Estilo é para quem tem

Oriundos de BH, onde a cena do Rap nacional encontrou seus melhores expoentes nos últimos anos, a dupla Hot e Oreia fez um faixa a faixa exclusivo para o Monkeybuzz de seu mais recente disco

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Fotos: Cabra

“Nós ‘tamos fora da caixa, eles ‘tão no caixão” é parte do refrão da faixa “Rappers”, da dupla belo-horizontina Hot e Oreia, que reflete comicamente sobre a cena de Hip Hop de forma geral, e da não-identificação sentida pelo duo em relação a ela: “Seu rapper favorito me acha esquisito”, diz Hot em seu primeiro verso, e complementa, “Não é mais o habitual esses rappers sem sal / Isso é fogo no rei, linhas sem lei, Hot e Orei’, não vi nada igual”. 

A faixa é parte do álbum de estreia do duo, Rap de Massagem, lançado no final de julho. Ex-integrantes do grupo DV Tribo, que lançou à cena alguns dos rappers mais relevantes do país nos últimos anos – entre eles, a revelação Clara Lima, o padrim FBC e, claro, o gigante Djonga – a dupla juntou todo o trabalho que havia realizado em dez anos de amizade a novas faixas e ideias para finalmente firmar seu disco de estúdio. O resultado os levou a uma apresentação memorável no Circo Voador no último domingo (8), junto aos conterrâneos Clara e Sidoka. 

A química artística entre Hot e Oreia parece ser tão perceptível para quem os assiste como foi para o duo assim que se conheceram, aos 16 anos. “Foi amor à primeira vista. A gente tinha as mesmas ideias, mesmo signo, mesmo ascendente – sagitário, ascendente em peixes”, conta Oreia em entrevista ao lado de Hot antes do show no Circo. “Tudo sempre bateu e, apesar de termos carreiras solo, sempre fizemos músicas e shows juntos.”

Além do mapa astral, os dois também dividiam um gosto que foi essencial para sua conexão: o teatro. Ambos tiveram experiências com artes cênicas e têm um dom especial para o humor, inclusive para discutir assuntos como política, poder, autoritarismo. “O humor é uma via, e usamos porque quando a situação é seriona a gente não consegue se expressar legal. É um viés pra chegarmos no que queremos falar”, diz Hot. 

O tom humorístico levou o grupo a ser constantemente referido como os “Mamonas Assassinas do Rap”, o que Oreia atribui mais à estética do que ao som do grupo: os cabelos coloridos, fantasias e clipes malucos também fazem parte da receita de Hot e Oreia. 

Não à toa, as linhas em “Rappers” são um bom resumo do sentimento passado pelos breves 29 minutos de Rap de Massagem: o de dois rappers que parecem fazer troça do fato de não se encaixarem em concepções médias do que seria ser um rapper. Mas deus os livre de levarem até isso a sério demais: quando não estão tirando sarro dos outros, Hot e Oreia estão tirando sarro de si mesmos e vice-versa.

Abaixo, a dupla explica faixa-a-faixa a criação do disco e fala sobre os segredos do estilo.

EPARREI

Oreia: “Eparrei” é a música mais séria que a gente fez na vida. O Rafael Fantini, artista de BH que participa da faixa, já tem o verso dele e o beat há muito tempo. A gente vem escutando essa guia no celular há uns anos, e sempre se trombava e comentava que precisava escrever essa. Aí, quando fomos fazer o disco, ela saiu. 

EU VOU

Hot: A gente pegou o instrumental de “Eu Vou” já pensando em fazer uma parada com um tema político. Estávamos pensando e vivendo muito isso, mesmo que indiretamente. Aí o Oreia me mandou a guia já gravada com o verso dele e antes de eu escrever eu falei “caralho, essa tem que ter o Djonga”. Fizemos o processo eu e ele juntos, ele escreveu e foi mandando, tudo a distância. E já escrevemos com a ideia do clipe em mente, que é inspirado n’O Auto da Compadecida.

RAPPERS

Oreia: ‘Rappers’ é uma autocrítica não só pra cena do Rap como em todo, mas pra gente mesmo. 

