Feminismo no Funk Carioca – Verdadeiro ou Falso?

Mestranda carioca discute em sua tese um possível feminismo presente no estilo e é criticada na grande mídia e nas redes sociais

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A mais recente polêmica pouco importante das redes sociais é a relevância do estudo acadêmico do Funk Carioca como onda portadora de um viés feminista. A proposta para tal investigação veio da mestranda em Cultura e Territorialidade da Universidade Federal Fluminense, UFF, Mariana Gomes. Seu projeto de mestrado foi aprovado em segundo lugar e atende pelo singelo título de My Pussy É O Poder, no qual Mariana pretende investigar se a cantora Valesca Popozuda, em sua obra e atitude como entertainer, mostra ou difunde atitudes de cunho feminista. Tal notícia caiu nas redes sociais – aquele lugar onde todos são livres e cheios de opinião – como uma bomba. Muita gente a favor, muita gente contra, muita gente falando besteira em ambos os casos, mas a coisa realmente ficou maior quando a jornalista do SBT Rachel Sheherazade decidiu emitir opinião sobre a natureza do objeto de estudo, com palavras e atitude que mostravam claramente seu preconceito para com a condição de manifestação cultural própria do Funk Carioca e o comparou com a Bossa Nova, numa escala de valores claramente desfavorável.

A fala da jovem jornalista do SBT está, sim, equivocada e demonstra um preconceito que existe no Brasil desde sua formação como nação. Após a independência do país e da pacificação das várias revoluções ocorridas até que D. Pedro II pudesse assumir o trono, o Brasil se deparou com um problema interessante e inédito: quem somos nós? Quem são os brasileiros? A identidade nacional era inexistente, fruto da condição colonial que nos era imposta por Portugal. Foi feito um verdadeiro projeto intelectual de construção dessa identidade, a cargo de intelectuais com títulos acadêmicos obtidos na Europa, de origem portuguesa. A esses sujeitos foi dada a tarefa de descobrir quem nós éramos. Concluiu-se que o brasileiro era branco, europeu, descendente das tradições da metrópole. O índio, o negro, o mestiço e todos os não-europeus que habitavam o território nacional, passaram a ser, necessariamente bons, cordiais, pacíficos, incapazes de ir contra essa visão. Automaticamente, tudo o que era produzido – sobretudo a cultura – por parte desses grupos deixados de fora do projeto identitário nacional, foi considerado inferior e pouco importante. Desde muito tempo essa lógica permanece intacta, com raras exceções.

O Funk Carioca é algo que, como o samba, o maxixe, a capoeira, a feijoada e outras tantas manifestações culturais brasileiras, é alvo da apreciação cultural do grupo dominante, elitizado, encastelado no topo da cadeia do poder econômico e social do país desde muito tempo. A coisa funciona mais ou menos assim: não é limpinho e nosso? Então é pobre, feio e ruim. A lógica é essa e ponto final. Na maioria das vezes, as opiniões são emitidas sem qualquer conhecimento de causa ou realidade, baseadas apenas numa visão distorcida e distante da coisa real, tornando os julgamentos preconceituosos e vazios de conteúdo. Desta forma, necessariamente, o Funk Carioca é algo, por uma questão de “lógica”, feio, ruim e pobre, logo, não pertence a mais ninguém que não o seu público adjacente. Não é assim, pessoal.

Vejam, eu não ouço Funk Carioca e não vou a bailes por uma questão artística. A sonoridade, as letras, o conteúdo que é apresentado pelo estilo não me agrada em termos estéticos. Outro dia eu brinquei que não ouviria Funk Carioca a não ser se fosse pra salvar a vida da minha família. E eu mantenho tal afirmação sem qualquer medo de ser preconceituoso. Posso dizer que não ouço ópera ou música folclórica ucraniana também. Eu gosto de música bem tocada, bem cantada, com letras importantes, com vários critérios de execução que me tornam incompatível com a produção Funk Carioca. No entanto, eu não posso dizer que, em termos de produção cultural, ele é pior ou melhor que qualquer outro movimento/gênero que tenha surgido no país. As origens são legítimas, vindo da população mais pobre, desassistida de possibilidades e ação do estado, sempre desprivilegiada e relegada ao último plano de ação. O resultado de tanto desnível social e material traria a produção de valores e signos diferentes dos das classes mais elevadas. As origens passaram a ser diferentes, as realidades, distintas. Nada impede, no entanto, que haja interação entre elementos culturais distintos e aí está o grande erro desta abordagem.

