LUCAS KID é natural de Maringá, Paraná, enquanto Rxfx é de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O que os une? Desde a infância, a música esteve presente em suas vidas. No caso de LUCAS KID, a conexão começou cedo: seu pai era dono da Clever Light, empresa de som e iluminação que atuava em eventos da região. Ainda criança, passou a tocar bateria e, incentivado por sua mãe, participou ativamente da igreja frequentada pela família. Já Rxfx guarda como lembrança marcante o avô, apaixonado por samba e violão, que reunia a família em encontros regados à música aos fins de semana.
Hoje, essas vivências se encontram em um mesmo caminho. Os dois são produtores e idealizadores do projeto RASGA!, EP que mergulha na estética do funk mandelão, explorando sua vertente mais ritmada e agressiva. As faixas trazem uma tensão constante, combinando a intensidade das texturas eletrônicas brasileiras com a força da bass music global. Lançado pelo selo Tandera Records, o resultado do registro é um som imprevisível, explosivo e feito para incendiar as pistas. O EP realmente RASGA!
Como começou a história de cada um na música?
Rxfx: Eu comecei quando tinha uns 12 anos. Meu irmão comprou um Maschine da Native Instruments e a gente ficava brincando, fazendo beats. Foi ali que me interessei pela produção musical.
LUCAS KID: Comecei desde cedo tocando bateria na igreja, foram muitos anos tocando em grupo, aprendendo e ensinando muito sobre música. Em paralelo, já acompanhava minha família em eventos em que trabalhavam. Lembro de, quando criança, já ver uma CDJ e me interessar muito, escutar Bonde do Tigrão e curtir muito as batidas, ouvir Skazi (que acho que minha Tia Cíntia me mostrou) e ficar fissurado pelas raves que aconteciam no Brasil. Tudo isso desde, sei lá, uns 8 anos até minha adolescência, quando comecei a acessar a internet e gravar CDs.
Como vocês dois se conheceram?
Rxfx: Eu comecei a trocar ideia com o Lucas pelo Instagram quando ele lançou o último álbum dele, Rompendo em Fé. Ele tinha lançado pela mesma gravadora que eu lancei a Flexiona, então dei um salve falando que tinha curtido muito o som dele.
Como foi o processo de produção do EP?
Rxfx: Eu tenho o hábito de sempre mandar beats pros meus amigos produtores, e foi assim que comecei a mandar pro Lucas. Ele curtiu as ideias, e começamos a criar o EP. Mandei o beat da “Jatada”, ele curtiu, então mandei as stems do projeto. Uns dias depois, ele me enviou a primeira demo.
LUCAS KID: Depois, todas as músicas foram assim. A gente foi trocando ideia cada vez mais, e o Rafa me mandava mais ideias de projetos e eu assumia a partir disso, até finalizar o som.

“RASGA está no som, mas em mensagem no geral – nos discursos, corpos e linguagens que aparecem quando o sistema normativo é ultrapassado”
O projeto mergulha fundo na estética do funk mandelão, com foco nos estilos ritmado e agressivo. Como vocês chegaram nessa sonoridade?
Rxfx: Eu faço um funk sujo, clippado, de todos os tipos, ritmada, bruxaria, automotivo… Gosto de misturar as vertentes e também colocar influências de outros estilos musicais. Por exemplo, em “Vai Tacando”, tem uns breaks de drum ‘n’ bass, um estilo que eu também sou muito fã.
LUCAS KID: Acho que primeiro foi muito da ideia em comum que temos de sons mais agressivos, saturados e distorcidos, todos os sons vão ter essa estética. Além disso, conseguimos nos juntar bem no aspecto de ter bons ritmos, trazendo referências de vários estilos – sendo diferentes, mas mantendo os sons dançantes.
Como surgiu o nome do EP?
Rxfx: A gente já tava quase terminando o EP e ainda não tinha pensado no nome. Foi quando o Tuxe, da Tandera Records, falou que as músicas tinham uma qualidade “rasgada”, e eu gostei muito dessa palavra. Aí, falei pro Lucas: “E se a gente colocar RASGA SISTEMA como nome?” Ele curtiu também e a ideia foi evoluindo. A gente pensou em criar um monstro, tipo Pokémon, para representar o EP, e o nome dele seria Rasga. No final, decidimos que o nome tinha que ser RASGA! – com exclamação.
