Geração Ásia

Em 2019, as mulheres asiáticas não pedem licença para brilhar na música independente quebrando estereótipos e desafiando o establishment

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Fotos: Bao Ngo/Ebru Yildiz (Pitchfork)/ Jackie Lee Young (Junior High)

Se você perguntar sobre a infância de qualquer menina asiática ou descendente de famílias do leste asiático que tenha crescido no Brasil nos anos 1990 ou 2000, vai ouvir delas respostas relacionadas às piadinhas que ouviram sobre serem parecidas com a ex-BBB Sabrina Sato ou a atriz do seriado Malhação, da Rede Globo, Daniele Suzuki (que vivia a personagem Miyuki). No entanto, nessa mesma época, a paulistana Luísa Matsushita já tinha se transformado na LoveFoxxx, vocalista do Cansei De Ser Sexy. Lá fora, Karen O, do Yeah Yeah Yeahs, meio sul-coreana, meio norte-americana, já estava brilhando e emplacando hits nas pistas do mundo todo. Satomi Matzusaki, frontwoman do Deerhoof também já tinha seu espaço consolidado no mundo alternativo. Curiosamente, essas referências não davam pano para piada.

“Acho que a primeira vez que me dei conta do problema da falta de representatividade da mulher asiática na mídia foi quando conheci o CSS”, conta Mariana Akemi, estudante de Letras na USP e participante ativa da militância asiático-brasileira. “Eu tinha uns 15 anos e achei o máximo ver uma mulher como eu fazendo música”. E fazendo música como LoveFoxxx: passando muito longe do estereótipo da jovem asiática recatada, modesta, submissa, estudiosa, “de família”.

Sem mulheres “pé-na-porta” como Matsushita, o amplo debate que está acontecendo agora a respeito das identidades estabelecidas para as mulheres asiáticas talvez não tivesse chegado nesse patamar. É preciso lembrar do espaço delas no movimento riot grrrl, dos anos 1990, como a banda californiana Emily’s Sassy Lime, ou reconhecer o trabalho de artistas como Yoko Ono, nas décadas anteriores: fazer mediação histórica para entender, de fato, do que estamos falando sem obscurantismo. Se hoje o K-pop é um dos gêneros musicais mais relevantes para a indústria da música, é preciso levar em consideração quem abriu caminho para isso acontecer.

Segundo CYSHIMI, nome artístico de Viviane Lee Hsu, artista e designer, as redes sociais também ajudaram nesse processo. “Como parte da Geração Z, acredito que representatividade é algo muito primário e básico. Nós estamos buscando nossa verdade o tempo todo e estamos atrás do que acreditamos com menos medo do que a geração passada”, declara a integrante do Brechó Replay que, atualmente, é um dos finalistas da lista Dazed100 (que seleciona os criativos que estão definindo a cultura atualmente). “A branquitude é uma estrutura muito forte, em qualquer lugar. O protagonismo e a visibilidade – estruturalmente – ainda é dela. Tanto que a maioria dos movimentos vanguardistas são creditados aos brancos. Isso é apagamento da história real e nós não podemos deixar isso acontecer.”

Quem está tentando revisar narrativas, também, é o quarteto japonês CHAI – que se apresentou na última edição dos festival Primavera Sound e faz parte do line-up do Pitchfork Fest. Fãs de CSS, as meninas (Mana, Kana, Yuna e Yuuki) são as criadoras do gênero “NEOkawaii”, na ideia de combater exatamente tudo o que se entende por kawaii (“fofinhas”) tradicionalmente. Em seus dois discos – Pink (2017) e Punk (2019) -, elementos como o rosa millennial, letras sobre comida e empoderamento passaram a atrair quem se reconhece fora do padrão. “Na sociedade japonesa, as pessoas ‘kawaii’ são as populares e descoladas”, explicam à Pitchfork. “Esse é o ‘standard’ e todo o resto é considerado feio. E é algo que fica na sua cabeça, uma grande insegurança. É por isso que decidimos fazer músicas sobre o fato de que há beleza em todo mundo.”

