Gal Costa Não Cria Limo

Uma geral na carreira vitoriosa da cantora sempre ligada ao que é contemporâneo

 4,902 total views

Maria da Graça Costa Penna Burgos, mais conhecida como Gal Costa acaba de lançar mais um disco, Estratosférica, cuja resenha você leu por aqui há alguns dias, lembra? Pois bem, Gal é uma cantora consagrada, influente, importante e que, ainda bem, manteve-se em atividade ao longo de mais de 50 anos. Sua estreia no palco foi em agosto de 1964, três anos depois lançava seu primeiro álbum, em parceria com um certo Caetano Veloso, numa homenagem tardia à Bossa Nova. Em pouco mais de um ano, estampava a capa do disco celebratório Tropicália Ou Panis Et Circensis. Em 1969, Gal, então uma musa da Tropicália, entraria no mapa das grandes estrelas brasileiras com dois álbuns sensacionais e homônimos, que a credenciaram para disputar o título de maior cantora do país, junto a Elis Regina. E por que seria isso, hein? Só pela límpida voz da baiana? Por sua intrigante beleza? Ou porque Gal, como toda boa artista, sempre esteve de olho no que acontece ao redor, cercada de boas companhias e com um forte direcionamento em sua carreira?

Não é segredo que o Brasil é terra bastante fértil quando o assunto é música popular. Chico Buarque disse em entrevista recente que a música feita aqui é agregadora e ele está totalmente certo. O Brasil tem um mecanismo de apropriação de influências externas e reempacotamento, algo que está na própria identidade nacional e que já foi observado em vários momentos, seja no Modernismo de 1922, seja na própria Tropicália. A carreira de Gal Gosta é pródiga de situações em que a cantora esteve numa espécie de vanguarda artística sem perder o apelo popular. A partir de 1970, no rescaldo dos dois discos que lançara no ano anterior e assumindo uma posição de porta-voz dos artistas “convidados a deixar o país” (como Caetano, Gilberto Gil, entre outros), Gal protagonizou um espetáculo homônimo que serviu para apresentar suas credenciais de grande intérprete ao vivo. A partir daí, ela iniciaria um longo caso de amor com o palco, mostrando performances fortes e à altura de seu talento. Um desses shows seria transformado num dos mais importantes álbuns ao vivo da história da música brasileira, Fa-Tal/Gal A Todo Vapor, lançado em 1971, trazendo uma espécie de somatório final da herança tropicalista, meio que decretando o fim do movimento e buscando forças para encontrar novos rumos. Indícios da busca dessas novas direções viriam em vários momentos de sua trajetória.

Gal lança Índia em 1973 e investe numa fórmula de diversidade em que mistura bolero tradicional (a faixa-título), canções moderníssimas de Luiz Melodia (Presente Cotidiano), Caetano (Da Maior Importância), clássico de tempos imemoriais (Volta, de Lupicínio Rodrigues) e uma revisita à Bossa Nova com uma versão brejeira de Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça. Pouco tempo depois, Gal teria um sucesso nas paradas, Teco Teco, que foi lançado em compacto. No ano seguinte é a vez de Cantar, outro disco inédito, produzido por Caetano, que, apesar de gerar um grande sucesso, Barato Total, de Gil, não tem o mesmo desempenho dos trabalhos anteriores. Em 1975 ela seria escolhida para interpretar Modinha Para Gabriela, de Dorival Caymmi, tema de abertura da novela global inspirada na obra de Jorge Amado, cravando a música no inconsciente coletivo e dando ensejo para a gravação de um disco inteiro dedicado às canções do veterano compositor baiano, Gal Canta Caymmi, que seria lançado em 1976.

Pouco depois de lançar seu disco em homenagem à obra de Dorival Caymmi, que rendeu um grande sucesso com Só Louco, outro tema de novela global, Gal embarcou numa adorável aventura estética chamada Doces Bárbaros. A ideia partiu de Maria Bethânia, que convocou os outros três baianos famosos, Gil, Caetano e Gal, compreendendo espetáculo ao vivo e disco duplo, trazendo a íntegra das canções do show. O espectro sonoro era amplo como os próprios discos de carreira de Gal, comportando, além de composições de Caetano e Gil (Esotérico, Um Índio), Atiraste Uma Pedra, de Herivelto Martins e David Nasser, Tarasca Guidon, de Waly Salomão e Fé Cega, Faca Amolada, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.

Num período de nove anos, Gal lançou nada menos que nove discos. Foi colecionando sucessos e se transformando em selo de qualidade para compositores consagrados e iniciantes. Ter uma canção gravada por ela era sinal de relevância e distinção. Além disso, a cantora teria uma enorme sequência de sucessos, iniciando em 1978, com Folhetim, de Chico Buarque, do sensacional álbum Água Viva, com o qual este escriba teve contato ainda criança, de tanto que a mãe ouvia no velho toca-discos da sala. Outra faixa do álbum, Mãe, de Caetano, também se destaca, além da versão para Paula e Bebeto, de Caetano com Milton Nascimento. Se este disco manteve o sucesso que Gal tinha até então, Gal Tropical, de 1979, a colocaria em outro patamar. Com clássicos de Tom Jobim e Dolores Duran (Estrada Do Sol), do onipresente Caetano Veloso (Força Estranha), da dupla Roberto e Erasmo Carlos (Olha) e Luiz Melodia (Juventude Transviada), o álbum já se sustentaria, mas o estouro nacional de Balancê, de Braguinha, seria o passaporte para a popularidade total. Numa jogada de mestre, Gal amplia esse clima de carnaval tropical com o LP Aquarela do Brasil, de 1980, no qual interpreta apenas canções de Ary Barroso, entre elas, além da faixa-título, É Luxo Só, Camisa Amarela e Tabuleiro da Baiana.

