Irrefutável vermelhidão

Envolto na simbologia do vermelho, o paraense Reiner prova que os ritmos tradicionais do seu estado não resumem o seu trabalho. O que pauta sua música é a busca pela liberdade

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Fotos: Isabella Dias

Nem só de Tecnobrega vive a música do Pará. No que depender de Reiner, ela também pode ser Pop, veranil e oitentista. O jovem de 23 anos já tem em sua bagagem um EP, um LP e acaba de lançar o single “Por Acaso Sob o Sol” provando que é de vermelho que ele quer ver o seu som pintado. É a intensidade da cor e sua simbologia dentro do panorama “Brasil 2019” que, em certa medida, o inspira. Não à toa, seus lançamentos têm acontecido sempre no dia 13. Em setembro e outubro, mais duas novidades estão por vir. Tudo no sentido de reforçar a sua liberdade – o Norte absoluto de seu trabalho. É sobre o rubor de seu universo que ele conversou com o Monkeybuzz.

O que você quer dizer com esses lançamentos agendados todos para os dias 13 de cada mês?

A simbologia dessa escolha está muito ligada ao momento que o nosso país está vivendo hoje, onde o número 13 foi demonizado por uma parte da sociedade. Decidi ir atrás do que significa esse número que é até meio místico, né? Tem as coisas da sexta-feira 13, etc. Segundo a numerologia, os números 1 e 3 têm significados bem próximos, os dois números tem um “quê” de liberdade, que tem tudo a ver com as músicas que vou lançar. Elas falam sobre a liberdade do ser, sobre ser livre realmente, sem se apegar a pessoas, vícios, ideologias ou religiões. O indivíduo e o momento em que ele realmente tem noção do espaço que ocupa no mundo sem amarras, sabe? (…) A décima terceira carta do tarot é a Morte, que também pode ser vista como o começo de um novo ciclo, de novos objetivos e não necessariamente algo ruim. Então, acho que é bem por aí. 13 é liberdade e ao mesmo tempo representa o novo ciclo que quero seguir na música.

Esse novo ciclo de que você fala também marca um amadurecimento em sua carreira, o que é até curioso quando pensamos que você tem apenas 23 anos, mas já possui dois trabalhos na bagagem, o Filho da Nuvem (2016) e o In The Sun (2018). Como você tem percebido essa nova fase?

Para falar nessa nova fase, eu preciso falar da fase anterior. Nos trabalhos anteriores, eu expurguei muitas coisas ruins que estavam dentro de mim, coisas que eu não conseguia falar pras pessoas que me cercavam na época que compus as músicas, isso em 2016. Filho da Nuvem, o nome do EP, é o significado de Nelson, nome de meu avô, que faleceu há 10 anos. Já o In the Sun foi um processo doloroso porque, na época, eu passava por uma crise de depressão muito intensa e precisava fazer música, precisava estar “no sol”, foi meio que um grito de ajuda. Esse disco tem uma só música em português, as outras seis são em inglês, foi uma maneira que eu encontrei de me proteger nesse momento tão frágil. Nessa nova fase, eu me encontro muito mais leve nas minhas emoções, os temas das músicas continuam sendo sobre mim, mas sem a carga das “bads” que vivi, sabe? Acredito muito no poder das palavras, então to fazendo música para as pessoas ficarem felizes escutando tanto com a letra como com o arranjo. Outra coisa que tem me influenciado bastante também é que eu conheci a música 80’s brasileira que é super Pop e não é bizarra como muita coisa dessa década (risos). Os sons da Marina Lima e do Lulu Santos me colocaram em um lugar em que eu entendi que música pode falar de sentimentos, mas também pode ser leve, dançante e interessante, sem ser cafona.

Como você chegou nessa música Pop brasileira dos anos 1980? E o que você tem escutado dessa época?

Essa onda 80’s veio até mim por causa do Arthur Nogueira, que foi meu parceiro em “Por Acaso Sob o Sol”. Ele trabalha em parceria com o Antonio Cícero, que é um poeta sem igual e tem músicas de sucesso nas vozes de Lulu, Marina Lima, Adriana Calcanhotto… Enfim, o currículo dele é extenso e permeado de hits. Acho que o que tenho mais escutado é o Fullgás, da Marina, e o Tudo Azul, do Lulu Santos, que, na minha opinião, são álbuns que conseguiram fazer uma música Pop genuinamente brasileira.

A liberdade sempre esteve presente no meu trabalho porque sempre fiz o que quis e sempre trabalhei com quem quis. O que mudou é que, agora, essa liberdade é a temática central da minha vida e da minha música, ainda mais pelas questões políticas aqui do Brasil que têm me afligido de forma devastadora – Reiner

Você e Arthur Nogueira são artistas que, apesar de serem do Pará, não seguem a linha dos ritmos locais. Como se deu essa sua parceria com ele?

