Indie raiz: a improvável história da Snooze

A banda que colocou Aracaju na rota do underground encerra suas atividades, com fãs espalhados pelo Brasil e compilação que homenageia mais de 25 anos de história

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Fotos: Facebook Snooze (Divulgação 1995-1998)

A distância entre a capital paulista e a capital do Sergipe, o menor estado do país, dá pouco mais de dois mil quilômetros, resultando em uma viagem de 30 horas. Se a internet modificou as noções de espaço, “encurtando” distâncias, o cenário era diferente no início dos anos 1990. Para uma banda de Rock Alternativo de Aracaju se comunicar com o resto do país, restavam duas opções fundamentais: espalhar o som na base do boca e realizar inúmeras visitas aos correios.

Como no caso da Snooze, formada em 1992 pelos irmãos Rafael Jr (bateria) e Fabinho Oliveira (baixo e vocal), ao lado de Daniel Garcia (guitarra). Na época, os integrantes tinham entre 17 e 20 anos, escutavam as mesmas coisas, e, inspirados pelo som e pelo ethos das bandas gringas, decidiram que fariam o mesmo – só que no nordeste pré-internet. “A gente ouvia basicamente o Indie/ College Rock americano (Sonic Youth, Husker Du, Dinosaur Jr, Pixies, R.E.M), as guitar bands britânicas (My Bloody Valentine, Ride, Stone Roses), Punk Rock e Pós-Punk (Ramones, Television, Gang Of Four, Iggy Pop). Ao mesmo tempo em que éramos – e ainda somos – loucos pelos sixties (Beatles, Stones, The Who, Velvet Underground, Byrds, Kinks…)”, conta Rafael Jr.

Durante os 25 anos em que a banda esteve na ativa – encerram atividades em 2020 –, lançaram a demo Snooze (1995), os discos Waking Up… Waking Down (1998), Let My Head Blow Up (2012) e Snooze (2006), e o EP Empty Star (2012). Apenas os irmãos foram constantes na formação do grupo e há ex-integrantes espalhados de norte a sul do país. A última escalação contava com os guitarristas Luiz Oliva e João Mário.

O projeto principal dos músicos era a Snooze, mas eles também costumavam manter grupos paralelos. Juntos, Rafael e Fabinho já tiveram banda de Blues e hoje continuam na Sargento Mostarda, em que tocam covers de Beatles. O baterista é professor, já tocou na Orquestra Sinfônica de Sergipe e também no Ferraro Trio, grupo instrumental de Soul Music. O baixista acompanha a cantora Patrícia Polayne, entre outros projetos com amigos.

Sobre o término: um ciclo que se encerrou, depois de vários bons momentos. “Eu, particularmente, já tinha pensado algumas vezes nos últimos anos, mas não sei se era um consenso geral na banda e também tinha alguma centelha com uns shows, novo integrante e um punhado de músicas inéditas, que iriam compor um novo disco”, explica Rafael Jr.

Uma era pré-internet

Colocando o Rock sergipano no circuito nacional, a banda seguiu em constante evolução durante as quase três décadas de existência. A história da Snooze incrementou o imaginário da cena local, reverberando em bandas que vieram depois, como as atuais The Baggios, Cidade Dormitório e Taco de Golfe. Se não são influência direta no som, a Snooze se tornou referência de como uma banda, não baseada no Sudeste, onde a maior parte da renda do país está concentrada, pode se virar. “O release sempre vinha com o endereço da banda e isso também era divulgado, recebíamos cartas de todo o canto do Brasil, um volume muito grande mesmo nessa era pré-internet”, lembra Rafael Jr.

Sem saudosismo, pois seria impossível comparar contextos, os irmãos passaram a maior parte de suas respectivas vidas adultas na rotina de banda – ensaiar, compor, marcar show com contratantes de outros estados e por aí vai. “Especificamente sobre a cooperação entre as bandas, acho que sim: havia mais. Ainda sinto hoje um certo senso de coletividade, mas antes era uma questão de sobrevivência. Era o normal, o corriqueiro, se não, as coisas nem rolavam”, explica o baterista. Afinal, se os músicos não se ajudassem, nada poderia mudar o destino desses grupos.