Apesar da importância de ver mulheres asiáticas falando sobre as opressões que a vida lhes impõe, é também muito gratificante vê-las cantando sobre as banalidades da vida, sobre ter o coração partido ao meio, sobre viver com ansiedade ou qualquer outra coisa que fuja um pouco do tópico. “Não penso na Mitski como ‘uma artista de descendência japonesa’, como se a música dela se resumisse somente nesse tema. Gosto de como ela traz esse elemento entre tantos outros que compõem o seu trabalho”, conta Mariana sobre a atual estrela do Indie Rock e seu aclamado disco “Be The Cowboy”, escolhido como Melhor do Ano pela Pitchfork em 2018.

São assuntos que todos nós, de uma maneira ou outra, já atravessamos. Ganhar e perder peso, por exemplo, é um dos tópicos abordados pela cantora e compositora no hit “Nobody”. “Já fiz tudo o que eu podia com o meu corpo e, mesmo assim, ninguém me quer”, explicou Mitski em entrevista ao Genius. Histórias como essas que ganharam a simpatia do público e renderam uma turnê acompanhando o shows da Lorde.

Michelle Zauner, por sua vez, segue o caminho oposto. Ser uma mulher asiática é algo que está no cerne de sua obra dentro do projeto Japanese Breakfast. Filha de mãe sul coreana e pai norte-americano, ela cresceu sendo entendida como “estrangeira” por seus colegas de classe. “É estranho, porque toda vez que estou em um consultório médico e preciso preencher um formulário, não há opção para mim. Perguntam a sua raça e só te deixam responder com uma opção: eu sou, literalmente, duas coisas diferentes ao mesmo tempo. Não sei o que fazer”, dividiu com a revista Bon Appetit.

Em seu último disco, “Soft Sounds From Another Planet”, de 2017, a artista dedicou a faixa de abertura, “Diving Woman”, à tradição centenária não-patriarcal das mulheres mergulhadoras da ilha sul-coreana Jeju (haenyeo). Equilibrando a música indie, com atitude punk feminista, suas letras falam sobre ancestralidade e memórias. Com essa sonoridade, Zauner expandiu o tamanho de seu público – os fiéis vêm desde “Psychopomp”, de 2016 – para novos interessados por seu trabalho pessoal e bem executado.

Hoje em dia, Zauner está se preparando para lançar o primeiro livro, assinou trilha sonora de videogame, virou garota propaganda da Fender e dirigiu videoclipes de amigas, como a também talentosa Jaysom. Abaixo uma lista rápida com mais indicações de mulheres asiáticas que precisam estar nos seus ouvidos.

@shesthatprinci: “Artista asiática australiana, infelizmente pouco reconhecida, mas muito talentosa e vanguarda em vários sentidos. O som, a estética, o discurso, etc. Ela tem uma música chamada “Diaspora doll” que conta um pouco sobre ser uma mulher que provém da diáspora e algumas consequências disso. A música “Shine 4 me” conta um pouco da relação dela com sua mãe, que é coreana.” – CYSHIMI

@kohinoorgasm e @raveena_aurora: “Artistas muito fodas que mostram sua ancestralidade e tem uma força imensa muito necessária. Mas para além da exploração da própria ancestralidade, elas são artistas que têm uma potência muito grande em intersecção, tendo quase sempre outros protagonistas de diversas raças e culturas presentes.”– CYSHIMI

@rinasawayama: “Quando a Rina Sawayama começou a ganhar espaço na mídia, eu senti tudo isso de uma forma muito intensa. Entendi muita coisa que na época da minha adolescência ficava meio confuso e opaco… A Rina é uma artista pop completa: canta, dança e performa. Fiquei pensando no quanto teria sido positivo para mim ter como inspiração uma artista como ela na minha infância”. – Mariana Akemi

@ko: “A Karen O foi minha primeira referência de mulher asiática na música (e na vida) em uma época que eu nem me reconhecia amarela ainda. Sem eu nem perceber, ela influenciou muitos aspectos da minha vida!”– Eugenia Kimura, cineasta, empreendedora de comida vegana na Kikisan e participante na militância asiático-brasileiro.

@peggygou: A DJ sul coreana Peggy Gou foi reconhecida pelo jornal britânico Evening Standard como a DJ mais amada do planeta, depois de fazer mais de 200 shows no ano passado. A artista tem dez anos de carreira e é aplaudida por algumas estreias importantes, como ser a de ser primeira DJ sul coreana a tocar na Berghain, em 2016.

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