Fabio Pinczowski – fora do microfone, dentro da casa

O produtor conta como a sua “casa”, da arquitetura ao espaço de convívio familiar, influencia a sua produção musical

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Fotos: Caroline Bittencourt

No fim de tarde de uma quinta-feira, o produtor Fabio Pinczowski me atendeu pelo zoom, no celular, enquanto arrumava o estúdio Doze Dólares depois de um dia de gravações. Parando ocasionalmente para pôr a coleira no cachorro Lorde e deixar tudo no lugar antes de ir embora, ele contou que a correria é por conta de uma temporada intensa de trabalho – um projeto ainda em segredo ‒ que está prestes a começar.

Superadas algumas temporadas do Clubversão ‒ programa veiculado pela HBO, no qual Pinczowski e Mauro Motoki, reuniram artistas brasileiros de diferentes gerações para arranjar e gravar, em apenas um dia, clássicos da música popular ‒, o produtor lançou o seu primeiro disco solo, o instrumental Habilidades do Deserto. Em seguida, após a chegada do primeiro filho, ele passou o fatídico ano de 2020 em casa ao lado da família. Agora, ele se prepara para voltar gradativamente à rotina de produtor dentro de seu estúdio.

Sentado ao piano, que fica na cozinha da casa que foi de seu avô, uma construção escondida no Bom Retiro em São Paulo, Pinczowski conta como a “casa”, da arquitetura ao espaço de convívio familiar, influencia de uma ponta a outra a sua produção musical.

 

 

Me conta a história do estúdio Doze Dólares, que eu penso que está um pouco relacionado com sua história pessoal…

Esse estúdio tem uma narrativa de intersecções. Meu avô pegou essa casa e demoliu para em seguida construir uma nova casa para uma irmã que estava vindo da Guerra sem ter um lugar para morar. Depois, várias pessoas da minha família moraram aqui. Em 2005, fui eu que vim morar aqui e, aí, uma parte da casa se tornou estúdio. Então, por muito tempo, ele foi uma habitação, mas depois virou uma habitação com pedaços de estúdio.

Em 2009, tornou-se impraticável morar e trabalhar ao mesmo tempo aqui, porque a Alessandra (a esposa) e a Laura (enteada) já estavam morando aqui. Ficou morando todo mundo aqui com o estúdio funcionando, foi aquele momento mais caótico da história, geladeira com monte de comida e com um monte de gente trabalhando aqui. Aí chegou um momento que eu decidi que aqui seria só estúdio. O meu quarto na época, que depois virou o nosso quarto, por fim virou a sala de madeira: simplesmente botei uma porta acústica e tratei ele de madeira, botei um ar condicionado, fechei a janela e aí virou uma outra sala no estúdio para gravar

Aí a casa foi sofrendo cada vez mais reformas, otimizando o espaço para virar um estúdio. Em 2017, quando a gente foi fazer a temporada latina do Clubversão, a gente tirou os banheiros lá de cima e aumentou a sala de madeira para poder acomodar mais gente, pintou de preto, trouxe mais banheiros aqui para baixo. Também reformamos um pouco onde era a sala original do Doze Dólares, ocupando o máximo que a gente pôde da casa.

A gente trouxe alguns multicabos aqui para baixo, para a cozinha, para poder gravar o piano sem ter que passar cabo pela escada, fomos cada vez mais otimizando para poder ocupar a maior parte da casa. Hoje a gente consegue gravar com todas as salas ao mesmo tempo: a sala grande de madeira, a técnica, a cabine e a cozinha. E essa sala aqui embaixo, que era a sala de estar, também tem um conduíte chegando para ela mas eu não passei ainda o multicabo.

A ideia é que todas as cinco salas se comuniquem ao mesmo tempo. Mas para além disso a gente usa corredor, a gente usa a escada, da cozinha eu posso passar um cabo para outra sala. Então é um estúdio muito vivo e ele é um estúdio meio ágil. Eu queria fugir de um estúdio que demorasse muito para cabear de um momento para outro, porque se você tem uma ideia no lugar é fácil de poder gravar.

