Fernando Motta: A Criação da Destruição

Músico mineiro destrincha o processo de produção do ótimo “Ensaio Pra Destruir”, seu terceiro disco, e fala sobre as peculiaridades da cena independente de Belo Horizonte

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Fotos: Arthur Lahoz

“O ensaio pra destruir é o sobressalto que me acende”. O título do terceiro álbum de Fernando Motta ecoa logo que ele começa, ao final da primeira e única estrofe de “Insetos Rondam a Luz Acesa”. Não é necessária muita interpretação para entender que Ensaio Pra Destruir veio para iluminar a criatividade do cantor e compositor mineiro na época de sua produção e lançamento – tanto na sua carreira, quanto no mundo pandêmico em que a obra se desenvolveu.

“É a criatividade enquanto a manutenção da nossa sanidade”, contou Fernando em entrevista ao Monkeybuzz, quando questionado sobre o propósito que o álbum carrega. “Eu não esperava lançar esse disco agora, que é o pior momento de todos”, continua ele, “até pensei se esse destruir aí não seria levado para um lado errado. Esse título é muito aberto e leva a muitos lugares, mas talvez a principal coisa seja pensar no que você quer destruir e o que quer construir, quais os elos dos quais vale a pena se desprender. Acho que é um disco sobre desprendimento, e acho que a forma de fazer isso é imaginar”.

Os versos presentes no disco são igualmente abertos, montando figuras de linguagem que mais parecem peças de quebra-cabeças cheias de substantivos que o ouvinte monta como bem entender. É uma maneira de nós, de alguma forma, participarmos da criatividade que o salvou durante a pandemia.

“Acho que a temática passa muito por pensar onde e com quem eu quero estar”, comenta o músico. “Esse processo nosso de quarentena foi, talvez para muita gente, um momento de revisar o que você estava fazendo da sua vida, com quem você estava e onde, se você quer continuar assim, se movimentar… sabe? Acho que passou muito por esse momento de revisar algumas situações e pensar no que não quero mais e o que eu quero”, aponta Fernando, que vê Ensaio Pra Destruir como “um disco de desprendimento, de se imaginar em situações”. “Que as pessoas talvez consigam fazer isso também e tenham um momento de alívio”, deseja.

“Eu me encantei ao te ver desmanchar
com dentes de ouro
rubis do pomar, brilho intenso
lixo estelar
envolto em nuvens de cetim
ao te ver dançar
sobre as uvas
doce intuição, o elogio à destruição”

(“Elogio à Destruição”)
“Penso em meus amigos
e enxergo os vasos que eu fiz
eu mesmo fiz
feito quando eu tentei ter flores
e todas morreram
feito quando 
um arco-íris torto
morreu nos meus pés”

(“Contraditória 2”)

A conexão com o outro em Ensaio Pra Destruir é bem mais positiva do que nos versos de “Contraditória 2”. Se a finalidade da obra está no ouvinte, Fernando estava também em companhia nas gravações do álbum. Logo na já citada primeira faixa, ele desenvolveu uma parceria com Mafius, que “sugeriu” synths para a música. “Ele acompanhou muito de perto essa composição, ele que me ensinou a mexer no Ableton direito (risos)”.

Eduardo Praça, que atende hoje como Apeles, foi convidado para “Salve Engano” porque a música lembrava Fernando de uma de suas composições, “Vesânia II”, gravada em Quarto Negro (2011). “Sou muito fã dele, ele tem uma aura, um negócio assim de inspiração mesmo”, conta Fernando. “A sonoridade em que ele chega, a energia que ele passa, é uma coisa que eu queria muito conseguir passar também”. Completa o trio de participações João Viegas, das bandas Raça e Ombu, em “Perfeição”. “Ele publicou no Twitter que queria fazer mais músicas com amigos, e eu já tinha pensado nele. Acho que essa música tem uma cadência meio Lô Borges, e eu vi que ele tava pirando nessas paradas assim, sabe? Aí ele tocou piano e eu fiz umas doideiras a mais em cima”, nas palavras do músico.

O parceiro mais significativo, porém, é Vitor Brauer, produtor do disco, com quem Fernando já tinha amizade há muito tempo e firmou parceria criativa com a banda Ginge. “A gente já tinha muito em mente uma dinâmica de como trabalhar, de como um lida com o trampo do outro”, conta ele sobre a escolha de Vitor na produção. “A gente já saber como um se comporta no estúdio, o que cada um gosta e o que cada um gosta demais, daí o outro precisa segurar um pouco”.

Vitor, assim como Mafius, é companheiro de Fernando também no coletivo Geração Perdida de Minas Gerais, que impulsiona o cenário alternativo e independente de Belo Horizonte. Suas produções têm entre seus temas a inspiração metalinguística de cantar sobre as dificuldades de viver de música na capital mineira. Ao ser perguntado sobre “Essa Cidade Não Existe” estar inserida no universo lírico do coletivo, ele responde: “É engraçado BH ser um tema recorrente na Geração Perdida, mas acho que é mesmo um lugar de um círculo menor onde as coisas são mais pungentes, [então] os conflitos se destacam mais. Tem muita coisa boa aqui, mas tem também uma característica provinciana muito forte. A cidade tem uma característica muito grande de te manter no chão, de te fincar aqui”.

“Estavam chamando a gente de Rock Triste (risos), isso estava meio estigmatizado. Mas não queria ser o cara triste fazendo música triste sobre estar triste dentro do meu quarto, entende? O processo veio de me imaginar em situações. Tem uma frase do Fellini que fala de narrações de recordações inventadas. E o disco é isso: me imaginar nessas situações e pensar o que sai e o que fica disso”

Assim como Fernando faz em Ensaio Pra Destruir, as criações da Geração Perdida também têm conectado pessoas através da criatividade, tendo inclusive agregado músicos de fora da cidade – “se [o coletivo] foi criado para ser um reduto para pessoas que não se sentem inseridas, para elas se acomodarem em um lugar, acho que faz sentido também entrar mais gente”, comenta ele. “Sinto que ainda tem uma segregação de cenas muito forte, mas não sei se só aqui”, conta o músico, “talvez seja um sentimento em comum por todo [artista em uma cena independente] de qualquer lugar, de que tem uma galera que se identifica e apoia e outra galera que, sei lá, parece que torce para dar errado por várias questões, seja de classe ou de visão de mundo”.

“Andando pelo centro, pelo mercado
ninguém tem nada a ver
e nunca houve chance de sair
Belo Horizonte não existe
o que eu e o mundo temos em comum
não te interessa”

(“Essa Cidade Não Existe”)
“Deformidades no espelho
e meu espelho
foi você
enquanto meu fracasso
foi seu prazer secreto”

(“Oslo, 31”)

“A galera estava chamando a gente de Rock Triste (risos), isso já estava meio estigmatizado. Mas eu não queria ser o cara triste fazendo música triste sobre eu estar triste dentro do meu quarto, entende? O processo veio de me imaginar em situações. Tem uma frase do Fellini que ele fala de narrações de recordações inventadas, e [Ensaio Pra Destruição] é isso, é me imaginar nessas situações e pensar o que sai fora e o que fica disso”.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.