Hot: Às vezes parece que estamos zoando alguém, mas na verdade estamos zoando nós mesmos.

Oreia: E a cena também. A gente zoa todo mundo (risos). Mas esse é um dos nossos temas preferidos, falar sobre esse não-pertencimento à cena do Rap. Apesar da cultura Hip Hop fazer parte da nossa vida desde sempre nós achamos muita coisa cafona atualmente. 

Hot: Tem uns meninos com quem trocamos umas ideias boas, Sidoka, BProblemx, essa nossa galera. Mas nos camarins lá em BH a gente ficava meio encabulado, não conseguia interagir muito.

Oreia: Olhando pra todo mundo pensando “que gente estranha”, e eles olhando pra gente pensando a mesma coisa. A galera é muito mente fechada. 

XANGÔ

Hot: A gente já tinha cruzado com a Luedji Luna algumas vezes, mas nunca trocamos mais do que duas palavras. Essa música nós cantávamos com o Filhos de Sandra, nossa antiga banda, e é uma música do terreiro da minha mãe que eu frequentava. Quando finalmente gravamos a faixa, pensando nela pro disco, mandamos a guia pra Luedji através do Djonga e ela topou.

Oreia: Desde criança a gente sempre foi muito ligado à espiritualidade, Hot com o Candomblé e eu com as minhas crenças, xamanismo, que fiz quando era adolescente. Somos muito ligados a energias, aos orixás, aos deuses, às deusas. 

RAP DE MASSAGEM

Hot: O nome surgiu como uma brincadeira. A gente sempre faz paródia das coisas, fica zoando nomes. Um cara que de quem somos muito fãs, MC Marechal, o conceito do trabalho dele é ‘Rap de mensagem’, o bagulho reto mesmo. Pensamos em nos distanciar o máximo disso porque, apesar dele ser uma referência, o que fazemos é muito distante. Aí zoávamos com o ‘Rap de massagem’ e em algum momento caiu a ficha que era o nome perfeito pro disco.

Oreia: Tem muito a ver com as nossas músicas também porque elas aliviam com o humor, é tipo uma massagem. 

TEMA

Oreia: Toda música que fazemos de amor são as que mais gostamos de fazer, é onde saem nossos melhores versos. 

Hot: É curioso que tenha saído só uma no disco, geralmente a galera faz duas, três. Mas no processo de gravação pensamos exatamente isso, falta uma lovesong, e aí surgiu “Tema”. 

Oreia: E aí chamamos a Marina [Sena, cantora], que é a rainha de BH, nossa amiga, e encaixou perfeito no beat do Coyote.

BICHO DA GOIABA

Hot: “Bicho da Goiaba” é a que a gente mais gosta e é a menos escutada.

Oreia: Ela é a mais underground. Quisemos fazer uma coisa que um rima depois do outro, versos aleatórios sem tema. Estávamos com saudade de fazer um ‘Rapão’.

ESTILO

Oreia: “Estilo” foi perfeita porque surgiu de uma coisa que sempre quisemos falar: que a gente sentia que a galera nos imitava ao mesmo tempo que nos acham estranhos. De algum modo nós antecipamos as coisas, como se sentíssemos a atmosfera do mundo. 

Hot: O clipe surgiu porque pensamos primeiro na capa do disco, e aí o clipe foi criado em volta dela. E no dia da gravação pensamos em fazer a fila da galera se massageando e criamos aquele diálogo inicial com base no que líamos falarem da gente na internet. 

CIGARRO

Oreia: “Cigarro” surgiu de um beat do Enece, que é um amigo nosso de BH. Falamos que estávamos fazendo um disco e pedimos uns beats, piramos nesse. A letra surgiu bem natural, querendo falar de poder, de autoritarismo.

Hot: É estilo “Eu Vou”. A gente tava deprimido com as paradas de política e tínhamos saído no dia anterior. Conversamos com uma galera politizada cabulosa e no dia seguinte fomos no Enece pra gravar a música.

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ARTISTA: Hot e Oreia