Interpretando Laura Marling

Conversamos com a cantora britânica sobre processos de composição, autoconhecimento promovido pela arte e o ótimo disco “Song for Our Daughter”

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Fotos: Justin Tyler Close

Mais do que voz, composição e arranjo, os últimos trabalhos de Laura Marling se destacam também como obras completas em seus conceitos. São álbuns que contam histórias, ou debatem temas, criando uma experiência imersiva em seu universo lírico. Você pode ouvir as faixas individualmente, mas sente que é com o play contínuo, de uma ponta a outra, que um contato genuíno é estabelecido. Tanto com o que ela deseja comunicar, quanto com a própria artista e sua fascinante persona.

É o caso do recente Song for Our Daughter, que imagina um repertório de canções contendo o que ela diria a uma hipotética filha. Mas foi assim, também, com o anterior, Semper Femina (2017), que traz relatos e impressões sobre a feminilidade, ou mesmo em Once I Was an Eagle (2013), uma ode a um finado relacionamento, com músicas que se encaixam umas nas outras em uma grande narrativa única. Não à toa, ela brincou com o conceito em Short Movie (2015), disco que ganhou também uma versão Director’s Cut.

Acima de tudo, sua obra mostra como Laura é capaz de estabelecer um diálogo potente entre ideias complexas e questões sentimentais pertencentes a ouvintes no mundo inteiro. Foi sobre tudo isso a conversa que ela teve com o Monkeybuzz, por telefone, diretamente de sua casa em Londres. Com frases cheias de significados, a artista trouxe à entrevista uma profundidade semelhante à das músicas – revelando mais sobre uma mente criativa que temos o prazer de acompanhar.

 

É interessante como seus álbuns trazem conceitos bastante específicos, principalmente seus últimos lançamentos. Eles parecem contar histórias individuais, como um livro ou filme, todas dentro do universo Laura Marling. Como essa dinâmica se desenvolveu?

Acho que ela foi uma consequência natural. São capítulos da minha vida. Digo, as músicas não são necessariamente histórias que eu vivi, mas parece que a minha vida acontece em ciclos. Eu passo dois anos desenvolvendo um só tema, bastante ocupada em entendê-lo melhor, e um disco nasce desse processo. Eu percebo que um álbum está pronto quando meu foco naturalmente se volta para outro assunto.

Penso que o processo de escrever Song for Our Daughter tenha colocado sua criatividade em um lugar diferente dos anteriores, já que o conceito se baseia em algo que você ainda não viveu. Montar esse repertório foi uma dinâmica muito diferente dos outros?

O tema emergiu depois que tudo já estava composto. Foi meu primeiro disco que não foi escrito na estrada, porque eu não faço turnê já há três anos. Quando estou na estrada, eu dou um jeito de encontrar pequenas porções de tempo para conseguir ficar um pouco no meu próprio mundo. Já aqui em Londres, passo mais tempo olhando para fora. Observo as pessoas na rua, vejo como meus amigos estão vivendo. Dessa vez, eu tentei entender melhor a vida interior dos outros.

Outra característica que se repetiu na sua obra recentemente foi a questão de você expor seu ponto de vista e suas vivências como mulher, tanto em Semper Femina, quanto no novo disco. Penso que os trabalhos anteriores têm o mesmo teor desses últimos, mas talvez eu não consiga enxergar por todas as minhas leituras serem baseadas na minha experiência masculina. É o caso?

Com certeza, sempre cantei sobre minha experiência no mundo como mulher. O que mudou nos últimos seis anos foi que eu me tornei mais consciente do que isso significa. Processei tudo o que ingeri a vida inteira por ser mulher e tentei desconstruir tudo para que eu pudesse entender qual era a minha experiência particular dentro do que é ser mulher. Mas, me conta, que você acha de eu cantar sobre ser mulher?

Eu acho importante. Pessoalmente, me interessa entender a vivência dos outros, porque amplia a noção que eu tenho do que é a vida.

Interessante. Eu sempre acho que a música está aí para isso. Gosto de pensar que as pessoas estão aprendendo um pouco mais sobre a vida quando me ouvem cantar.

"Quero estar alinhada à interpretação que as pessoas têm das minhas músicas, não tentar definir como os outros vão entender o que eu canto."

Por falar nisso, eu mesmo tive uma experiência muito particular com Once I Was an Eagle. Essa figura de linguagem que aparece ao longo do álbum, de um casal de uma águia e uma pomba, é algo que eu ligo a uma situação que eu mesmo vivi. Conto isso porque gostaria de ouvir de você como é lidar com as interpretações que os outros fazem das suas músicas?

Essa pergunta é ótima. Sua experiência é exatamente a que eu quero que as pessoas tenham. Eu passo 85% do tempo em entrevistas lutando contra a vontade que os entrevistadores têm para que eu explique alguma das minhas músicas, e eu sempre viro o jogo e peço que eles me expliquem o que eles entendem daquela letra (risos). Porque esse é o meu trabalho como compositora e como cantora. Eu quero estar alinhada à interpretação que as pessoas têm das minhas músicas, não tentar definir como os outros vão entender o que eu canto. Mas, baseado no que você disse, desconfio que nós dois entendemos essa metáfora de formas bastante parecidas.

Tenho certeza que não fui o primeiro, nem serei o último, que vem a você com uma história de envolvimento com seu trabalho. Como é para você receber esse tipo de resposta?

Bem, nem todo mundo me fala isso como você contou. Às vezes, quando as pessoas me dizem algo assim, é porque elas passaram por uma experiência bastante crítica e encontraram conforto na minha música, e isso é algo sério demais para se ouvir. Eu tenho um certo distanciamento das pessoas, porque eu sou apenas uma voz nas músicas, e nem sempre entendem isso. É difícil lidar com o fanatismo, que é quando deixam de te enxergar como gente. Isso é complicado.

“Passo dois anos desenvolvendo um só tema, bastante ocupada em entendê-lo melhor, e um disco nasce desse processo. Eu percebo que um álbum está pronto quando meu foco naturalmente se volta para outro assunto.”

Song for Our Daughter conta sobre uma situação que você ainda não viveu, mas que pode acontecer um dia. E o disco chega em uma época em que, com suas incertezas, tem sido difícil sonhar com o futuro. Você acha que o disco pode ajudar a trazer esperança?

Com certeza. Espero que sim, não tenho controle nenhum disso, tudo está aí para ser interpretado. E está tudo muito diferente. Minhas interações com as pessoas estão incrivelmente limitadas. Percebi que meu mundo interior estava bagunçado, minha cabeça ficou obscurecida por uma cidade tão barulhenta. Vamos ver o que significa sonhar a partir de agora.

Para terminar: o que você quer que sua música cause nas pessoas?

Quero que elas se sintam reafirmadas. E que elas sejam entretidas, é claro (risos).

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ARTISTA: Laura Marling

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.