Depois de um tempo eu aprendi que pré-produzir discos, tanto musicalmente quanto executivamente, pensar muito como você vai gravar o disco, faz o disco ficar melhor e mais dinâmico. Então eu deixo alguns microfones “coringas” em cada sala, já tem um microfone perto para ideias que aparecem do tipo “vamos fazer uma zabumba aqui? vamos!”. A pior coisa é quebrar esse ritmo criativo porque você não passou um cabo ou porque não tem um fone de ouvido ali. Tem artista que não tem muita paciência e às vezes a ideia vai pro vento, então não é muito saudável você fazer com que o artista siga o seu ritmo, você tem que seguir o ritmo do artista. Tem artista que gosta de comer tarde, aí eu trago uma marmitinha para eu descer aqui enquanto o cara tá lá em cima. Tem cara que não gosta de comer, tem quem goste de comer mais cedo, então você tem que se adequar ao que a criatividade pede, eu acredito nisso.

O estúdio é simples, ele não tem milhares e milhares de microfones, mas tem o suficiente para gravar bem uma banda ao vivo, então dá para gravar o piano aqui, enquanto o cara toca baixo na salinha, enquanto o baterista toca na outra sala, e os guitarristas ficam na técnica ali.

“Acho que cada disco tem que ter o som dele, o do produtor e o da casa. Tenho um pouco de birra dessa super limpeza, esses discos ficam muito assépticos. Fujo cada vez mais disso, acho que o ruído é uma coisa que dá uma amalgamada no som. A vida no disco, o que está acontecendo fora do microfone, é importante para se situar no tempo-espaço”

Isso me faz pensar que a arquitetura, gravar nos diferentes cômodos da casa, deixa os discos gravados aí com uma personalidade definida.

Com certeza, a gente sempre bota o microfone aqui na escada que capta a ambiência da casa, a gente deixa a porta aberta. Eu fiz mesmo cada sala com uma acústica diferente, então a sala de madeira é mais viva, a técnica mais seca e a cabine é mega seca, e a cozinha é uma cozinha, você toca piano aqui e vem um som de “piano de cozinha”, por mais que tenha um certo tratamento no teto, o piso é vivo, de granilite. Tem o corredor, tem o barulho da rua do Bom Retiro, tudo isso fica impactado na atmosfera do disco. Para mim o mais importante de qualquer disco é a sua atmosfera.

Quando a gente grava disco em um sítio, a gente vai em busca disso. Não é “ah, vamos tentar tirar o máximo barulho do ambiente, dos grilos, não sei o quê”. Não, deixa a janela aberta e assume isso. Assim você fica com uma poeira constante rolando ali sabe, isso aí é a magia de cada disco.

Eu acho que cada disco tem que ter o som dele, e o som do produtor e o som da casa. Não sei, eu tenho um pouco de birra dessa super limpeza hoje em dia que as pessoas fazem, a superafinação e a superedição, pra mim esses discos são muito monótonos, e eles ficam muito assépticos. Eu fujo cada vez mais disso, eu acho que o ruído é uma coisa que dá uma amalgamada no som. Quando você gravava na fita, não tinha muito isso de ficar tirando tudo o que é som do negócio, assim você cria um vácuo, que não é legal. Eu acho que a vida no disco, o que está acontecendo fora do microfone, é importante para se situar no tempo-espaço.

Eu tive a oportunidade de conversar com o Martin Bisi há alguns anos. Ele é o produtor que gravou, entre outras coisas, o Swans e o Sonic Youth no começo de carreira. Enfim, ele contou a história do estúdio dele, o B.C Studios, que ele alugou uma locação no Brooklin, desceu no porão, abriu um alçapão e descobriu que embaixo da casa passava um rio. Daí ele gravou todas essas bandas que tem uma sonoridade densa, de volume alto, que devem muito a essa atmosfera subterrânea do estúdio dele.

