Iceage comemora 10 anos do disco de estreia autografando o novo

Elias Rønnenfelt, vocalista da banda dinamarquesa, comenta os paralelos entre a produção de “Seek Shelter” e a trajetória do grupo

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Fotos: Fryd Frydendahl

“Já fazemos discos há 10 anos, mas, de certa maneira, estamos só no começo” – poderia ser uma frase bonitinha, com certo efeito, se Elias Rønnenfelt, guitarrista e vocalista da banda Iceage, não entregasse uma obra que argumentasse em favor de sua fala. O quinto disco do grupo dinamarquês apresenta novas nuances em sua musicalidade – uma nova expansividade em arranjos mais bem elaborados – sem perder as qualidades do Post-Punk e Noise que marcaram suas obras anteriores. Mas nada disso foi muito premeditado, assim como toda essa década que separa New Brigade (2011) do novo trabalho (lançado no dia 7 de maio).

“O primeiro disco teve seu décimo aniversário no mesmo dia em que Seek Shelter chegou da prensagem”, contou ele ao Monkeybuzz. “Nós estávamos juntos para autografar os discos e colocamos New Brigade para tocar, para comemorar a data de alguma forma. E foi um momento bonito estar ouvindo o álbum antigo segurando o novo. Achei ele bom, mas estar ali com as mesmas pessoas com que eu passei esse tempo todo, ouvindo aquele eco do passado, percebemos que somos basicamente as mesmas pessoas, mas também tivemos o entendimento de que vivemos muita coisa nesse meio tempo”.

Elias reflete que “seria triste se as coisas aos 28 anos fossem como elas eram aos 18”. Sobre seu amadurecimento pessoal, diz que ele se tornou mais ele mesmo, estando mais à vontade dentro da própria cabeça. Mas reconhece: tudo permanece incrivelmente confuso, com novos problemas que surgem a cada idade. “Ninguém atravessa uma crise e encontra a luz. Você atravessa e percebe que está apenas mais à frente na estrada”, explica.

Essa atitude está totalmente correlacionada com o que encontramos em Seek Shelter, um álbum que caminha entre o sóbrio e o sombrio, com uma amargura já distante das questões adolescentes, mas, ao mesmo tempo, que parecem ter evoluído a partir dali. “Os discos funcionam como um resumo do que está na sua cabeça em uma determinada época, [ele mostra] os processos que te causaram tanto impacto e fazem você precisar se comunicar em forma de música”, explica Elias.

“A maneira com que eu vejo cada disco, embora eu dificilmente escute os antigos, é que eles são representações perfeitas do que estava em nossas cabeças naquele período, e tudo o que isso nos causou. À medida com que você continua vivendo, isso se manifesta em discos diferentes. E é claro que isso é formado pela jornada que você teve, como você amadureceu, mas o que uma obra representa chega a ser existencial”.

Na perspectiva de Elias, as composições são respostas aos processos internos dos artistas e, assim como não há controle sobre os eventos que vivemos, a produção de um disco responde por sua vez ao que as faixas acabam se tornando. “Nossas ideias para as músicas são basicamente feitas de guitarra, baixo e bateria”, conta ele, “depois que [essas partes] são gravadas, damos um passo para trás e percebemos que conseguimos ouvir algo na música que não está lá, quer seja um coral, um arranjo de cordas ou o que for. A questão é tentar escutar esses fantasmas de sons que não estão lá, e depois entender como encontrá-los. “O trabalho é pensar como guiar a música até aquele lugar onde você entende que ela precisa chegar. É um processo difícil, dá para perder a cabeça nele. Chega uma hora em que você percebe que a música atingiu sua forma e já não há mais nada a acrescentar, mas, antes disso, você precisa bater a cabeça na parede algumas vezes até tudo fazer sentido de novo”.

“O trabalho é pensar como guiar a música até aquele lugar onde você entende que ela precisa chegar. É um processo difícil, dá para perder a cabeça nele. Chega uma hora em que você percebe que a música atingiu sua forma e já não há mais nada a acrescentar, mas, antes disso, você precisa bater a cabeça na parede algumas vezes até tudo fazer sentido de novo”

“Raramente fazemos muitas escolhas”, conta ele sobre como Iceage visualiza os discos muito antes desse “passo para trás”, ao entrar no estúdio. A única intenção definida que a banda tem é a de “não voltar aonde já fomos, ir sempre para frente e para cima”, em suas palavras, “é como houvesse um teto que queremos deixar mais alto”. Isso explicaria grande parte de Seek Shelter e suas longas faixas (na contramão tanto das tendências de lançamentos de hoje, quanto da própria tradição Punk da qual o grupo é herdeiro), no movimento que Elias chama de “tentar deixar a música cada vez maior”. “Talvez também seja porque dá para explorar mais ideias em uma duração maior”, comenta ele, “e também acho que quando você ganha experiência como compositor em paralelo com que sofre as ações da vida –você vive e tropeça, e tropeça cada vez melhor (risos) –, talvez venha junto a capacidade de explorar certas coisas em novas maneiras. Mas não sei, são só palpites”.

“Nunca sentamos e discutimos que tipo de música queremos fazer, qual direção tomar [como banda]. Da mesma forma, nunca sentamos e falamos ‘vamos fazer músicas mais longas’. Só flui assim”, conta Elias. Ao refletir novamente sobre Iceage lançar um álbum enquanto comemora os 10 anos de seu disco de estreia, ele reafirma que toda a trajetória da banda aconteceu com a mesma espontaneidade que nascem suas músicas: “Não comecei a fazer discos porque eu tinha um plano, era apenas uma reação juvenil a não estar satisfeito com o lugar onde eu estava. Eu não tinha aspiração nenhuma, não pensava no futuro. Mas, à medida que as coisas progrediram e tudo começou a dar certo, compor começou a me dar um senso de propósito, de significado, e meu cérebro involuntariamente parece querer viver mais e entender como transformar [a vida] em música”.

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ARTISTA: Iceage

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.