As próprias revistas de música, como a Bizz e a Rock Brigade, populares nas décadas de 80 e 90, eram canais de divulgação desses fanzines e das fitas demo das bandas espalhadas pelo país. O país vivia uma efervescente cena do famoso “Rock de guitarra” – consequência da década anterior, “a era de ouro do Rock brasileiro”, com a primeira edição do Rock in Rio (1985) e o lançamento de discos de Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs, Camisa de Vênus, Inocentes, entre outros. No Sudeste, grupos como Pin Ups, Garage Fuzz, Againe e Killing Chainsaw mantinham o sonho underground vivo.

No próprio Sergipe, bandas mais pesadas como Karne Krua e Crove Horrorwshow eram contemporâneas e admiradas pelos músicos da Snooze. Enquanto a Lacertae e a Plástico Lunar eram aquelas com as quais eles se identificavam artisticamente. Puxando o bonde da cena de Aracaju, a Snooze passou a abrir shows de nomes do mainstream, como Planet Hemp, Ira! e Raimundos, que desembarcavam na capital sergipana.

Na capital do estado vizinho, Salvador, uma própria revolução roqueira acontecia na cidade. Como era comum, os fãs conheciam novas bandas em eventos. O jornalista do site El Cabong e curador do festival Radioca, Luciano Matos, lembra da primeira vez que viu um show do grupo sergipano: “No lançamento da Penélope Charmosa, que depois virou Penélope, a Snooze era a banda representante de Sergipe. Os caras não tinham pinta de roqueiro, todo mundo de cabelo curto e com carinha de bem-comportado. Fizeram um som muito legal, passei a acompanhar”.

Pela proximidade entre os estados, os músicos sergipanos tocaram diversas vezes na capital baiana. Destacam as apresentações nos festivais Boom Bahia Rock (1998), Summer Babe (1999) e Garage Rock (1996 a 2000). A distância não era mais um problema e eles foram desbravar o Brasil, indo do Circadélica, em Sorocaba, ao Festival Dosol, em Natal.

Os Snoozes também lembram com carinho das edições de 2002 e 2006 do Goiânia Noise, tradicional evento de Rock na capital do Goiás. Se a Bahia tinha o Axé Music, a cena dos roqueiros goianos lutava para sair da sombra do Sertanejo. Ex-integrante da banda MQN, produtor cultural e grande entusiasta/bastião da música independente nacional, Fabrício Nobre estava por lá e se lembra de tudo. Ele amava – e ainda ama – a banda sergipana. “Indie até o caroço. Eles eram Indie antes do Indie ser o que é no Brasil. Wry, Snooze, brincando de deus, Grenade, eram meus heróis. Achava foda porque não eram nem do Rio e nem de São Paulo”, lembra Fabrício, que hoje continua seu legado à frente do Festival Bananada.

Era 1998, ano do nascimento do selo goiano Monstro Discos e do lançamento de uma coletânea, organizada por Fabrício, que contava com uma track da banda sergipana. A identificação foi tão grande, que o selo, ao lado da Short Records, lançou o disco Let My Head Blow Up, em 2002. Assim, estreitando de vez os laços entre as cenas dos dois estados.

Quem via a movimentação de fora, além de se orgulhar das conquistas, era inspirado pela maneira como os sergipanos contornavam os desafios de ser independente no Brasil. Um dos músicos tocados pela saga da Snooze foi Julio Andrade, que posteriormente faria shows pelo mundo com a The Baggios, conquistando, inclusive, uma indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock. Nascido em São Cristovão, a 30 km de Aracaju, o músico se mudou para a capital na virada para os anos 2000 e formou a própria banda quatro anos depois.

