Investigando A Música Brasileira

“1973 – O Ano Que Reinventou A MPB” se mostra uma leitura extramemente válida para fãs da nossa música

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Há muito mais que 41 anos entre 1973 e os nossos dias. As noções de tempo e espaço tendem a se sobrepor e se perder nas mazelas cotidianas. Elas nos dão a impressão de que o tempo passa mais rápido até metade de nossas vidas, para se arrastar numa procissão interminável pela segunda parte. De qualquer forma, não é diferente para o próprio entendimento do que significa “tempo” numa análise como essa. Trazendo essa discussão – que tende a se perder na verborragia – para o âmbito da cultura brasileira, os eventos históricos levaram a uma série de fatores que conferiram ao início dos anos 1970 um caráter definidor/inovador para vários aspectos. Movimentos musicais/culturais já haviam perdido muito de suas características originais, seja por falta de inspiração, censura ou anacronismo instantâneo e seus nomes – Bossa Nova, Tropicália, Jovem Guarda – tão significantes há bem pouco tempo – não passavam de termos sem muito sentido quando a nova década teve início.

O lançamento de 1973 – O Ano Que Reinventou A MPB deve ser celebrado por todos os que veem a música produzida no país com um pouco mais de interesse e curiosidade. Se olharmos ao nosso redor, fazendo uso dos meios de comunicação disponíveis neste 2014, perceberemos, no mínimo, que algo mudou na produção musical. A novidade parece irremediavelmente associada à cronologia, usada em detrimento do ineditismo e é inevitável a impressão de que quase tudo foi banalizado, apropriado, reinterpretado e – em grande parte – esquecido pela maioria, cujo senso estético e noção de mundo são mais e mais moldados pela mídia. Mesmo que tenhamos certeza de que havia uma mídia bastante forte há 41 anos, sabemos que seu poder era menor e o próprio cenário mundial amenizava seu impacto em nossas vidas. Além disso, havia uma preocupação maior por parte da indústria do disco, dentro de uma lógica que estava associada à qualidade como meio de conquista do consumidor – ao contrário da quantidade, como é hoje – o que permitia a existência de mecanismos mantenedores de uma qualidade artística.

O ano de 1973, em termos mundiais, afirma o desencanto com as mudanças pedidas e gritadas ao longo dos últimos anos da década de 1960 e que nunca chegaram. Na verdade, a própria década de 1970 pode ser entendida como um momento em que o mundo precisou aceitar que muitas situações só poderiam ser descritas ou vivenciadas na teoria e que seus aspectos práticos permaneceriam por um bom tempo bem próximos do terreno da utopia. No Brasil da ditadura militar em sua faceta mais dura (o governo Médici), não havia motivo para qualquer celebração. A música assumira um papel informal de via de escoamento das insatisfações com a vida nacional, de uma forma naturalizada, sem qualquer necessidade de discurso supostamente engajado. De certa forma, gravar e compor alguma música naquela época, em meio a todo o conjunto de restrições impostas pelo governo e pela classe média que o manteve no poder por tanto tempo, era um ato de resistência e adquiria uma postura política.

A escolha dos discos (e do ano) mostra essa característica com bastante clareza. São 50 textos escritos por jornalistas, músicos e intelectuais, que olham para a produção de vários setores da música nacional, indo do Rock ao Samba, obtendo unidade em termos de forma e conteúdo, servindo como uma análise em bloco da época. Há artistas consagrados (João Gilberto, Gal Costa, Elis Regina, Milton Nascimento), populares (Antônio Marcos, Odair José), estreantes (Raul Seixas, Fagner, Luiz Melodia, João Bosco), nascentes bandas de Rock (A Bolha, O Terço), sucessos de público e crítica (Secos e Molhados) e obscuridades. Neste último terreno está o cantor e compositor carioca Guilherme Lamounier, cujo segundo disco, homônimo, ganhou texto escrito pelo jornalista Ricardo Schott, do jornal O Dia. “Eu acredito que o segundo disco do Guilherme é um dos melhores álbuns lançados na história da música Pop do Brasil – não diria que é um dos mais influentes, lógico, porque ele era bem desconhecido até ressurgir em MP3 em sites e blogs”. O fato de haver espaço nesse mapeamento do cenário musical para artistas de pouca expressão é um dos grandes trunfos do livro.

O livro traz detalhes de discos importantíssimos para a cultura nacional, atingindo extremos. Schott fala sobre o primeiro disco dos Secos e Molhados (trio formado por Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo), um dos álbuns mais bem sucedidos de todos os tempos no país: “Foi o Rock nacional que vendeu discos e deu certo naquela época, e inspirou tudo o que veio depois. Quem era adolescente, criança ou bebê naquela época, ouviu. Quem nasceu vários anos depois, também. MPB e Rock nacional vieram daí.” Do outro lado, surge uma obra cujas letras foram censuradas pela ditadura militar, Milagre dos Peixes, que Milton Nascimento lançou naquele ano, sem uma única palavra ao longo do disco, mas com a capacidade de transmitir a dor e a opressão de muitos. Como um subtexto discreto, porém importantíssimo, 1973… valoriza o disco como meio eficaz do artista comunicar valores e poder falar em “obra”. Os textos trazem aspectos importantes do contexto histórico, detalhes das fichas técnicas dos álbuns e um grande nível de detalhes sobre as carreiras dos artistas. Coisa muito fina e necessária.

O organizador do livro, Célio Albuquerque, está de parabéns. Que venham mais obras sobre anos importantes da música brasileira. Seria ótimo ler algo sobre os discos lançados em 1971, 1968, 1983…

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.