Hermeto Pascoal, coração magnético

“Tudo o que eu fiz e continuo fazendo é uma homenagem para Ilza”; no disco “Pra Você, Ilza”, a lenda da música celebra o amor por sua eterna companheira em 13 composições

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Fotos: Mônica Imbuzeiro

Aos 87 anos, Hermeto Pascoal exalta o amor de diferentes formas – pela arte, impulsionada por uma criatividade sem limites que o alçou a um status de indiscutível lenda da música mundial; e, de maneira especial em seu mais recente lançamento, por Ilza, a “eterna patroa”, como ele carinhosamente a chama. Hermeto e Ilza viveram juntos por 46 anos, tiveram seis filhos – e esse profundo amor é celebrado em Pra Você, Ilza, disco lançado no dia 28 de maio, pela gravadora carioca Rocinante. O repertório conta com composições desenvolvidas meses antes da partida de Ilza, em 2000. 

Além do álbum, foi inaugurada, no Sesc Bom Retiro, uma exposição dedicada às artes visuais de Hermeto. Ela traz, principalmente, a produção das últimas duas décadas do artista e é organizada em núcleos que estabelecem conexões entre objetos-instrumentos e objetos-partituras, pinturas-partituras e desenhos, música e visualidade, obras-arquivo e experiências sonoras como novos mapas artísticos.

Pra Você, Ilza reúne 13 músicas extraídas de um caderno carregado por Hermeto desde que sua amada se foi. No material original, somam-se mais de 190 partituras dedicadas a Ilza. “Olha, tudo o que eu fiz e continuo fazendo é uma homenagem para Ilza. Eu andei com esse livro para todos os lugares que eu fui, fazendo uma música por dia, como eu já tinha feito no Calendário do Som [livro lançado em 2000, com 366 partituras]. Quando terminei, foi mais ou menos na época que ela nos deixou. Então já era uma homenagem e agora se tornou mais ainda”, relembra Hermeto.

Frente a um funil estreito de apenas 13 músicas – na versão em vinil, são 10 – em meio a tantas composições em seu caderninho mágico, Hermeto conta que escolheu, uma por uma, com muito carinho. “Uma delas é do aniversário da Ilza, 17 de janeiro, e as outras escolhi porque tinha que ter uma ligação entre elas. Temos mais choros, tem outros frevos”. Mas, mesmo com uma curadoria tão cuidadosa, Hermeto diz que o livro todo – ou o caderno todo – merece ser gravado. “Não sei como, não sei quando, não sei onde, mas as coisas devem acontecer assim, tem que ser gravado. Meu grupo ou qualquer músico do mundo tem que gravar. O importante é isso, é a energia e a conexão que cada música traz”.

No início do projeto, Hermeto escolheu as primeiras páginas do caderno, repletas de choros. Com o passar do tempo, mantendo-se fiel ao seu ímpeto criativo, abarcou uma grande variedade de estilos e propostas – em parceria com seu grupo, formado por André Marques (piano), Jota P (saxofone), Itiberê Zwarg (baixo), Ajurinã Zwarg (bateria) e Fábio Pascoal (percussão). A sintonia entre cada elemento e instrumentista é evidente, tanto pelo talento quanto pelo tempo de caminhada musical compartilhada. “A gente gravou o disco em um lugar muito bonito, no meio da natureza, mas foi da mesma maneira que nós gravamos os outros – tudo é muito livre. A gente tinha essas canções que estavam escritas e o arranjo a gente foi criando ali na hora, eu junto com o grupo. Tudo acontece com muita conexão. O Itiberê, por exemplo, já toca há quase 50 anos no grupo. O Fábio também já está desde o final dos anos 1980. O André Marques, desde o começo dos anos 1990. E tem o Ajurinã e o JP, que são os caçulas, mas também já estão muito acostumados com essa maneira de trabalhar. Então, foi muito tranquilo, e o estúdio era maravilhoso. Por isso que saiu essa coisa linda”, resume Hermeto. 

“Quando eu falo de música universal, é porque ela não é um gênero específico. Ela é tudo, música é música. As pessoas querem dar nome, mas eu apenas sinto, eu não dou nomes”

Aos 14 anos de idade, Hermeto se mudou de Lagoa da Canoa (AL) para Recife (PE). De Recife foi para o Sudeste – primeiro para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo. Mas foi na primeira mudança, quando foi para a capital pernambucana, que a história de Hermeto e Ilza começou. “Várias músicas deste álbum me lembram do período que morei com ela em Recife e nomeei várias delas em homenagem — ‘Do Rio para Recife’, ‘Recordações de Recife’, ‘Sol de Recife’. Foi uma época maravilhosa, que eu conheci o mundo. Tocava nessa época na Rádio Jornal do Commercio, conheci Sivuca. Muita coisa boa aconteceu”.

Seja em discos clássicos como Slaves Mass (1977) ou Cérebro Magnético (1980) ou em performances antológicas, do Festival de Montreux, em 1979, à imortal “Música da Lagoa” (registrada no filme Sinfonia do Alto Ribeira, de 1985), a arte de Hermeto Pascoal desafia convenções e dobra a aposta sobre possibilidades sonoras. É mais do que música – não à toa, ele é apelidado de “bruxo”. “Eu ouço o mundo: pássaros, som de carro… Tudo e todos sempre me encantam, não tenho um favorito porque eles são o que eles são”. Em Pra Você, Ilza, ainda que definições ou ao menos ecos de estilos musicais tenham seu lugar, as composições transcendem categorias e guardam surpresas (das harmonias aos ritmos) que desmontam rótulos. 

“Tudo o que eu fiz e continuo fazendo é uma homenagem para Ilza”

É uma história de amor em forma de som – e que assegura um diálogo constante, embaralhado e, sobretudo, deslumbrante entre o universal e o regional; passado, presente e futuro. “Olha, quando eu falo de música universal, é porque ela não é um gênero específico, né? Ela é tudo, música é música. As pessoas querem dar nome, mas eu apenas sinto, eu não dou nomes, então é isso que é de universal, está sempre presente em tudo que eu faço. A música é universal, ela é feita com o que vem do mundo todo e é feita para o mundo todo, por isso que ela é universal. E o que eu quero fazer: compor e tocar pra esse público lindo!”. 

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