Pois é, eu acho que eu acho horrível você tirar uma identidade única do local, falando do estúdio em si. Porque tirar né? Claro, se você quer fazer um disco realmente clean de violão, e você está atrás de um som limpo, você não vai gravar na cozinha porque realmente vai ter barulho de torneira, banheiro, vai ficar mais “vivo”. Isso caso você esteja a fim de um som que seja bem sequinho e tudo, mas acho que é importante explorar as adversidades que tem nas casas sabe. A galera vai atrás dos estúdios que têm o som característico, os estúdios famosos tinham os sons deles, o estúdio da Capitol nos Estados Unidos tem as câmaras de eco famosas, que gravaram Frank Sinatra, essas coisas assim. As pessoas vão atrás das salas que são boas de gravar sons específicos…

E falando nisso tudo então, como o Habilidades do Deserto acontece nesse esquema?

Eu gravei ele inteiro aqui antes da pandemia. Ele teve uma fase antes da reforma, na sala pequena de madeira, quando a gente gravou a maioria das baterias. Na verdade, duas músicas do disco eu mandei para amigos gravarem bateria remotamente, que são o Vitor Cabral e Bruno Silveira, porque eram músicas que já tinham uma guia de bateria, e eu queria terminar o disco, então eu mandei pra eles. Mas o resto do disco foi feito assim, num feriado eu vim pra cá sozinho, gravei algumas guias no clique, aí chamei amigos para preencher as músicas.

As outras músicas, três delas, “Lição Marítima” que é com o Ladislau Kardos, “Mantra da Recuperação” e “Terra Vermelha” foram feitas na hora com bateristas que vieram. O Ladislau chegou, eu montei a bateria dele, montei um set que eu inventei na hora, e falei “Ladis, a gente vai fazer a música agora”. Já “Terra Vermelha” e “Mantra da Recuperação”, o Lenis Rino, veio para cá numa quarta-feira de cinzas, virado 5 dias de carnaval, e a gente também compôs do mesmo jeito, ele tocando na cabine pequena de bateria, eu na frente dele, e fizemos a música na hora. Depois eles foram embora e eu completei a música.

O disco foi gravado meio rápido, mas teve a parada da gravação e depois de uma fase de redescobrir o disco, de abrir os arquivos muito tempo depois, um ano e meio depois. Eu abri o disco e comecei a escutar, e falei “nossa, tem isso aqui”, aí gravei um violão em cima de uma música, chamei a Nina Fernandes pra gravar um vocal em cima de outra e assim por diante.

Então o disco teve um momento de redescoberta. Na verdade, eu gravei, sei lá, quinze faixas e terminei lançado só sete. Porque eu achei que o recorte tinha a ver com essas sete músicas, tinham três músicas totalmente prontas que eu não usei, porque eu achei que não tinham a ver. Acho que a edição também é uma arte né, você saber que não precisa daquilo.

“O disco teve um momento de redescoberta. Gravei, sei lá, 15 faixas e terminei lançado só 7. Porque eu achei que o recorte tinha a ver com essas 7 músicas. Acho que a edição também é uma arte, né, você saber que não precisa daquilo”

As músicas sobreviveram ao teste do tempo.

Isso! E esse é um belo teste. Teve uma música que não sobreviveu ao tempo, ela foi limada porque eu achei que não tinha mais a ver. E tinha uma música muito boa, que não deu tempo de refazer, que era com o Victor Rice e com o Bruno Buarque que era meio um rocksteady com uma orquestração. Eu já estava há tanto tempo para lançar um disco que pensei “chega, tá bom essas sete, deixa eu trabalhar nelas e deixar elas do melhor jeito possível”. Daqui um tempo eu revisito essas outras e finalizo ou deixo elas perdidas. Eu já tô afim de começar a gravar outro disco. Só vou terminar essa temporada de trampo até Julho/Agosto e aí se der tempo agora começar a trabalhar no outro disco.

Legal, mais ou menos no mesmo esquema?

