Florence + The Machine No Horizonte

Grande é a expectativa para lançamento de “How Big How Blue How Beautiful”

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Os próximos dias assistirão ao lançamento de How Big, How Blue, How Beautiful, terceiro e novíssimo álbum de Florence + The Machine. Não há qualquer exagero em cravar que o grupo é um dos grandes nomes mundiais da música Pop, algo que só pode soar estranho aos ouvidos de quem esteve hibernando ou fora do planeta nos últimos cinco, seis anos. A receita musical de Florence Welch, sua amiga Isabella Summers e sua banda é precisa e poderosa, além de acrescentar personalidade a um cenário de artistas femininas com “personalidade” ou “atitude” pra lá de questionáveis ou, na maioria dos casos, sem qualquer movimento neste sentido, fornecendo material humano descartável para as paradas de sucesso. Florence não cai nessa esparrela e se sai bem com sua ruivice, seu figurino oscilando entre Terra Média e Hogwarts, além de ter um saudável pé nos famigerados anos 1980, mas num terreno pouco visitado daquele tempo, onde também estão artistas como Kate Bush e Siouxie Sioux. Além delas, PJ Harvey é outra influência bem presente. Florence merece nosso respeito.

O primeiro disco do grupo, Lungs, foi lançado em julho de 2009, chegando ao topo das paradas no Reino Unido alguns meses depois. Foi fruto da parceria musical entre Florence e Isabella, que são amigas desde muito tempo e costumavam ter uma dupla chamada Florence Robot/Isa Machine com pouca ou nenhuma projeção na cena de South London. O processo criativo e as influências das duas são praticamente iguais, sendo que Florence chegou a participar de uma banda chamada Ashok sem muito resultado. De volta com a velha amiga, ela partiu para uma nova fase, já sob o nome Florence + The Machine e uma canção dos velhos tempos: Kiss With A Fist. Os primeiros versos são reveladores: “You hit me once, I hit you back. You gave a kick, I gave you a slap. You smashed a plate over my head, then I set fire to our bed”. Com letra endereçada para um ex-namorado, a faixa veio puxando o álbum e caiu como uma bomba na Inglaterra. Toda uma geração de adolescentes se encantou imediatamente pela figura de Florence e, como se não bastasse o fascínio visual, a nova candidata a musa ainda chegava com um discurso anti-cafajestagem masculina acima de qualquer suspeita. Como moldura musical, um insuspeito Rock cheio de energia e oscilações. Foi amor imediato.

Kiss With A Fist fora lançada como single ainda em 2008, assim como Dog Days Are Over – igualmente legal, mas totalmente diferente em termos estéticos. Enquanto a primeira é bem irônica e bem humorada, cheia de combustão Pop Rock, a segunda é suingada e com uma interessante inclinação para uma variante branca de Soul Music, algo que a Inglaterra possui desde os tempos de Dusty Springfield. Só que Florence não tem nada a ver com nostalgia, pelo menos, não com sua utilização em papel de destaque. Os elementos musicais são adicionados ao todo e em grande número. Os vocais da moça, poderosos e melodiosos, não se inserem em nenhuma tradição de música negra, mas há algo em comum em algum lugar. Além disso, o grupo tem uma noção bem precisa de que o visual pode se tornar um poderoso aliado. Desde o início os figurinos de Florence são colocados a favor de uma linha que mistura beleza e absurdo em doses iguais. Funciona bem em clipes e em shows.

No início de 2010, Lungs chegou ao primeiro lugar nos Estados Unidos. As canções do grupo começaram a aparecer nas séries televisivas de lá, sendo que Dog Days… teve destaque especial em episódios de Glee e Gossip Girl e ainda figurou na trilha sonora do filme Comer, Rezar, Amar. Logo depois ainda fizeram sucesso Between Two Lungs (a preferida deste escriba), cheia de malemolência minimalista, Rabbit Heart (Raise It Up), Drumming Song, You’ve Got The Love e Cosmic Love, todas lançadas em single e com clipes épicos/confessionais, para cravar a imagem de Florence Welsh no imaginário da audiência (majoritamente feminina e adolescente). Com a exposição na Inglaterra e o sucesso alcançado nos Estados Unidos, o grupo lançou-se em excursão permanente, chegando a tocar em quase todos os festivais de verão em 2010 e imprimindo sua marca audiovisual por onde passou. Outra canção, Heavy In Your Arms, entrou para a trilha sonora do terceiro filme da Saga Crepúsculo, Eclipse, em 2010.

Em outubro de 2011, o grupo lançou o segundo álbum, Cerimonials. O primeiro single, Shake It Out, sintetiza a evolução constante do grupo. A produção de Paul Epworth (também responsável pela estreia) novamente valoriza a mistura sonora do grupo, na qual a voz de Florence tem peso levemente superior à massa de instrumentos acústicos e elétricos que surge de todos os lados. Meses depois, a canção seria vencedora do Grammy de Melhor Performance de Grupo. No meio do caminho, a banda lançou seis singles e retomou seu roteiro de turnês e apresentações ao redor do mundo, tendo incluído o Rock In Rio no itinerário, no qual Florence ganhou a plateia com a habitual mistura de sua música e elementos teatrais e visuais. No Light, No Light, Never Let Me Go, Spectrum (remixada por Calvin Harris, que chegou ao primeiro lugar na parada britânica, algo inédito para Florence + The Machine) e Lover To Lover, além de What The Water Gave Me, que foi lançado dois meses antes de Cerimonials. É possível dizer que este segundo álbum marca a entrada do grupo num hall de grandes artistas do Pop mundial, algo que pode ser confirmado com o lançamento do MTV Unplugged no ano seguinte. Seguindo a tradição dos discos com a marca da emissora televisiva, Florence e sua turma desfilam o repertório de sucessos de Lungs e Cerimonials em versões menos elétricas, além de duas versões: Try A Little Tenderness (sucesso na voz do soulman Otis Redding) e Jackson, do casal Johnny Cash e June Carter, num dueto inesperado com ninguém menos que Josh Homme, líder de Queens Of The Stone Age.

Agora, após um ano longe dos estúdios e dos palcos, iniciando gravações no fim de 2014, Florence + The Machine anuncia seu retorno. A cantora declarou em entrevista que precisou de um descanso após o frenesi de tantos shows, viagens e trabalho ininterruptos na divulgação dos álbuns lançados até então. Só que as coisas não saíram como em um período de férias, pelo contrário. Florence disse que viveu maus bocados emocionais e não viu outra saída a não ser escrever sobre o que sentia, principalmente sobre solidão e não aceitação. O resultado está impresso nas canções do próximo disco, a ser lançado em breve, cuja resenha você lerá aqui. A julgar pela força dos singles já lançados, What Kind Of Man, St.Jude, Ship To Wreck e o melhor deles até agora, Delilah, teremos um trabalho confessional, mas grandioso, mantendo a tradição já escrita dentro do estilo da banda. É esperar para ver/ouvir.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.