A primeira música que Julio escutou dos “veteranos” foi “Come Upstairs”, que integrou uma coletânea da revista cemporcentoSKATE. Ele comprou o disco em um sebo por R$ 2,00  e ainda nem imaginava que um dia formaria uma banda com os irmãos – a finada Hoodoo Fuzz, que tocava Blues. “Eu era só um guri começando a tocar e sonhando a ter banda”, lembra o guitarrista da The Baggios.

Ao longo dos anos, a relação entre os músicos se estreitou ainda mais. Além de compartilharem referências, há o orgulho mútuo de dividirem o mesmo local de origem. “As coisas acontecem muito por aqui e não saem para fora da bolha. A Snooze é uma banda que tocou em festivais, lançou disco pela Monstro, a principal gravadora de Rock da época. Vejo isso como um incentivo, porque é muito fácil desistir de ter banda no Brasil. Quando alguém começa a dar certo, traz um fôlego maior”, explica Julio.

Legado vivo (na música e nas lições)

Outro artista conterrâneo que vê a banda dos irmãos Rafael e Fabinho como referência é Gus Machado. Durante os últimos dois anos, o músico e publicitário organizou a coletânea Snoozing All This Time, uma homenagem ao legado da Snooze lançada no início do ano. Ao todo, 15 bandas diferentes, espalhadas pelo país, enviaram novas versões de músicas conhecidas da banda, tudo feito com muito carinho, em seus respectivos home studios. Mesmo não morando mais em Aracaju, o projeto foi uma maneira de manter uma troca criativa com o lugar que o formou musicalmente.

Em 2002, Gus tinha 14 anos, escutava vários artistas estrangeiros e ficou intrigado com a banda que soava como as suas referências, porém com um atrativo muito interessante: dividiam o mesmo espaço geográfico. “Eles eram uma banda de Aracaju, Sergipe, o lugar onde eu estava, então me sentia representado por pessoas que faziam música que eu considerava de banda grande. A sensação era de que esses caras eram uma banda grande que calhou de nascer em Aracaju. Então, é como se eu estivesse em LA e fosse ver o Weezer, Seattle e Nirvana ou Glasgow e Belle & Sebastian”, conta o músico.

Quando decidiu se realocar fora do país, a Snooze ocupava um lugar afetivo em seu hall de bandas favoritas, ao lado de Cake, Bright Eyes, entre outros. “Eu curtia o fato de morar fora e poder mostrar para as pessoas e dizer, ‘cara, essa banda é da minha cidade e é uma banda incrível, você tem que escutar’”, lembra Gus. Com o tempo, a relação virou amizade e recentemente ele se juntou a Rafael Jr. para a gravação de uma faixa que integrará um tributo a Daniel Johnston.

“Indie até o caroço. Eles eram Indie antes do Indie ser o que é no Brasil. Wry, Snooze, brincando de deus, Grenade, eram meus heróis. Achava foda porque não eram nem do Rio e nem de São Paulo” – Fabrício Nobre

Na época em que ainda morava em Aracaju, Gus mantinha a banda Road to Joy, que foi apadrinhada pelos Snoozes. Depois, suas investigações caseiras passaram a se debruçar no Bedroom Pop, com ênfase no processo de produção. Para ele, além do aspecto sentimental, a banda é referência de qualidade. “Eles não sofriam da síndrome de ‘nós somos underground, tem que ser sujo e tem que ser mal gravado, porque essa é nossa estética’. Eles não eram dessa cena, tinham um cuidado gigantesco com a produção do ponto de vista técnico”, explica.

Para o fã, a Snooze, que era extremamente ativa, na época dos zines e das fitas K7, perdeu conexão com a cena quando o mundo virou digital e a indústria da música assumiu uma nova dinâmica, a dos singles, dos streamings, dos vídeos e das redes sociais. Organizar a coletânea foi uma forma de dialogar com a arte dos ídolos e também entrar para a história deles. Durante o processo, descobriu o tamanho do grupo na memória afetiva-musical de outros 14 músicos e um site foi lançado com entrevistas de todos os participantes do projeto, além de uma ilustração para cada um dos colaboradores.

