Epílogo da aurora

Fomos ao Primavera Sound empunhando câmeras analógicas. O resultado dos cliques você confere aqui em colagens que tentam resumir o que foi um dos festivais mais importantes dos últimos tempos

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Fotos: Gabriel Rolim

Com direito a cover de Madonna, o show do Pond prova algumas coisas: a primeira, e mais evidente, é o fato de Nick Allbrook ser, sim, um alienígena; e a segunda, é que o Pond tem voz própria e a excentricidade necessária para não ficar na sombra do Tame Impala.

Solange fez o show mais chic e bonito de todo o festival. Cenografia conceitual, grande banda e coreografia bem trabalhada eram o pano de fundo para uma cantora que se entrega – e se diverte, muito no palco. Difícil não se emocionar ou não se apaixonar por seu novo e complexo disco When I Get Home (2019).

Kali Uchis era dos concertos mais esperados do festival. Ao vivo, traz a sensualidade de sua música misturada com toques extravagantes, quase contra intuitivos. Exemplo? Cantar “Creep” do Radiohead e revelar que também é “freak” como o resto do público.

Princess Nokia vale o hype que sua, curta e prolífica, carreira tem. Poucos shows de Rap no festival foram tão pesados, intensos e sentimentais quanto esse. Teve espaço para sair do Trap e entrar no Emo sem perder o público em momento algum. Parece saber exatamente o que precisa para chegar no topo do “showbusiness”.

Robyn é uma rainha, uma entidade que transparece elegância e experiência. Justifica o status inabalável dentro do Pop contemporâneo com um dos palcos mais bonitos do Primavera Sound.

Se não bastasse a comoção generalizada pela representatividade de uma Rosalía – antes de tudo, catalã – ainda havia espaço para uma participação muito especial: James Blake subiu no palco para cantar “Barefoot in the Park” e, basicamente, chocou todo mundo.

Kurt Vile and the Violators trouxe um pouco da música Alternativa norte-americana para o palco principal. Show ideal para aquele fim de tarde que já anunciava os seus últimos raios de sol.

Megalomania é a melhor palavra para descrever o acontecimento Janelle Monáe no Primavera. Emanam do palco diferentes espíritos musicais: de Prince à Beyoncé. A cantora quer e pode ser tudo. Trocas de figurino, um trono majestoso e uma banda quase inteira de mulheres (tirando o guitarrista) para, ao fim, trazer a conclusão de que: suas definições de espetáculo foram atualizadas.

Nilüfer Yanya e Loyle Carner fazem parte do seleto grupo de nomes que, mesmo ainda pequenos, já mostram o imenso futuro pela frente. Ambos emocionaram-se com o público, quase desacreditados com tamanha recepção. A final da Champions League com participação do Liverpool era visível no figurino das performances.

Danny Brown ostenta a capacidade de construir um Hip Hop  único. Rimas rápidas e batidas eletrônicas fazem a cabeça dos britânicos fãs de Jungle. Além disso, seu bom humor e alto astral ganhou o público de imediato.

O festival que nasceu do Indie Rock e das guitarras mostra, aqui, a sua transformação. De um lado, Soccer Mommy, um dos mais deliciosos novos nomes do gênero que ganhou força nessa edição. Do outro lado, Stephen Malkmus and the Jicks representando a velha escola. No dia seguinte, ainda, o anúncio de Pavement na edição de 2020 comoveu geral.

Tame Impala parece, constantemente, evoluir um set construído há pelo menos 5 anos. Visam em 2019 a perfeição e sincronismo entre imagem, luz e som – um show lisérgico à parte com uma imensidão de hits. À espera de seu novo e iminente disco, o grupo australiano parece precisar de novas canções para continuar o processo de aperfeiçoamento.

Confesso que Assume Form (2019) não bateu como outros discos do produtor e músico britânico. No entanto, seu show parece desconstruir julgamentos e traz sentido e unidade à obra dentro de sua discografia. O flerte com o Hip Hop parece ser o elo necessário para encaixa-lo dentro da programação do festival e, além disso, dava espaço para o improviso eletrônico de sua banda. Para a nossa sorte, este era o sinal de que a noite estava longe de acabar melancólica.

Carly Rae Jepsen fez um dos shows mais fofos do festival com cores e hits. Sua escalada dentro do evento fez todo o sentido e moveu uma imensidão de pessoas para a sua performance vespertina.

Existe horizonte e espaço para contemplação dentro do festival. Às margens do Mar Mediterrâneo, o Primavera Sound tem um cenário ao seu redor que dispensa cenografias exageradas. Em dias bonitos, o pôr-do-sol é avassalador.

FKA Twigs é o tipo de diva que a música contemporânea precisa – metódica, excêntrica e única em um show repleto de surpresas. Haviam, por exemplo, cenários que se transformam e revelam novos elementos a cada momento – até um pole dance apareceu no meio do palco. Intenso, não é para todos e não é para ser Pop, mas é uma experiência inesquecível para quem se abre para o novo.

Mais uma montagem com Janelle. Porque, sim.

Marie Davidson era dos shows que eu mais queria ver. Seu live eletrônico tem espaço para ela, inclusive, sair da frente das máquinas para só cantar diante do público. O palco de sua performance ficava em uma praia, em um anexo à parte do festival feito para todo mundo farrear e se divertir.

Poucos shows no festival tiveram uma atitude tão Punk quanto o de JPEGMAFIA e o seu domínio do palco é impressionante. Sozinho, ele escolhe a música que quer tocar, se joga na galera, pula freneticamente e não para. Depois, volta à mesa do computador como se nada tivesse acontecido. James Blake parecia ansioso para ver ou rever esse show, assistindo-o inteiro do palco. JPEG é um futuro já realizado no Hip Hop.

Não esperava nada menos que uma comoção geral à Rosalía em Barcelona. Acabei novamente apaixonado pelas suas músicas e seu excelente disco El Mal Querer (2018). Showzão, grande banda, muita coreografia e um vozerão que não desafina em nenhum momento. Palavras em catalão, percussão flamenca do público (todo mundo batendo palminha) e muita gente (show mais cheio de todo Primavera).

Erykah Badu é uma entidade e seu show, um espírito vivo. Quase uma terapia espiritual. Muito aconchegante, muita história envolvida e das melhores energias que se pode absorver em um show.

O público no festival é uma mistura de tribos. A comoção é geral e a sensação de ver seu artista favorito me parece presente em todas as pessoas que estão ali. Dá até para ver outros artistas curtindo o show dos outros – Jarvis Cocker deu seu rolê enquanto, James Blake viu JPEG e parece que Solange foi ver a Kali Uchis no meio do público.

Outra figura histórica no festival, Nas é dos mais importantes rappers vivos. Seu show trouxe vários hits e faixas novas de seu trabalho produzido por Kanye West, Nasir (2019).

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.