Falta Uma Palavra que Defina Kimbra

Entrevista por telefone, uma tarde com a imprensa, passagem de som, show em São Paulo e dj-set em festa. Era mais fácil entender a cantora antes disso tudo

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Fotos: Helena Yoshioka (exceto a última; créditos: monkeybuzz)

É isso, é difícil explicar Kimbra com precisão porque não existe um termo que compreenda suas muitas qualidades e que explique seu trabalho de uma forma direta.

Cantora? É claro, mas muito mais que isso. Artista? Sim, mas pode ter uma interpretação de “fama” ou de “celebridade” aí que não combina muito com a pegada que ela trabalha. Diva? Ah, por favor, né?

Semanas após um intenso contato com ela, essas questões permanecem no ar.

Talvez para quem está muito de longe, ou quem nunca esteve em um de seus shows, essa investigação possa parecer exagerada. Já quem estava ali no dia 18 de janeiro, naquela saudosa noite produzida pelo Monkeybuzz, entende que o que acontece no palco, discos e clipes é o retrato de uma das profissionais da música mais completas de hoje em dia, uma musicista que se destaca em todas as pontas do processo. Era mais fácil pensar em Kimbra antes disso tudo, quando ela era apenas mais uma ótima – talvez a melhor de hoje em dia – cantora/compositora/produtora.

Esse universo se expandiu pela primeira vez uma semana antes do show, em uma conversa por telefone. É interessante notar como sua voz de fala se aproxima da voz de canto, mas ela conversa em um tom misto de simpatia, calma e assertividade – na medida, uma vibe quase locutora. Ela contou sobre o quanto estava feliz por voltar ao Brasil (seu show no Rock in Rio em 2013 é um dos grandes momentos de sua carreira, segundo ela conta) e por se apresentar em São Paulo pela primeira vez. Também era a noite em que ela estrearia como DJ (sim, mais uma função pro currículo) em uma festa logo depois do show. Animada, ela disse que estava reunindo suas músicas preferidas para discotecar naquela madrugada.

Horas antes de assumir as pick ups, Kimbra passava e repassava essas faixas entre as várias entrevistas que fez no camarim do Cine Joia. Uma mão dava conta de pegar o almoço com hashis, enquanto a outra passeava pelos arquivos no computador. Chegava alguém, ela se levantava e, sempre com a mesma dedicação, colocava ao dispor do entrevistador seu sorriso e seu olhar atento. Arriscava também algumas frases em português, que disse ter aprendido para vir ao Brasil.

Sei que, falando assim, parece até que ela estava roboticamente programada para trabalhar assim, o que até combinaria com a estética futurista desse show, centrado no disco Primal Heart (2018), com direito a figurino metálico e maquiagem carregada. Mas tem um fator inegavelmente humano ali, seja no conteúdo mais emocional de muitas músicas, ou na maneira com que ela conversa. Sua presença é grandiosa, mas nunca intimidadora.

Acima de tudo, há a força criativa que ela traz para tudo o que faz. Ver Kimbra no palco impressiona pelo seu domínio vocal (sabemos que uma grande voz que nos chega gravada no disco pode ser muito diferente ao vivo), mas acompanhá-la na passagem de som chega a ser assustador. Sem roupa metálica ou pose de estrela, ela chegou sem alarde e fez a expressão “soltar a voz” fazer sentido de uma maneira espetacular em Human só para testar o microfone. Ela faz observações, para Lightyears na metade para dar direções para a banda usando as mãos e a voz, pede para começar de novo e comenta que seu retorno não está como na música anterior.

Isso faz tudo o que ela diz nas entrevistas (inclusive naquele nosso papo por telefone) sobre como ela está sempre muito ativa no estúdio, e é daí que surgem suas composições. “Gosto de sair tocando o instrumento que estiver na minha frente para buscar inspiração”, contou Kimbra animada e mexendo as mãos, “daí saio tocando notas e acordes em outros timbres até surgir algo que eu goste. Às vezes, logo aparece uma faixa, mas costuma ser um processo beeem looongo”.

Não tem como não dar algum nó na cabeça, por mais acostumado que você esteja com músicos de múltiplos e intensos talentos, estar diante de alguém com qualidades tão refinadas e que, ainda assim, se humaniza a cada gesto e palavra, se desmontando da pose de estrela no intervalo entre as músicas executadas com perfeição e rindo quando erra na discotecagem, dizendo sorry e logo voltando a dançar.

Conversando com Jaloo, que abriu o show, ele disse “artista completa”, mas parece que até em completa falta algo se o assunto é Kimbra.

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ARTISTA: Kimbra
MARCADORES: Perfil

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.