O ponto alto dessa fase chega no ano seguinte, 1981, quando Gal lança Fantasia. A sonoridade do disco abraça a do Pop internacional vigente, incorporando técnicas de estúdio e timbres de instrumentos que seguiam as tendências das melhores produções americanas. A crítica, geralmente de ouvidos curtos, não gostou do álbum por conta de um suposto abandono de Gal em relação às suas raízes, sem perceber que a cantora sempre primou pela atenção ao que havia de mais moderno e interessante. Não há uma “rendição” a uma música estrangeira, mas a tal tendência agregadora da música brasileira, de manter-se fiel ao que sempre fez, mas em sintonia com outros parâmetros. Quem avalizou Fantasia e seu show foi o público, que lotou teatros e casas de show pelo país, para ver Gal ao vivo cantando novos sucessos como Açaí e Faltando Um Pedaço (Djavan), Meu Bem, Meu Mal e O Amor (Caetano Veloso), Canta Brasil (David Nasser) ou pular ao som do irresistível frevo Festa Do Interior, de Moraes Moreira e Abel Silva. No ano seguinte seria lançado Minha Voz, uma espécie de disco gêmeo de Fantasia, que também emplacou várias faixas nas paradas de sucesso, com destaque para Dom de Iludir e Luz do Sol (Caetano Veloso) e os frevos Bloco do Prazer (Moraes Moreira e Fausto Nilo) e Pegando Fogo, de Francisco Mattoso.

A fase madura de Gal Costa ainda teria dois bons momentos em disco. Depois de um álbum que não atingiu expectativas, Baby Gal (1983), a cantora voltou com dois petardos sonoros: Profana (1984) e Bem Bom (1985), ambos com vendagens superiores a um milhão de cópias. O primeiro foi puxado pelo interessante hit-análise de conjuntura, composto por Caetano Veloso, Vaca Profana, que, apesar da letra citando arquitetura catalã e um monte de referências culturais acima da média, fez sucesso nas rádios do país, juntamente com uma bela versão para o português de Lately, canção de Stevie Wonder. A canção que mais tocou no Brasil daquele ano foi, sem dúvida, Chuva de Prata, talvez o maior acerto na carreia de Gal. Bem Bom, que veio no ano seguinte, já dava amostra de alguma perda de fôlego mas saiu-se muito bem com o estouro do dueto com Caetano Veloso, Sorte, outro hit nas paradas radiofônicas do país.

Durante esse período de 19 anos, a carreira de Gal Costa viveu momentos de menor badalação, acompanhando o próprio ciclo de esvaziamento da MPB observado a partir do fim dos anos 1980. Enquanto ritmos populares surgiam para apreciação das camadas urbanas e rurais, a obra de Gal acompanhava uma tendência de elitização. Sua produção abandou o ritmo de um álbum por ano e ela lançou dez discos neste espaço de tempo. Houve sucessos menores ao longo destes anos, com destaque para Plural, lançado em 1990, que revelou a bela leitura da cantora para Cabelo, canção de Jorge Ben e Arnaldo Antunes, assim como uma trilogia de bons trabalhos, formada por O Sorriso do Gato de Alice (1993), Mina D’Água do Meu Canto (1995) e Aquele Frevo Axé (1998), todos rendendo espetáculos ao vivo bastante concorridos, talvez mais pela oportunidade de ver a cantora desfilando seus clássicos do que por sua produção recente.

Gal voltou a ser a artista instigante de sempre, retomando questionamentos artísticos e apostando na novidade para levar sua obra adiante. Em 2011 ela lançou Recanto, produzido por um Caetano Veloso que também se renovara recentemente e em total sintonia com uma novíssima geração de cantores, compositores e produtores brasileiros, representados pela figura de seu filho, Moreno Veloso e pela adoção de arranjos eletrônicos intencionalmente datados e tortos para modernizar as canções que receberiam a voz de Gal. Como de hábito, o álbum gerou uma turnê nacional e o show foi registrado e lançado em disco duplo, com o nome de Recanto Vivo, trazendo novas e velhas canções, novas e velhas concepções, tudo em harmonia dentro da generosa visão da cantora. Neste ano, há poucos dias, Gal lançou seu novíssimo trabalho, deixando de lado a eletrônica e os arranjos modernosos, e revendo sua fórmula de aliar clássicos de todas as épocas para revê-los com seu carimbo de qualidade vocal. Sua marca registrada, ou seja, sua voz, já não exibe o brilho intenso de antes, mostrando-se cansada e sem o mesmo alcance, porém, ainda é capaz de abrilhantar e conferir dignidade à maioria das canções do mundo. Gal segue por aí, sem criar limo, como aquela proverbial pedra rolante dos anos 1960. Sorte a nossa.

 4,903 total views

ARTISTA: Gal Costa
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.