Fernanda Abreu, há 30 anos, presente – e futuro

Uma eterna otimista, a cantora carioca completa três décadas de carreira e não perde a esperança de que a “capital do sangue quente, do melhor e do pior do Brasil” esteja chegando ao fundo do poço para depois subir

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Fotos: Divulgação

Há mais de 30 anos, a música dançante brasileira vem sendo moldada por alguns elementos marcantes e diversos: a Axé Music, inaugurada oficialmente com “Fricote” (1985), de Luiz Caldas; o Funk carioca de DJ Marlboro no disco Funk Brasil (1989); e as músicas de uma turma que ajudou a caracterizar o som popular dos anos 1990. Entre alguns caras como Carlinhos Brown e Lenine, e grupos como Nação Zumbi e Racionais, estava a ex-Blitz Fernanda Abreu.

Depois de passar os anos 1980 acompanhando a banda de Pop Rock, ela iniciou a década como uma artista solo de som de pista, de música Pop. O álbum Sla Radical Dance disco Club (1990) foi o primeiro passo para o estilo que definiria a sua carreira ao longo de sete discos e diversas parcerias, como as com os compositores Herbert Vianna e Fausto Fawcett. Pioneira no uso de samples, Fernanda é autora de algumas músicas que representam com precisão a década de 1990 – mas que, ao mesmo tempo, permanecem atuais.

“Tenho uma relação forte com a música dançante, a minha formação é em cima da música negra – Samba, Funk americano, Funk carioca, Disco, Hip Hop, Rap. No Brasil, as pessoas que sempre curti foram Tim Maia, Cassiano, Hyldon, tudo de Soul e Samba Funk”, conta Fernanda. Misture isso a letras irreverentes, histórias para contar e muitas reverências ao lugar que lhe trouxe ao mundo.

Em “Rio 40 Graus”, do álbum Sla 2: Be Sample (1992), a cantora fala sobre a cidade que contém cidades misturadas e camufladas. “Com governos misturados, camuflados, paralelos, sorrateiros, ocultando comandos”. Hoje em dia, Fernanda trocaria um detalhe: “mudaria que eu incluiria milícia, algo que não tinha nos anos 1990.” Uma eterna otimista, não perde a esperança de que a “capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil” está “chegando ao final do poço para depois subir”.

Forte reduto eleitoral de Bolsonaro, a capital passa por um baixo astral generalizado. Em uma relação de preocupação e fascínio, a cidade permanece uma inspiração constante para a artista. “Acredito que todo mundo seja assim, ter esse DNA na gente, quando vive em uma cidade, um dos cromossomos é a cidade, o urbano”, diz sobre sua relação com o Rio de Janeiro. Garante que não abandonaria o barco e está sempre em busca de transformação.

No momento, ela trabalha como nunca, cuidando de alguns projetos para comemorar a carreira produtiva e ativa. “Quando comecei meu Pop nos anos 90, falavam que música Pop é descartável, acho importante celebrar, está rolando até hoje”. No dia 13 de março, Fernanda gravou o DVD do show ao vivo do disco Amor Geral (2016), seu último trabalho. Com um detalhe: sem público, porque o governador Witzel baixou o decreto de isolamento social às 19h. A apresentação estava marcada para as 21h.

Sua rotina de quarentena envolve filmes de madrugada e trabalho até tarde, para finalizar o vídeo (“chamo de primeiro filhote do covid”). Ao lado do DJ Memê, está produzindo o disco Fernanda Abreu 30 anos de Baile, no qual gravou novas vozes para 11 músicas remixadas por DJs como Zé Pedro, Dennis DJ, DJ Corello, entre outros. Cada convidado escolheu a música com a qual desejava colaborar. “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá” (Raio X, 1997), “Você Pra Mim” e “Space Sound to Dance” (Sla Radical Dance Disco Club), são algumas das que irão ganhar as pistas do mundo pós-covid com batidas de Funk, House, Charme, entre outros gêneros dançantes.

Ela prevê um disco de inéditas para 2022, se tudo der certo, e o ano que vem será para viajar com a turnê do último álbum. Em março, uma música inédita: “Do Ben”, homenagem ao grande ídolo Jorge Ben Jor. Fernanda ainda planeja uma exposição com a trajetória visual de sua carreira e, enquanto finaliza os projetos, segue participando de lives, ajudando instituições e procura maneiras de manter os salários de sua equipe.

Você está usando a quarentena para revisitar discos? 

