“Good Smell Vol. 2”: o ciborguismo distópico de niLL

Em seu quinto álbum de estúdio, o rapper e produtor compõe a trilha sonora das aventuras de uma jovem negra nos anos de 2040; ele destrinchou o novo projeto com exclusividade para o Monkeybuzz

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Fotos: João Victor Medeiros

Nas últimas décadas do século passado, filmes de ficção científica ousaram prever as tecnologias do futuro. Coisas como carros voadores e o divertido hoverboard de De Volta para o Futuro 2 (1989) passaram longe de circular em nossas rotinas. Porém, apostas como a de Arthur C. Clarke (2001: Uma Odisseia no Espaço), acerca da existência de videochamadas e da presença massiva de computadores caseiros, foram certeiras e incrementaram nosso imaginário quanto ao avanço da tecnologia humana em direções cibernéticas.

Em 1964, bem antes existência dos smartphones, o teórico Marshall McLuhan (Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem) apontou para um futuro em que, metaforicamente, amputaríamos membros para dar lugar às tecnologias. Hoje, o empresário Elon Musk afirma que “já nascemos ciborgues”. É neste tempo, em que as pessoas já se tornaram meio humanos e meio máquinas, que niLL constrói a narrativa de Good Smell, seu quinto álbum de estúdio

A série de EPs é a trilha sonora que acompanha a personagem Lilith, uma garota de 25 anos que vive nessa sociedade distópica e cibernética na qual diversas mulheres ocupam posições de poder. Esse predomínio feminino é consequência de um evento que ficou conhecido como Change Day, quando  30% da humanidade foi dizimada, em sua maioria, homens. Good Smell agora ganha seu segundo volume, revelando o rosto da protagonista e deixando pistas do que ainda está por vir. “Talvez a única ligação que tem da história com as letras é esse sentimento de fim do mundo, o mundo está acabando”, comenta niLL. O Monkeybuzz bateu um papo exclusivo com o artista, que destrinchou o repertório e revelou detalhes e inspirações de Good Smell Vol. 2.

1) EVELYN DOVE

Evelyn foi bem natural, comecei com um beat tocado, gostei e continuei. Comecei cantarolando uns grunhidos, sabe? Achei daora a melodia, a letra parece que foi saindo de dentro da melodia. Foi uma das que eu escrevi mais naturalmente. Depois mandamos pra Alt Niss, ela compôs o verso e o refrão e concluiu a faixa. No final é o sample do “Zé do Caroço”, foi tramado para ser.

Vi você falando no Instagram que o disco é uma trilha sonora, e não necessariamente uma narração da história.

É mesma coisa de você tá assistindo Transformers e tá tocando Linkin Park. A música não tá falando sobre o Optimus Prime, não tem nada a ver, é só uma música boa. Ela [Lilith] vive em dois mil e quarenta-e-pouco, se não me engano. Ela conseguiu uma nave para fazer umas viagens e vai encontrar uma galera e alguém pode ajudar ela a desbloquear a viagem no tempo e conhecer outros lugares, pessoas, culturas e artistas. Ela saiu da cidade dela, porque ali não tinha mais nada para ser feito, então foi buscar como tava lá fora, qual a aventura. E aí que ela conhece o niLL do Lógos (2019) e vai se apresentar para ele, para trabalharem juntos – ela toca bateria. Quem sabe não vai surgir uma nova banda, ou sei lá. Tá vindo mais uma galera pra fazer parte da história.

2) ROSETTA THARPE

Eu tava num evento no Koreia Barber Shop e o Ryam Beatz tava tocando no dia e soltou esse beat. Falei com ele e peguei esse beat para trabalhar, já tava escolhido pro álbum. A gente só vê o Verocai sendo sampleado nessa maneira nos artistas lá de fora, tipo o Currensy. O Ryam é talento demais, mano. Esses dias ele tava numa live com Elaquent, Kamau. O moleque vai dar o que falar.

“Ela me fez pensar de novo, se vale a pena ou não minha coroa de ouro”. Isso tem sido uma questão para você?

Sim, ainda mais nesse momento de pandemia, acho que comecei a me questionar muito mais também. O que é o real sucesso? Qual tipo de sucesso que eu quero? A música pede muito para gente abdicar de vários bagulho, mas você consegue viver bem, fazer sua música, do jeito que cê quer, sem precisar se tornar uma marionete, né, mano? Se tem conceito, tem que fazer sua parada, continuar com ele.

3) DOROTHY

Foi a primeira que eu criei. É um sample da Marília Medalha, que era nata da música brasileira, muitos artistas amam ela e hoje em dia não tava muito nas listas dos samples no Rap, isso daí também tem um peso. A música fala muito sobre a cena, a primeira faixa também. É como se fosse uma declaração.