Para os detratores do projeto de mestrado de Mariana Gomes, não há em qualquer artista feminina de Funk Carioca o estofo intelectual para que suas atitudes ou letras tragam alguma carga feminista. Para os defensores, é evidente, sem sombra de dúvidas, que há tal carga, porque Valesca Popozuda, como diz a própria Mariana, “é diva”. A quantidade de erros ao longo do processo de discussão do tema é tanta que dá nos nervos. Vamos a eles.

Valesca Popozuda canta letras com alta carga erótica, com versos como “raspei a xereca pra você chupar” e por aí vai. Para ouvidos mais delicados, só a crueza dos termos fica e um provável discurso se vai. Na minha única e personalíssima opinião, de maneira superficial, não há carga feminista presente na atitude rebolativa dela e de grupos como Tequileiras do Funk, Jaula das Gostosudas e por aí vai. É mais uma variante do jogo da sedução, temperado pelos signos dos lugares, pelas relações, pela necessidade de maior resistência a ambientes sem atenuantes sociais. Não me parece que as mulheres estejam bradando por uma independência ou melhoria em suas condições de vida, como no caso do feminismo “clássico”, cujo ápice se deu após o advento da pílula anticoncepcional e de conquistas plurais, sobretudo na década de 1960. Não vejo em Valesca e sua galera, uma necessidade de, através de um pussy power, conseguir mudanças em condições sociais. Também não detecto alguma ação visando melhorar relações sentimentais existentes ou mesmo passar a estabelecer tal tipo de vínculo a partir de algo conseguido com o tal pussy power. Vejam, amigos, é uma opinião pessoal, vista de longe, passível de todo tipo de ressalva. Não é porque não detecto isso em algumas letras que a realidade e as experiências dessas mulheres não sejam capazes de lhes conceder informação e necessidade de mudança em busca a algo diferente do que têm hoje. Não é preciso ilustração para essas mudanças, a História nos ensina isso.

O grande erro, portanto, está na visão elitizada das pessoas. Há uma grande confusão nesse sentido, que passa, necessariamente, pela hierarquização da cultura. Mais ou menos assim: a “minha” cultura é melhor que a de vocês. E ponto final. É o intelectual amigo de D. Pedro II bolando o projeto de identidade nacional via Europa. Isso é errado. A cultura é produzida aos borbotões em comunidades carentes ao longo do território nacional. Podemos achar bom ou não e devemos achar péssimo quando a grande mídia se apropria de manifestações culturais genuínas e as desfigura para conquistar audiência. Isso é um grande desserviço ao processo de legitimação dessas formas. Programas como o Esquenta, da Rede Globo, que mostram artistas populares em um palco circense, comandados por Regina Casé, são, na verdade, mantenedores de uma lógica exclusiva e servem à ridicularização desses elementos culturais. Não há porque pensar que o povo das comunidades carentes não queira ter acesso a educação superior, o único caminho palpável para a melhoria de vida. A lógica da mídia, ao engrandecer – sem a via de mão dupla – a condição de vida que tais pessoas experimentam em seu dia a dia, só faz sepultá-las numa realidade em que elas serão, no máximo, jogadores de futebol, capoeiristas ou ritmistas, com destino fadado ao curso técnico de má qualidade. Sempre serão massa de manobra para a manutenção dessa realidade. Há, sim, muito o que mudar nessa realidade e, por mais que ela produza elementos culturais que devam ser levados a sério, o pessoal não conseguirá passar num concurso público, escrever direito, se formar, mudar para um lugar melhor e viver com menos sobressaltos. Integrar a sociedade não é traição, não é ceder ao inevitável, talvez, nesse caso, seja conquistar a liberdade de poder apreciar coisas novas, aspirar novas realidades e, quem sabe, um dia apresentar um programa na televisão com mais chance de falar a mesma língua dos iguais.

Detalhes à parte, a manifestação conservadora da repórter do SBT tem no projeto de mestrado a sua contrapartida. Pra isso existe o ambiente acadêmico, para o entendimento e análise desses fenômenos, nunca para a discriminação. Temos um longo caminho pela frente e estamos trilhando a longa estrada, na qual deverá estar reservado a cada um o direito de ouvir o que quer, sem que seja necessário diminuir o que não é igual. É difícil, mas estamos avançando.

(A imagem que ilustra o texto faz parte do projeto FUNK YOU (FNKU))

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MARCADORES: CEL

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.