Em Natal, o músico Dimetrius Ferreira também acompanhava a trajetória da banda desde o início dos anos 2000. Contemporâneo de Gus, o artista potiguar viu alguns shows do grupo, assim como dividiu line ups com os ídolos, conforme desenvolvia a sua própria trajetória na música. Antes de assumir o projeto solo, o músico e designer participou das bandas Dead Funny Days, Bugs, Automatics e Mahmed. Logo, passou a se apresentar em eventos do selo local Solaris Records e do tradicional Festival Dosol. A gravadora lançou o disco Snooze, de 2006, em parceria com a Monstro Discos.

Para participar da empreitada, criou uma releitura da música “Fado”, a sua preferida. “Fiquei pensando que cantar em inglês para bandas como o Snooze colocam eles dentro do espectro de bandas Indie tradicionais. Desconstruir isso começando pela letra. A ideia de uma banda nordestina fazer no começo do anos 90 o mesmo som de bandas clássicas como Teenage Fanclub e Dinosaur Jr me tocava muito”, conta Dimetrius.

O sentimento de reconhecimento é compartilhado por todos os colaboradores, bem como a sensação de pertencimento a algo maior, como uma gangue. Conforme os anos foram passando, os irmãos nunca deixaram de presenciar o rolê e escutar o que estava sendo tocado na cidade. No caso do músico João Mário, que chegou a tocar na última formação da banda, o contato aconteceu durante o ano de 2006. Ele é responsável pela releitura de “Snoozing All The Time”, uma música, que segundo o artista, é sobre “o duplo sentido das duas coisas que eu quero muito fazer – fazer música e descansar – e como, contraditoriamente, a vida resiste a esse desejo”.

Quando começou a arranhar os primeiros acordes na guitarra, João Mário também passou a se interessar pelo o que rolava por lá. “Lembro de ter visto um show da Snooze na antiga ATPN. Pouco tempo depois, o meu pai trouxe um disco com um sofá amarelo na capa. Segundo ele, eu ia gostar muito”, escreveu no site da coletânea. O conselho de família foi certeiro e ele nunca mais deixou de escutar aquele álbum. No momento, seu primeiro trabalho na banda El Presidente, na qual originalmente toca ao lado de Fábio Aricawa e Gabriel Perninha (baterista da The Baggios), está em processo de gravação. O trio acaba de adicionar outro guitarrista na escalação, o musicista e produtor cultural Matheus Reckzigel, que morava no Pará antes de chegar na cidade no início da última década.

Desde novo, o futuro integrante da El Presidente era aficcionado por música e, aos poucos, foi descobrindo o ecossistema do seu novo lar. O mood era acolhedor, do tipo capital com cara de cidade do interior, onde todo mundo se conhece, se ajuda, e divide projetos musicais. Desejava conhecer quem fazia som, se organizava e mexia com música. Não demoraria muito para chegar a dica sobre a Snooze, assim como a The Baggios e a Triste Fim de Rosilene.

“Consigo perceber como eles influenciaram as pessoas a entender a importância de se organizar, enquanto um grupo que tem que lutar pelos seus direitos. Como músicos que precisamos estar juntos. São pessoas que tem muito a ensinar”, diz Matheus. Inclusive, o baterista Alexandre Damasceno – da Taco de Golfe, banda em que colabora como produtor – foi aluno da escola Rafael Jr.

Portanto, além de um legado musical consolidado, eles, efetivamente, estão ensinando a nova geração a não ficar parada. E também a entenderem a importância da articulação e da mobilização, enquanto coletivo que troca informações e que pode correr junto. Um ciclo de muitos anos se encerra com o fim da Snooze, que espalhou sementes, as quais, agora, podem ser semeadas pela internet. Afinal de contas, o tempo passa, os cenários mudam, personagens e missões se transfiguram, mas a máxima cantada por Rita Lee lá nos idos de 1973 continua verdadeira e urgente: “tudo pode acontecer, você vai ver, e quem fica parado é poste, eu quero é me locomover”.

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ARTISTA: Snooze
MARCADORES: Artigo

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