Interpol: Um Amor Pra Recordar

Obra mais subestimada da banda mostra sua boa forma ao compor registros emocionais e densos

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Sabe aquele disco lançado há algum tempo que você carrega sempre com você em iPod, playlist e coração, mas ninguém mais parece falar sobre ele? A equipe Monkeybuzz coleciona álbuns assim e decidiu tirar cada um deles de seu baú pessoal e trazê-los à luz do dia. Toda semana, damos uma dica de obra que pode não ser nova, mas nunca ficará velha.

Interpol – Our Love to Admire (2007)

Seja por negação, orgulho ou obsessão, alguns relacionamentos insistem em continuar para muito além do prazo de validade, se não em sua forma integral (com dois participantes), pelo menos no coração desgastado de um deles. E pra que serve um amor fracassado a não ser para figurar como peça no museu individual que cada pessoa constrói ao longo da vida?

Pra mim, Our Love to Admire sempre foi sobre isso. Tem uma sensação de último fôlego antes da queda que permeia todo o disco, é quase um momento de desistência no qual a ficha cai e a pessoa percebe que os danos são numerosos e graves demais para qualquer reparo e agora o véu e a casa (e o forninho) caem.

Como grande admirador de Interpol, sempre me incomodou o fato deste ser seu trabalho mais subestimado, desde seu lançamento, principalmente pelo uso de teclados e uma certa mudança na sonoridade (mas nunca em seu espírito). E se os argumentos muito “puristas” contra a banda parecem bobinhos, meio infantis, isso só ressalta o aspecto desta ser uma obra consideravelmente mais madura, mais adulta, que suas anteriores.

Até porque se nenhum relacionamento é igual o outro, o mesmo acontece com os discos.

Esse momento de consciência do fracasso que o álbum carrega é sempre muito interessante, já que ele vem carregado de uma emoção que Paul Banks e companhia mostram desde seu primeiro trabalho, Turn on the Bright Lights.

É um disco pesado. Alguma coisa começa a se mexer dentro de você sempre que começa Pioneer to the Falls, a introdução perfeita para a tragédia que segue a partir dali: “Your heart makes me feel, your heart makes me moan, forever and ever I’ll never let go”. São declarações apaixonadas demais, mesmo quando se sabe que o relacionamento já se foi. Tendo os cinco passos do luto em mente, Our Love to Admire parece ser o ponto de conversão entre a barganha e a depressão.

Tanto tenta recuperar o que já teve que até um relacionamento a três é proposto (No I in Threesome). Ele é provocativo, tenta demonstrar o quanto tem o controle da situação (Pace Is the Trick), mas começa a reconhecer que já é tarde demais para as intervenções (Wrecking Ball, The Scale e Rest My Chemistry).

Quando chega a última faixa, The Lighthouse, a lucidez parece já ter dado lugar ao olho do furacão. A jornada emocional que Interpol traça ao longo do disco, com vocabulário complexo em metáforas inusitadas e variações de humor (muitas), é intensa, o que confere um aspecto bem tenso ao álbum como um todo, mesmo com faixas cheias de energia com cara de hit, como The Heinrich Maneuver e Mammoth.

Talvez por isso que Our Love to Admire tenha falhado em agradar tantos, por ser bem mais difícil do que parece. Ou justamente por retratar tão fielmente algo que ninguém gosta de reviver. De qualquer forma, sete anos depois, o disco ainda merece cada lágrima que causa.

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ARTISTA: Interpol
MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.