SINAPSE: harmonia elétrica

Toshimaru Nakamura, Tyondai Braxton, feedbacks e processos criativos acalorados

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

 

 

FEEDBACK

Toshimaru Nakamura, Battles e a retroalimentação

 

Toshimaru Nakamura é um músico que toca feedback. Ao ligar a saída de uma mesa de som de volta na entrada da mesma, Nakamura descobriu uma maneira de manipular a retroalimentação no sinal de áudio com os botões da interface. E, assim, criou um instrumento chamado de “no-input mixing board”.

A música de Nakamura é preenchida de eletricidade. Ruídos assumem timbres texturizados e percussivos, numa espécie de música eletrônica em estado bruto. Com sua mesa de som, o artista manipula as correntes que normalmente estão escondidas pela música convencional.

Ele escreve a sinopse de seu disco com a seguinte metáfora: “Costumava haver vários pequenos riachos no oeste de Tóquio, onde moro. Alguns deles eram rios naturais que fluíam de nascentes nesta área (…). Outros foram feitos pelo homem. A maioria desses rios é coberta por tampas de concreto e muitas partes deles são convertidas em caminhos com árvores e bancos bem alinhados. Alguns trechos desses rios possuem até riachos artificiais em cima das tampas para recriar a paisagem de outrora. Uma espécie de ‘rio de dois andares’. Sentado em um desses bancos, penso na água que corre lá embaixo, no escuro”.

Uma apresentação ao vivo de Nakamura em parceria com a artista Akiko Nakayama se parece com uma instalação dentro da sala de um museu. Nakamura manipula a mesa de som, criando uma ambiência de ruído branco que logo se torna uma espécie de paisagem. Enquanto isso, em uma enorme projeção de vídeo, Nakayama experimenta com líquidos e pigmentos em um pano de fundo topográfico e sempre mutante.

A música de Nakamura, por conta do seu interesse experimental, me lembrou a de Tyondai Braxton. No entanto, a energia deste é bastante diferente, mais caótica e acelerada. Em 2013, o músico apresentou no átrio do museu Guggenheim uma performance chamada Hive (colmeia), tocando ao lado de Yuri Yamashita, Jared Soldiviero e Ben Vida. Em um vídeo feito para a ocasião, ele diz: “eu sinto que sempre me interessei pelo casamento do acústico com o eletrônico. [Minha música] é sobre os sons, e como os sons interagem uns com os outros de uma maneira absoluta”.

Tyondai Braxton é um dos fundadores da banda Battles, cujo álbum de estreia, Mirrored, conquistou a crítica musical. Braxton saiu da banda em 2010, mas os outros integrantes mantiveram o projeto na ativa e prosperando até hoje. Com uma música cerebral, Battles constrói loops sintéticos, que são manipulados em arranjos intrincados. O processo criativo é acalorado entre os três músicos, que estão sempre brigando para defender o lugar de suas respectivas ideias nas composições.

O que constrói essas performances, movidas pela manipulação do sinal elétrico, é a interação entre os artistas. De situações mais pacíficas, como essa parceria entre Tyondai Braxton e Philip Glass, até exemplos mais conflitantes como Battles – o nome, aliás, é sintomático –, que prosperam através da discórdia, é sempre o feedback que alimenta esse tipo de música. Ao ser questionado sobre a sua rotina de ensaios, Toshimaru Nakamura respondeu: “Eu toco ruído porque não dá para cometer erros. Eu prefiro passar meu tempo bebendo cerveja com meus amigos.”

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Autor:

é músico e escreve sobre arte