Conheci o Arthur por causa de um amigo em comum, daí começamos a conversar. A partir daí compartilhamos influências, eu disse que amava Rap e usava muito isso em minhas músicas, como batidas de Rap desaceleradas, etc. Daí, acho que ele gostou disso e veio falar comigo para fazermos uma música agressiva, com beats de Rap e tudo mais. Mas felizmente, ou infelizmente (risos), fizemos “Por Acaso Sob o Sol”, que é uma faixa até delicada perto do que, inicialmente, eu e Arthur tínhamos pensado. Então, acabei criando uma melodia na música e o Arthur apareceu com a letra que me emocionou bastante e acabou norteando por onde queria ir no meus próximos lançamentos; a influência dele foi e está sendo muito grande no caminho que quero traçar com a minha música e onde quero chegar. Como você disse, não temos nada “regional” em nossas músicas, mas ter uma força artística como o Arthur por perto me fez ver que ser paraense vai muito além dessas referências da nossa região, que eu amo de paixão, mas isso não é impresso de forma óbvia no meu trabalho.

“Vício”, o terceiro dos singles que você lançará, foi feito em parceria com a Sammliz, que também é outra artista paraense que foge do óbvio. Como foi trabalhar com ela?

Foi bem fluido! Sempre admirei a Sammliz, por causa do trabalho dela solo e com as coisas que ela fez com o Madame Saatan. Eu tinha escrito essa música e queria alguém pra cantar, mas alguém que tivesse alguma verdade, que falasse sobre o assunto sendo sincero. Pensei nela e, logo depois, entrei em contato. E a gente nunca nem tinha se falado (risos)! Ela foi super receptiva e topou na hora. Disse que pirou muito no som e que era parecido com as coisas da Marina Lima, fiquei muito feliz que ela captou a vibe quase que instantaneamente.

Quais os seus planos a partir desses lançamentos: um novo disco está em processo de construção?

O disco está em processo de construção, sim, mas, provavelmente, deve sair lá pelo segundo semestre do ano que vem. O que eu quero com esses singles é traçar uma narrativa sobre a liberdade do indivíduo, como eu já disse. A primeira música apresenta o tema para o ouvinte, a segunda – que vou lançar em setembro – fala sobre relacionamentos em si e o quanto devemos estar atentos para não perdermos a nossa liberdade – essa se chama “Fica Mais um Pouquinho”. A terceira vai ser a parceria com Sammliz. Essas outras duas músicas são mais alertas para questões das nossas vidas, o quanto podemos confundir a liberdade que nos é dada colocando essa coisa tão bonita nas mãos de pessoas ou até mesmo de substâncias e outras circunstâncias que nos fazem bem, à princípio, mas que podem ser destrutivas se não tomarmos certo cuidado.

Como essa perspectiva de liberdade se aplica ao seu fazer enquanto artista?

Acho que o meu processo sempre foi bem livre e louco. Eu piro muito em tentar misturar Rap e música negra brasileira com Psicodelia e essa proposição meio que abre uns caminhos na minha cabeça para explorar possibilidades que sempre surgem. Além disso, sempre prezei pela minha liberdade enquanto artista, explorar os caminhos que eu quisesse – coisa que não aconteceu enquanto tive banda. Composição em grupo com mais de cinco pessoas… Sei lá, esse processo foi bem desgastante para mim. Acho que me traumatizou e preferi fazer “tudo sozinho”. Óbvio que, no decorrer do meu caminho, construí parcerias das quais me orgulho muito – como essas com a Sammliz e com o Arthur –, mas existem também as pessoas que escolho a dedo para trabalhar comigo. Tenho priorizado pessoas negras e LGBT. Ao lado desses artistas, surgiram minhas capas e fotos, por exemplo. É o caso do PV Dias, responsável pela capa do single, que é um pintor/ilustrador incrível – tanto que a arte dele é capa da revista CULT de agosto. E tem também a Isabella Dias, que é uma fotógrafa genial – já teve o trabalho dela exposto em Nova York e na Inglaterra e ela só tem 19 anos! Acho muito importante esse tipo de apoio no momento que estamos vivendo, em que a arte em si está sendo colocada na fogueira e as minorias estão com seus direitos em risco. Acho que, parando pra pensar, a liberdade sempre esteve presente no meu trabalho porque sempre fiz o que quis e sempre trabalhei com quem quis. O que mudou é que, agora, essa liberdade é a temática central da minha vida e da minha música, ainda mais pelas questões políticas aqui do Brasil que têm me afligido de forma devastadora.

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ARTISTA: Reiner

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