Vou te falar que não estou tendo tempo para escutar música. Acordo de manhã, durmo tarde, faço uns exercícios, sento para trabalhar e levanto meia noite. Tem muita solicitação que chega de última hora. Estou sempre disposta a colaborar, fazer vídeos, para ajudar a galera que está se organizando, o pessoal que está sem grana. Estou me organizando para vender live, show, se eu conseguir fazer isso é bom porque consigo repassar o cachê para a banda e a equipe. Chegam muitas demandas, Mães da Favela, Central da Periferia, SOS Graxa, Backstage Solidário, quem está precisando de ajuda.

A música está passando por transformação desde o começo dos anos 2000. Mudou completamente a relação comercial, que acho desigual. Nesse momento, precisamos mais do que nunca de um equilíbrio maior de remuneração nas plataformas digitais e como criadores de conteúdo. Nunca se escutou tanta música e ninguém consegue sobreviver disso – tem algo errado nessa equação. Hoje, os artistas estão sem poder ir para estrada, sendo que fazer show representa 90% da renda desses caras que não fazem publicidade o tempo inteiro. Lançar e produzir o disco hoje é completamente diferente dos anos 90. Os artistas assinavam contratos com as gravadoras, elas pagavam o CD, o marketing, promoção, a tour, vendiam os discos… A gente tinha um percentual menor, mas não tinha que tirar do nosso bolso para produzir esses conteúdos. Hoje em dia o artista tem que produzir o disco, single, DVD, fazer a promoção, o marketing, impulsionamento. Esse modelo já está mudando um pouco, todo mundo está vendo que existe uma possibilidade de fazer uma sociedade com a gravadora, sinto que as coisas estão em transição.

MULHER DE NEGÓCIOS

“A minha dificuldade é me desligar. Assisto filmes de madrugada, vou dormir umas cinco da manhã, acordo às 11h para trabalhar com as coisas da minha equipe – quem está mixando, o figurino, preciso falar com todo mundo. Foi uma escolha minha de ter uma editora/gravadora para lançar meus produtos e virar essa mulher de negócios. Acho bom ter independência e um controle maior da carreira.

Também acho muito importante olhar para o corpo, nem que seja meia hora, para fazer um alongamento e respiração. Deitar no chão, respirar, fechar o olho, ouvir seu corpo. Adoro poesia, tenho lido livros que já li na vida, Chacal de novo, gosto muito. Tenho que confessar que o que eu tenho lido mesmo é contrato. De qualquer maneira, a poesia me leva para um lugar muito criativo, muito lúdico. Eu e Tuto sentamos às duas da manhã para assistir um filme por dia.”

E me conta: como começou a sua ligação com o Jorge Ben Jor? 

Sou muito fã desde pequena. Tenho uma relação forte com a música dançante, a minha formação é em cima da música negra – Samba, Funk americano, Funk carioca, Disco, Hip Hop, Rap. No Brasil, as pessoas que sempre curti foram Tim Maia, Cassiano, Hyldon, tudo de Soul e Samba Funk. O Ben Jor, em especial, é um grande ídolo e referência. A primeira vez que ouvi algo dele, com certeza, foi na casa dos meus pais, eles gostavam muito de todos os tipos de músico. Desde os mineiros do Clube da Esquina, Elis Regina, Tom Jobim, Tropicalismo, Gil, Caetano… Muito Samba porque eles tinham um conjunto. Acho que foi “Chove Chuva”, do Samba Esquema Novo (1963).

Saindo dos anos 1980, lancei meu primeiro disco totalmente autoral de música dançante. No segundo, fiquei com vontade de fazer uma regravação de MPB. Fiz “Jorge da Capadócia” e foi bem legal. O Ben Jor me ligou, a gente se encontrou, ele falou que adorou e participou do clipe. Em 2004, gravei “Eu Vou Torcer” no disco Na Paz, que caiu como uma luva. Ele adorou a versão. Chamei ele para participar da “Zazuê (do mesmo disco).

Quando chegou 2018, encontrei o Pedro Luís, meu parceiro, falei que estava com vontade de fazer uma música para ele. Escrevi uma letra, mandei pro Pedro, ele fez a música, a gente ficou nesse bate bola até que resolvi gravar esse ano, antes do aniversário dele (22 de março). Como o Spotify lança às sextas, saiu no dia 20. Mandei e ele adorou. Falei: “pô, Ben Jor estou usando samples” – ele é bem chato, não autoriza nada. Falei: “será que poderia usar?”. Ele disse: “você pode tudo minha musa vascaína funkeira”. Consegui com as gravadoras através do Ben Jor. Muito legal, adorei o resultado. Chamei a Grooveria, que faz esse Samba Funk Jazz, que eu adoro, porque era exatamente essa pegada que eu queria para a música.