LUCAS KID: É isso, depois a gente foi vendo como aprofundar esse conceito, chegando na RASGA SISTEMA enquanto uma entidade que surge a partir do som que escapa da norma. Do erro, aquele chiado, distorção que surge a partir do momento que o som alcança o limite; estoura. RASGA está no som, mas em mensagem no geral, nos discursos, corpos e linguagens que aparecem quando o sistema normativo é ultrapassado.
De que forma vocês transformam esse rasgo em linguagem e em força?
Rxfx: Através do grave marcante e dos timbres pesados. A ideia é que a pessoa consiga sentir a energia da música só de ouvir pelo alto-falante do celular, sem precisar de equipamentos de som grandes. É algo bem visceral, que bate direto.
LUCAS KID: É um conceito bem abrangente. No caso desse EP, a gente traz principalmente na agressividade, texturas e misturas de referências. Os ruídos, o grave, a distorção de tudo com a força de como os elementos batem nos sons.
“A ideia é que a pessoa consiga sentir a energia da música só de ouvir pelo alto-falante do celular, sem precisar de equipamentos de som grandes. É algo bem visceral, que bate direto”
FAIXA A FAIXA
“PENETRADA”
Essa virou a intro do EP porque depois dela pronta, bem no final, a gente pensou em ter algo que representasse a entidade RASGA SISTEMA meio que chegando, quase que só o som dela, do que sobra, tomando todo o sistema, ritmando e “bagunçando” as coisas. E em vez de fazer uma música que abrisse o EP, eu consegui colocar na intro da música, então foi meio que a última coisa que fizemos nela – elementos dos últimos drops e ruídos no meio e para finalizar o som.
“FICA D4”
Essa eu [LUCAS KID] bati bastante no arranjo colocando os vocais da Mc Myres, que antes só tínhamos a acapella do “fica de quatro”. Para mim, essa é muito forte, a forma com que o vocal corta e o beat entra atropelando tudo é muito maneira. Eu peguei os elementos que tínhamos no som e fiz um desenho mais curto para eles ficarem bem repetitivos, aí acho que também de uma forma meio “acidental” a ideia surgiu.
“APRENDA RESPEITAR”
Essa foi a mais rápida, fizemos em 2 dias porque ela ia ser lançada em uma coletânea que tava com o prazo apertado, aí quando fizemos não lembro por que a gente preferiu guardar ela pro EP. A maior questão foi na mix para deixá-la mais próxima das outras. Por esse som ser a mais subgrave talvez, teve o desafio de deixá-la bem definida e alta. Acho que ela também dá uma queda na energia do EP, então ficou meio que como uma função de respiro no meio das músicas.
“VAI TACANDO”
Eu [LUCAS KID] nunca toquei muito essa na época que fizemos, até por ser bem mais rápida que as outras, mas acabou que foi uma ótima surpresa quando finalizei ela próximo do lançamento, é o som que soa melhor acho, ficou porrada.
“JATADA”
Por ser o single, foi a primeira a ser finalizada, e também a primeira que fizemos juntos, até que minhas tags foram feitas na época pela minha parceira Lilia e o próprio RX. Essa já tinha algumas pessoas tocando nas pistas bem antes de lançar e eu sempre gostei. Mas, quando peguei para finalizar, teve uma parada que me incomodou muito na sonoridade. Fiz uma troca de timbre que deu muito mais força pro som, assim como umas variações pontuais no meio dos arranjos; as repetições, cortes, etc.
“LIGA PEDINDO UMA FOTO”
Essa foi a última que fizemos e ficou para encerrar o EP. Nós já tínhamos encerrado o EP e ficamos experimentando para colocar mais um som de última hora, tanto que tínhamos uma versão completamente diferente – outra música, outro nome, que ficou no ar durante uma semana após o lançamento até atualizarem em todas as plataformas, porque enviei a final bem próximo do prazo mínimo. Fluiu muito rápido a produção e a mix já estava praticamente pronta, foi a única música que teve meio que uma única versão.
Como eu [LUCAS KID] estava finalizando todas as outras e não tinha feito essa sexta música, eu fiz ela em uns dois dias, foi bem rápida e ja tava foda. Foi a única de todas que teve apenas uma ou duas versões. Acabou que essa virou uma das nossas favoritas, que não fazíamos ideia do que seria até duas semanas antes do lançamento. O pessoal da Tandera acho que foi ouvir só quando mandei a versão final (obrigado pela confiança, amores).
![]()