É, eu não sou super fã de gravação remota e eu gosto de estar com os amigos. Eu descobri que não gosto de fazer esse tipo de disco sozinho, que você chama o cantor e ficam os dois produzindo sozinhos, “ah, vamos programar uma bateria, agora toca você o baixo, toca você o teclado”. Eu prefiro chamar um tecladista, chamar um baterista e tocar todo mundo junto, por mais que você queira às vezes uma sonoridade desses discos que são gravados separados, eu prefiro tentar fazer isso com as pessoas e depois mexer. Não gosto de ter que cuidar de várias coisas ao mesmo tempo, eu gosto de chamar gente e abusar do talento das pessoas. Eu sei tocar baixo, eu sei tocar teclado, sei tocar guitarra, violão, mas às vezes é muito melhor chamar o baixista pra fazer o baixo, porque a gente ganha muita coisa com a ideia das pessoas.

Às vezes as pessoas acham que vai ser mais barato fazer assim, só que às vezes não, eu vou gastar mais tempo editando e criando, ele vai gastar mais diária de estúdio tentando criar tudo sozinho e se virar, do que chamar as pessoas e resolver tudo. No disco que vamos começar na semana que vem, vai ser gravada uma música por dia, no mesmo esquema do Clubversão. Se eu estivesse sozinho com o artista talvez eu tivesse que ter três diárias para gravar uma música com ele. Então para mim não faz muito sentido assim, eu quero gravar sempre com gente tocando junto.

Acho que não tem nada como a criação coletiva para mim, por mais que o artista tenha milhares de ideias eu gosto de estar com as pessoas no estúdio. Eu sofri muito na pandemia assim, de ficar gravando disco de banda à distância… eu não gosto disso cara, eu gosto de estúdio cheio, eu gosto de zona, a galera tocando junto. Eu gosto da jam session, quando os caras estão tendo uma ideia e aquilo às vezes vira uma introdução. Quando você está sozinho fazendo aquilo, você está sozinho tendo a ideia de todos os instrumentos ao mesmo tempo.

(Foto: Alisson Louback)
(Foto:Alessandra Dorgan)

Tem a ver com esse clima que a gente tava falando do ambiente, da arquitetura, mas também as pessoas que estão no ambiente também mudam o que vai acontecer né? Mas voltando a falar da casa então, eu queria te perguntar sobre a narrativa do disco, que foi um pouco inspirado nas fotos do seu pai.

É, foi uma viagem. Quando terminei o disco, eu falei para Alessandra, que me ajudou bastante nessa parte visual, “tem essas fotos, esses slides do meu pai, do Marrocos”. Então eu fui buscar com minha mãe, eram fotos da lua de mel dos meus pais no Marrocos em 77. Eu mandei escanear em alta. E aí, é muito louco né, porque começam a aparecer as relações: “essa música é essa foto”. E aí a música ganha uma outra dimensão, se você escuta a música olhando aquelas fotos, você entra numa viagem.

A ordem das músicas com as fotos cria uma imagem cinematográfica, fica tudo bem mais sinestésico. Eu sempre gostei da parte gráfica, acho extremamente importante isso. Com as plataformas digitais isso meio se perdeu, mas acho que daqui a pouco eles vão achar outra alternativa para ter mais parte gráfica acompanhando, porque o vinil era muito lindo, você abrir aquele negócio gigante e ficar folheando. Eu sempre gostei de ter imagens para cada música.

E por que essas fotos especificamente?

Ah, eu acho que é mais uma ligação familiar. São fotos da lua de mel com a visão do meu pai do lugar, depois trazer isso pra uma música que eu fiz 40 anos depois.

E você lançou o disco quando seu filho nasceu também né?

E aí ele nasceu, eu estava em casa e tinha tempo, eu pensei “vou montar a minha sala aqui para poder estar mais próximo”. Mixei lá e aí dediquei o disco à Alessandra, a Laura, o Ben e o Lorde que é meu cachorro que acaba sendo outro filho também. A minha família sempre foi muito próxima da minha música.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte