Gente como eu, gente dos Santos.

“Se eu não tivesse tanta força espiritual e ajuda de muitas pessoas, eu poderia ter entrado no buraco e nunca mais cantado”, desabafa Cozza. “Isso acontece com muitas pessoas porque é muito duro tentarem roubar a sua narrativa, sua construção, o que você realmente fez. Não tem nada a ver com você artista, diziam, mas tem tudo a ver com tudo. Eu sou a mesma pessoa: artista, companheira, filha, neta. Tem tudo a ver comigo o tempo todo. Tem que se medir o tamanho da pedra que vai atirar, porque tem pedras que podem arrancar a cabeça do outro”.

“Rezar me lembra muito quem veio antes de mim para que eu possa estar, ser. O candomblé para mim é uma casa de saber que me traz muito a possibilidade de realmente saber quem eu sou, identificar as minhas potencialidades e fazer delas uma coisa compartilhada”

Ato V — Brisas frescas em tardes quentes

“Eu tenho sempre essa sensação: rezar, cantar e fazer comida são três altares”, diz Fabiana. “É onde eu efetivamente me prostro e me coloco como uma pessoa melhor, melhor mesmo, mais do que essa coisa do cotidiano que eu fico meio louca, às vezes atrapalhada, às vezes não consigo enxergar o futuro, fico desesperançosa, para baixo. Quando estou rezando, não. Quando eu rezo, fico tomada de esperança, confiança, força. Rezar me lembra muito quem veio antes de mim para que eu possa estar, ser. O candomblé para mim é uma casa de saber que me traz muito a possibilidade de realmente saber quem eu sou, identificar as minhas potencialidades e fazer delas uma coisa compartilhada”.

De volta a São Paulo, Cozza encarou fundo o guarda-roupa como quem olha para o passado. Tirou uma mala de roupas, duas de sapatos e doou. Quatro caixas de CDs e livros foram para o carro, e daí para uma pessoa que vende livros na rua. “Um monte de coisa que eu sei que não vou ter tempo de ler na vida; comprei, mas não vou ler, então eu dei. Eu sempre fui uma pessoa que doou coisas, mas eu nunca doei neste volume. Porque na verdade eu sempre fui uma pessoa apegada, como tantos de nós”, diz.

Fabiana Cozza está no melhor lugar do mundo. Ansiosa para retomar a rotina de palcos e poder mostrar Dos Santos com todas as singularidades que tem planejado, afinal, ela disse que já canta o disco diferente da gravação. Ela também está lendo um livro chamado A bailarina de Auschwitz, de Edith Eger. Fabiana leu um trecho para nós: “Não existe uma hierarquia do sofrimento. Não há nada que torne a minha dor maior ou menor que a sua, nenhum gráfico no qual possamos registrar a importância relativa de uma dor sobre a outra. As pessoas me dizem, ‘As coisas da minha vida estão muito difíceis agora, mas não tenho o direito de reclamar — não é Auschwitz’. Esse tipo de comparação pode nos levar a minimizar ou depreciar nosso sofrimento. Ser um sobrevivente exige aceitação total do que aconteceu”.

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ARTISTA: Fabiana Cozza