Franz Ferdinand Não Morreu!

Próxima de lançar o próximo disco, história da banda supera estereótipos apressados de que o Indie morreu

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Em um mundo no qual a cultura é cada vez mais plural e menos segmentada, sendo tudo uma grande relação simbiótica entre partes, fica difícil acreditar nesse grande debate sem fim de que “o Indie morreu”. Assumir que o gênero não é mais relevante não é muito diferente do que os vários tiozões do Rock’n’Roll que insistem em dizer que tudo acabou com Nirvana. Concomitante a isso tudo, as bandas Indie continuam a lançar discos que dividem opiniões, e encontramos em Franz Ferdinand um ótimo exemplo de como estas questões formais da relevância de certas sonoridades nos impedem às vezes de apreciar um som maduro e, acima de tudo, inventivo.

A banda escocesa faz parte do que é popularmente associado como a “nata do Indie”, junto a nomes como Arcade Fire, The Strokes, Arctic Monkeys e Kaiser Chiefs. Com seu ápice atingido na segunda metade da década de 2000, hits como Take Me Out, No You Girls e Do You Want To eram obrigatórios em baladas Indie no Brasil – fato que elevou sua popularidade e os fez voltar ao país sucessivas vezes. Com quatro discos nas costas, Franz Ferdinand é um claro exemplo da banda que sempre teve muita certeza da sonoridade que gostaria de comunicar e o respeito a essa tradição sempre atraiu um público bastante semelhante entre si – embora, bastante numeroso. Será que a razão pela qual seu público é assim é porque potenciais entusiastas se deixam levar pela suposta “morte” do Indie?

No ano passado e no começo deste, os primeiros singles do novo disco começaram a surgir e, com eles, uma surpreendente quebra de expectativa no que dizia respeito à sonoridade que procuravam estabelecer. Este talvez seja um momento muito interessante para começarmos a questionar todo o esteriótipo criado em torno do gênero, comparar os diferentes momentos dessa banda e compreender o porquê de Franz Ferdinand ainda ser bastante relevante.

Franz Ferdinand, de 2004, inaugurou uma sonoridade relativamente inédita na época. Apesar das guitarras estridentes e referências aos anos 70 serem quase uma obrigatoriedade na estética Indie Rock, Franz Ferdinand conseguiu imprimir um aspecto mais sombrio ao gênero. Não entenda mal: ainda tínhamos aquela energia adolescente representada na viciante batida e nos riffs explosivos do Rock’n’Roll, mas os vocais duplos de Alex Kapranos e arranjos que alternavam bruscamente entre a tristeza dos acordes menores colocavam um tempero trêmulo entre essas linhas.

A partir de então, as coisas começaram a se formar em torno desta dicotomia do feliz X tenso, e o registro que talvez ilustre isso melhor é You Could Have It So Much Better, de 2005, principalmente a música This Boy. Depois disso, o sucesso começou a render discos cada vez mais bem produzidos e que continuavam a explorar as nuances desse som adolescente sombrio, rendendo singles diversos como Ulysses e Love Illumination.

A exploração desta estética foi encarada por muitos como uma insistência em fórmulas do passado e a condição de “banda velha tentando ser jovem” ganhou relativa força (obviamente já havia aqueles que achavam que Franz Ferdinand já tinha passado do ponto desde o terceiro disco – a síndrome de Hipster). Entretanto, um olhar atento aos novos singles nos faz perceber que tudo isso é uma bobagem sem fundamento, já que observamos as primeiras mudanças significativas na sonoridade do grupo escocês.

Always Ascending mostrou um trabalho mais abrangente com timbres de sintetizador, lembrando bastante referências como The Horrors. Feel The Love Go continuou com o sentimento dark, mas o revitalizou com uma batida disco mais profunda e uma atmosfera semelhante a bandas como Depeche Mode. E o último single, Lazy Boy, é o que mais se aproxima do que a banda criou e consolidou na década de 2000, mostrando que não esquecera de suas origens.

Com estes novos direcionamentos, a banda parece mostrar que seu futuro disco é uma mistura de elementos de diferentes épocas, dando margem a uma inventividade maior, que sempre é bem vinda quando pensamos em “música nova”. Fica cada vez mais claro que deixar de escutar uma banda por causa da construção de um estereótipo é uma furada sem limites. Assim, podemos esperar um disco bem interessante por parte de Franz Ferdinand, uma banda que como tantas outras provou que a reinvenção é a melhor arma que um artista tem ao seu dispor.

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MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.