Homossexualidade e Rimas: Queer Rap Pode Ser uma Nova Tendência

Gays, lésbicas e transgêneros mostram voz em autoafirmação divertida e versos reflexivos

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Fotos: Mykki Blanco na The Village Voice

Transpirando a rotina das ruas e majoritariamente conhecida pela atitude mais “agressiva” na forma de se expressar, a imagem que se vende do Rap é a da resposta cultural de quem vive à margem de uma sociedade de consumo que segrega e não oferece oportunidades, seja mostrando isso em forma de ostentação ou cutucando feridas em sábios versos. Isso vai direito ao patamar da popularização de um gênero, que leva tempo, muito trabalho e geralmente envolve uma grande cena e número de adeptos. Mas e quando subgêneros emergem desses estilos já aceitos? Inspirados pelos palpites de Gaia Passareli, é sobre isso que vamos abordar nessa tendência que vem sido chamada de Queer Rap.

Com o passar do tempo, a evolução e o esclarecimento da população mundial, principalmente quando se fala de novas leis, fica mais fácil para nomes como Mykki Blanco mostrarem suas produções e ganhar destaque no meio rapper com o diferencial de ser um transgênero. Trazendo arranjos densos como as produções de Tyler, The Creator e Odd Future, Michael Quattlebaum Jr. apresenta letras que autofirmam sua orientação sexual, que de forma alguma tem a intenção de ser frágil, levando em conta as rimas com sua voz empostada e grave. Com as primeiras inspirações baseadas em grupos feministas de Riot Grrls, Michael levou tempo para se encontrar no Rap e afirmou que nunca foi um mistério pra ele as dificuldades que viriam. “Eu já sabia que não chegaria aonde queria da mesma maneira que outras pessoas chegaram. O que não sabia no começo é que a sexualidade poderia ser assim tão fluida”, revelou o artista em entrevista à revista Village Voice.

Embora a ideia do estilo esteja muito ligada à mensagem de conscientização em sua teoria, outros nomes de destaque preferem, como a maioria dos rappers Pop, evocar a diversão através de suas batidas. Cazwell gerou burburinho com o polêmico clipe de Ice Cream Truck, com sonoridade iniantil e recheado de rapazes salientes e descamisados chupando picolés enquanto rebolam ao som da música. Big Dipper é outro nome a se atentar e que também tem a síndrome dionisíaca de se divertir e falar sobre seu poder sexual como um 50 Cent faria em um de seus vários hits – o artista preenche a classe dos “grandes ursos” e não se poda quando o assunto é homem. Le1f, conhecido pelos hits Wut e Soda, é também representante e utiliza de traços da androginia a seu favor. Sua sonoridade é digna de um pastiche de Diplo, baseada em uma grande amarração de diferentes percussões eletrônicas que envolvem e convidam para a pista de dança.

Representando as garotas, o maior nome provavelmente ligado a tal cena seja o de Brooke Candy. Tendo chamado atenção de um público maior desde a aparição no clipe de Genesis, da cantora Grimes, a jovem que investe pesado em sua estética futurista e libidinosa é assumidamente gay e tem pleno domínio de como conduzir suas letras a seu favor, quase sempre ostentando seu valor e que quem faz a regras e ela mesma. Ainda sobre mulheres, há de se ressaltar um combo brasileiro que é bem conhecido no underground e já trilha no caminho da baixaria e algazarra há alguns anos: Sapabonde é formado apenas por lésbicas que mesclam letras próprias (e sexuais) com batidas de Funk já bem conhecidas e levam muita gente à loucura em seus shows em palcos baixos e sempre bem cheios.

A grande prata da casa vai para a goianense Lulu Monamour, que se denomina como a primeira rapper transexual do Brasil. Com influências vindas de nomes da música negra como Missy Elliott, Lil Kim e Eve, Lulu é o nome que mais vincula suas composições ao protesto e à idealização, como visto em seu recente single, Liberdade. “Meu som é pra todas as manas, mulheres guerreiras e batalhadoras, gays, lésbicas ou qualquer pessoa que já sentiu desconforto, desprezo ou humilhação com qualquer preconceito seja de teor racial ou sexual imposto pela sociedade”, afirma a pioneira.

O derradeiro e mais relevante nome fica para o fim: Angel Haze. Se assumindo como pansexual, Haze lançou neste ano seu bom disco de estreia Dirty Gold, pela Universal Records. Ela foi alvo de críticas durante sua infância e adolescência e inclusive ouviu da própria mãe que queimaria no inferno ou apenas morreria de AIDS por “escolher essa maneira de viver”. O material é o melhor resumo de tudo que abordamos no decorrer do texto – as críticas, os momentos difíceis e a própria diversão são transmitidos através de uma clara mensagem de Angel à imprensa. “Eu não me importo com a sexualidade”, declara a artista, “eu me importo em me conectar com as pessoas num nível mais profundo, tendo realmente algo que possamos conversar em comum, porque no fim das contas, isso é o que realmente faz valer o esforço”.

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Autor:

Jornalista por formação, fotógrafo sazonal e aventureiro no design gráfico.