Também adorei a ideia da capa. O Murilo Alvesso, fotógrafo, falou para fazermos uma referência do LP Jorge Ben (1969). O empresário disse: “só não me coloca o escudo do Vasco no violão”. Coloquei o logo da Grooveria. Muito gratificante fazer uma música e saber que o Ben Jor gostou. Na época em que fiz um show acústico, cantei algumas do primeiro disco dele – “Tim Dom Dom” e “Vem Morena Vem”. Dá pra ouvir só o A Tábua de Esmeralda (1974), o Jorge Ben (1969), o Ben Jor (1989)… Quando vou andar, coloco a discografia e vou ouvindo.

“Falei: ‘pô, Ben Jor estou usando samples’ – ele é bem chato, não autoriza nada. Falei: ‘será que poderia usar?’. Ele disse: ‘você pode tudo minha musa vascaína funkeira'”

Nesses 30 anos de carreira, você testemunhou diferentes momentos da música nacional. Para que lado do Pop você vê a sua música caminhando? 

Passamos por vários ciclos diferentes nesses últimos 40 anos. Nos anos 1970, a trilha sonora que imperava era a chamada MPB – Chico, Caetano, os mineiros, Djavan. Uma força grande que já vinha desde os anos 60, com Edu Lobo, os festivais de música, tudo muito importante para solidificar a importância da música popular brasileira. O Samba sempre teve seu espaço por todos esses momentos.

De maneira geral, anos 70 foram da MPB, 80 do Pop Rock, da juventude saindo da ditadura, do Paralamas, Blitz, e tantas bandas dessa juventude. Nos anos 90, o Axé surgiu forte e também essa nova música brasileira, onde eu surgi, ao lado de Chico Science, Carlinhos Brown, Lenine, que incluiria a linguagem brasileira dentro da música Pop. Uma galera que botava uma linguagem mais brasuca na música. Nos anos 2000, seguiram nessa onda com uma força do Hip Hop, que já estava rolando com os Racionais desde o início dos anos 90. O Funk carioca também surgiu ali, com Marlboro em 1989. O Funk carioca se criou nos anos 90 – o Funk Melody, Funk Raiz, Proibidão, Sensual, o Leozinho, que era mais digerível pela elite brasileira.

“O Funk, como linguagem, entrou definitivamente na produção do Pop”

“Acho que nos anos 2010, por aí, com o surgimento da Anitta, especialmente, fazendo um Funk Pop, deu uma guinada na música Pop nacional. A própria Anitta, Ludmilla, toda a galera que você vê hoje. Meninas que nem eram funkeiras usando essa linguagem, como a Luisa Sonza. Ou seja, o Funk, como linguagem, entrou definitivamente na produção do Pop. Eu não saco muito de sertanejo, não tenho uma relação, sou uma pessoa muito urbana, não conheço tanto a música do interior. Percebo que o sertanejo também está tentando chegar junto, alcançar uma linguagem mais Pop.

O que seria uma música caipira brasileira cantada com uma viola hoje tem uma roupagem muito mais Pop. Hoje é essa mistureba. Quando alguém chega no estúdio, o cara vai usar muita programação, não tem gente tocando bateria, é algo mais programado em cima desses beats. Os beats variam, puxa pro Trap, Funk, Hip Hop. A gente vive na música Pop a era dos beats. Tenho a minha assinatura. Minha linguagem sempre foi misturada, mas sempre gostei de banda.

A coisa do bumbo eletrônico com surdo de samba, o som de caixa com tamborim, sempre misturei sons orgânicos com programados, esse equilíbrio vai norteando as novidades do meu som. Quando eu elejo determinados sons para as músicas, acho que elas também me pedem certo tipo de beat. Depende do que a música pede. A minha parada é misturar timbres descobertos em estúdio com plug ins e músicos tocando baixo, guitarra, bateria, percussão – vou misturando.”

“A letra de ‘Rio 40 graus’ continua muito atual, poderia ter sido escrita ontem, mudaria que eu incluiria milícia hoje. Me entristece porque o Rio sempre foi uma cidade avant garde, libertária, inventiva, criativa, sedutora, gentil, sabe?”

O seu último disco, Amor Geral (2016), ganhou novos significados com a epidemia? 