4) ELLEN JONHSON

É um sample nacional também, dessa vez foi O Rappa. É outra banda que gosto muito mas nunca tinha sampleado, aí parei e fui lá ouvir. Se não me engano é o sample da faixa “Linha Amarela”. Deu super certo, colocar um tamborzão meio rasteirinha. Pedi pro Tan Beatz fazer a linha de 808. Às vezes tenho muito problema com a linha do baixo. Quando sai, sai linda e elegante, mas, na maioria das vezes, tenho problema, aí chamo alguns amigos pra me ajudar com isso daí. Essa daí é a música pra minha consagrada, é uma parada que a gente viveu aqui, na goma dela.

O que achei uma das coisas mais ricas do Good Smell foi o uso do Funk integrado como sonoridade, e não um ritmo heterogêneo que aparece no meio de um Rap, como usualmente são as “misturas” entre Rap e Funk.

Eu enxergo o Funk que a gente tem no Brasil como uma vertente que mostra a cara do país. Em lugar nenhum do mundo tem uma coisa igual. Por isso que vale a pena usar ele como instrumento, e não só como uma brecha para falar o que quiser, sabe? Então a graça foi essa. Queria muito fazer essa mistura, colocar o Synthwave junto com Funk para ver no que ia dar. Vi o Sango fazendo aquelas misturas dele com sample de Soul, Blues, misturando com tamborzão do Rio. E se a gente misturasse com Synthwave, Stranger Things. O que ia acontecer?

5) TIA CIATA

Essa faixa é beat do Tan com o Soundflex, dois jovens talentosos. Eles estavam com um projeto juntos e quando eu ouvi o que mandaram para mim, pirei. Peguei o beat e o projeto da DAW tinha mais de 30 pistas, só a batida. Coitado do Ramiro (engenheiro de som) [risos]. É uma música que tem um intuito bem Pop, verso-refrão-verso-refrão, ela é simples, justamente para ser uma música popular.

6) MARIA FIRMINA

Foi aí que começaram os experimentos. Toquei um Synthwave e coloquei o Funk. O que mais briso é que fiz essa música como se tivesse produzindo um beat de funk para o Tyler, The Creator cantar ou como se ele tivesse fazendo um Funk. Não na letra, mas na produção. A ponte, nessa parte dá para ouvir bastante, e nas colagens de voz tem umas cornetas de fundo. Era como se fosse ele. Uma faixa que quis experimentar isso para tirar uma marola, ela é mais despojada, para galera se divertir. Nesse disco pensei muito nisso: foi para galera não ficar triste, chorar, só se divertir, poder dançar e tirar uma onda.

7) DANDARA

É um sample que eu me esbarrei nele, um dos únicos que não é brasileiro. A história vem de relatos do meu relacionamento que vivo atualmente. Essa foi a última faixa que eu consegui terminar. Eu tava jogando WoW (World of Warcraft) na época, tava com um paladino bolado. Level mais alto, dá para fazer mais coisas, fica mais divertido. Você tem que escolher às vezes se você joga ou vai viver, mas tudo bem. A gente fica nessa, viver a vida do char ou a minha?

8) LILITH

Tava numa época que eu não conseguia escrever nada e precisava fazer essa música. Falei para minha mina isso e ela me deu a ideia de pensar em escrever como se tivesse imaginando o tempo futuro, “não precisa pensar necessariamente no agora”. Foi fluindo e foi graças a ela que abriu minha mente pro bagulho. Foi nessa brincadeira, mentalizando o futuro como forma de esperança pra galera que gosta do nosso trampo pensar que logo mais vai ser melhor.

As palmas no fim desse som são para quem?

Quando acaba a rima, vem um solinho de baixo. É como se a Lilith tivesse passando em frente uma casa noturna, o baixista tá tocando lá – ainda não vamos falar quem é – aí as pessoas estão batendo palma enquanto ele tá fazendo um solo.

9) SHIRLEY CHISHOLM

Essa foi o experimento que eu fui mais longe. Falei “vou dar uma ousada, colocar uns cinco sintetizadores ao mesmo tempo”. E tava nessa aí para fazer uns testes no meu PC também pra ver o quanto ele aguentava, se saiu bem o bicho. Tô jogando todos os jogos nele, joguei The Witcher 3, o remaster de Resident Evil, tá legal agora. Acho que vai dar para fazer mais uns quatro, cinco CDs com esse daqui. Os outros aguentavam um CD e olhe lá [risos].

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ARTISTA: niLL