Helado Negro em 15 canções

Um passeio pela obra do artista de raízes equatorianas que leva sensibilidade aos sons eletrônicos

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Fotos: Sadie Culberson

Sorvete de morango é rosa. De abacaxi, amarelo. E qual seria o sabor de um sorvete preto? Foi nessa falta de referência imagética e gustativa que Roberto Carlos Lange se apoiou quando escolheu Helado Negro como nome artístico. Quando você não sabe a resposta, sobra espaço para imaginar.

Desde 2009, o artista norte-americano com raízes equatorianas explora forma e conteúdo no seu trabalho. O berço dessas investigações foi a gravadora Asthmatic Kitty, encabeçada por Sufjan Stevens e seu padrasto Lowell – homenageado no disco de 2015 –, por onde Lange lançou mais da metade dos 12 discos da sua discografia.

A bagagem acadêmica do artista, formado em Arte Computacional e Design de Som, ajuda a entender de onde vem a centelha estrutural das músicas. E embora sobre elas prevaleça a sonoridade eletrônica das máquinas, Roberto faz isso da maneira mais humana possível – não à toa, Isaac Asimov já foi inspiração de uma de suas canções, “Runaround”.

Os temas relacionados à identidade, sobretudo a latino-americana, são frequentes nas composições, que também falam dos modos de ver a vida e das conexões que surgem a partir dela.

Se é impossível descrever o gosto de Helado Negro, ainda bem que existem outros caminhos e sentidos para conhecer sua obra.

“Running”

Você pode até correr, mas não pode fugir daquilo que habita a sua mente. Talvez seja esse o elemento que tornou “Running” a música mais ouvida de Helado Negro – combinado a um instrumental que cresce com a mesma persistência de quem anda em círculos.

“Young, Latin and Proud”

Embora Private Energy (2016) não traga Lange na capa, o tema da identidade é um dos mais marcantes do trabalho. Além de ser uma carta para a versão mais nova do artista, esta faixa ganha força por refletir um sentimento coletivo e político.

“Playas”

Roberto não tem medo de rabiscar até encontrar uma versão que o satisfaça. Isso fez com que, logo no seu álbum de estreia, desse início a uma coleção de sons e experimentações. “Playas”, a música mais curta do trabalho, é também o seu cartão de visita.

“There Must Be a Song Like You”

 Esta faixa é a prova de que Far In (2021) não carrega o peso de ser um álbum pandêmico. Com os olhos fechados, não seria difícil imaginar o movimento dos pratos da bateria, que combina com a cadência dos vocais.

“It’s My Brown Skin”

Uma bateria calma e constante abre o caminho para Roberto cantar sobre o amor pela cor da sua própria pele. Os segundos finais são quase um mantra, aconselhando o ouvinte que é essa mesma cor que vai mantê-lo protegido.

“Mitad de Tu Mundo”

Roberto tem amigos talentosos com quem já colaborou: Devendra Banhart, Eileen Myles e Jerry Paper são alguns dos nomes da lista, que também inclui Mikael Jorgensen. O tecladista do Wilco está por trás do processo criativo desta canção.

“Pais Nublado”

Aqui, as dualidades que permeiam sua discografia aparecem: o inglês e o espanhol nas letras; a leveza do violão e os sintetizadores etéreos; o reconhecimento da dureza da vida e, entretanto, a primazia da sensibilidade.

“Gemini and Leo”

Assim como gêmeos e leão combinam na astrologia, em Far In (2021), esse é um encontro dançante. O beat descontraído e o baixo gravado conversam com a psicodelia do clipe, cujas cores ilustram o universo cósmico mencionado na letra.

“2º Día”

O que acontece quando um artista vai para uma cabana isolada? Justin Vernon e Lange sabem responder. Como nesta música, o último nos conta que o resultado pode ser uma trama de samples e sons da natureza, costurados com fios eletrônicos.

“I Just Want to Wake Up With You”

Tal qual seu xará brasileiro, Roberto Carlos Lange escreve muitas canções de amor. Esta é uma delas. Cantando sobre o desejo de acordar ao lado de quem ama, ele dança no clipe, mostrando que é o primeiro a ser embalado pelas suas próprias músicas.

“Best for You and Me” 

Durante o processo criativo de PHASOR (2024), Lange teve a chance de interagir com o SAL MAR, um sintetizador da década de 1960 capaz de criar infinitas sequências sonoras. É dessa referência que vêm as texturas sintéticas da música.

“Dance Ghost”

Nos três primeiros álbuns, era o espanhol que reinava nas letras. Invisible Life (2013) marca uma mudança, com o inglês ganhando espaço em músicas como esta. Como o fantasma que dança sozinho, o vocal se camufla em meio aos sintetizadores.

“Come Be Me”

A música que abre Island Universe Story Four (2018) é representativa da estética que Lange construiu na metade mais recente da sua discografia. A experimentação sintética continua lá, mas numa roupagem mais pop.

“Two Lucky”

Algumas músicas são conselhos. Ao pensar na impermanência da vida e nos elos que se quebram, Lange propõe aproveitar enquanto há tempo. “Two Lucky” descreve também a cena da capa de This Is How You Smile (2019), na qual Lange aparece com o irmão.

“Colores del Mar”

Além de sons, Helado Negro coleciona imagens e cores. Esses três elementos se encontram nesta música, que ganha mais sentido com o clipe, uma brecha para a inventiva mente de Roberto Carlos Lange, onde caberia um mar.

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ARTISTA: Helado Negro