Tem uma inspiração autobiográfica, música para o meu ex-marido, minha mãe, meu atual. Ele tem uma coisa que não fala só de um amor romântico, fala dessa história de amor geral, do que a gente está precisando nesse momento. Mais do que nunca. Um CD de 2016, mas atual, agora no meio dessa epidemia. Uma outra possibilidade de visão de mundo que a gente pode ter a partir do que estamos vivendo. Podemos falar que sofrimento é difícil, mas é uma espécie de aprendizado. Todo mundo acaba sofrendo com covid, quem perdeu familiares, quem não perdeu, todo mundo está sensível em ver algo que está existindo no mundo todo. Um beliscão para ligarmos o alerta, tentar redefinir e ressignificar como a gente vivia antes. Não só no mundo real mas no virtual. Ainda bem que temos essa tecnologia, se fosse nos anos 90, estaríamos pirados. A gente pode falar por telefone, ver a cara delas no Facetime, se comunicar com todo mundo por WhatsApp, live. Essa tecnologia está sendo muito importante. Esse sofrimento como uma oportunidade de mudança. O mundo não vai voltar ao normal, precisamos ressignificar o capitalismo, o consumo, as relações, a desigualdade, a falta de oportunidade, coisas que ficaram claras nessa pandemia. O amor geral falava sobre isso: olhar o outro, não olhar só para você mesmo.

A cidade ainda te inspira? 

Continua sendo uma inspiração, porque, de certa maneira, é por onde eu olho o mundo. Eu vivendo, saindo na rua, olhando as pessoas. Por aí que consigo observar o homem, é através desse olhar carioca que olho o Brasil e o mundo. Acredito que todo mundo seja assim, ter esse DNA na gente, quando vive em uma cidade, um dos cromossomos é a cidade, o urbano. Cara, o que vejo hoje no Rio, confesso que fico triste, atualmente eu sofro. A letra de “Rio 40 graus” (1992) continua muito atual, poderia ter sido escrita ontem, mudaria que eu incluiria milícia hoje, algo que não tinha nos anos 90. Uma situação complicada. A educação está muito ruim nas escolas, nas universidades, sem verba, incentivo. Não valorizam a educação, os cientistas, intelectuais, literatura, está muito difícil para quem vive disso. Isso acaba afetando o carioca, que hoje é uma pessoa muito mais estressada, sem educação, agressiva, então fico triste. Por exemplo, é um grande reduto eleitoral do Bolsonaro.

Me entristece porque o Rio sempre foi uma cidade avant garde, libertária, inventiva, criativa, sedutora, gentil, sabe? Sorridente para os outros, de braços abertos como o nosso cristo, hoje vejo penalizado, mas não perco a esperança. Uma cidade que tem o legado de ter sido capital da corte, tem uma história muito grande, tem uma força enorme, continua com suas belezas naturais e magnificas. O povo tá bem massacrado, apanhamos muito nos últimos anos, é necessário conscientização política nesse momento. Estamos em um momento descendo no fundo do poço para tocar e subir.

“O mundo não vai voltar ao normal, precisamos ressignificar o capitalismo, o consumo, as relações, a desigualdade, a falta de oportunidade, coisas que ficaram claras nessa pandemia”

Já pensou em abandonar o Rio de Janeiro? 

Não, nunca pensei em sair da cidade porque tudo isso me alimenta – minha arte, minha música… Não conseguiria ficar alheia. Todos os dias, penso que não vou ler o jornal, afinal, só tem notícia ruim. Não consigo viver esse tempo sem viver intensamente, preciso saber o que está acontecendo. Não tenho a menor afinidade com essa coisa de alienação, ir pro interior pra pensar, pensar em quem? Em mim? Na minha vida? Grande coisa! A vida da gente acontece, depois a gente morre. Tem que estar presente, tem que pensar nos outros, no coletivo, em como deixar a minha cidade mais legal para todo mundo, que meu país seja mais legal para todo mundo. Precisamos lutar contra a desigualdade, ser a favor da vida, das mesmas oportunidades, ser contra a homofobia, contra o racismo, contra a violência da mulher. Ir para o interior, ver um dia lindo e plantar alface? Tem gente que consegue, não estou julgando ninguém, mas da minha personalidade isso é impossível. Talvez quando eu estiver cansada, com 80 anos, vou para um sítio. Ainda me sinto com vigor e energia suficiente para ir atrás de uma situação melhor para mim e para todo mundo. Uma frase que li e achei legal: não dá para ser totalmente feliz quando ainda existir uma criança miserável no país.

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