J Dilla feat. Einstein

“Dilla Time”, recém-lançada biografia escrita por Dan Charmas, leva o leitor a uma viagem cósmica rumo ao planeta do beatmaker que revolucionou o rap e a forma como a música pop contemporânea entende o tempo

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Fotos: Brian Cross

Albert Einstein amaria ter conhecido J Dilla. A teoria da relatividade – conceito proposto pelo cientista alemão em 1905 – nos indica, de maneira resumida, que o tempo e o espaço são relativos e estão profundamente entrelaçados. Na prática, isso quer dizer que o tempo passa como um trem que vai para o futuro em ritmo incessável, por um caminho no qual somos obrigados a trilhar. Até aí, tudo bem. O que Einstein constatou de diferente foi que esse trem pode ser acelerado ou desacelerado — passar mais rápido para uns e mais lento para outros. Para desacelerar, basta se movimentar no espaço. Nas velocidades ínfimas do nosso dia a dia os efeitos são imperceptíveis, e o fenômeno é melhor constatado nos extremos da velocidade da luz.

Metódico como um cientista, J Dilla teve uma passagem cósmica pela Terra. Do início da carreira em 1996, com os amigos da escola que compunham o Slum Village, até sua morte em 2006 aos 32 anos (devido a uma rara doença sanguínea), Jay Dee produziu, em apenas uma década =, uma extensa e hiper-influente discografia que outros levariam uma vida para criar — apesar da personalidade “laid-back” como seus beats, o trem de Dilla correu rápido. Tal qual o cientista alemão, o produtor de Detroit mudaria para sempre a forma como percebemos o tempo, mas dessa vez, o musical. Albert Einstein amaria ter conhecido J Dilla.

Fãs do produtor ao redor do mundo todo o tratam como uma divindade, mas James D. Yancey sempre foi muito mais um alien do que um Deus. Sua história é a história do domínio máximo de uma ferramenta a ponto de ela se tornar uma extensão de si mesmo, como um ciborgue vindo de outro planeta em que o tempo corre diferente. Escrito por Dan Charmas (autor de The Big Payback e um dos primeiros jornalistas de hip hop), Dilla Time: The Life and Afterlife of J Dilla, the Hip-Hop Producer Who Reinvented Rhythm conta essa história com todos os preciosos detalhes que ela merece.

Charmas abre o livro com um capítulo intitulado Wrong, em que conta a história de quando Questlove, baterista do The Roots, ouviu a programação de bateria peculiar de J Dilla pela primeira vez, em 1994. A música era “Bullshit”, primeira faixa do clássico Labincalifornia, do The Pharcyde. O que chamou a atenção do baterista foi justamente que bateria não estava onde era para estar. Para produzir, J Dilla usava sua bateria eletrônica Akai MPC-3000 (hoje imortalizada no Museu da História Afro-americana em Washington). Quase como um personagem de Ghost in The Shell, ele descobre um jeito de humanizar a máquina ao não utilizar a “quantização” (ou um metrônomo), recurso que coloca os sons tocados na MPC no tempo “correto”.

Desativando a função, Dilla deu um jeito de sobrepor tempos rítmicos na máquina, criando um conflito que ficou conhecido como o “Dilla Time”. A bateria programada por Dilla soava “escorregadia”, “desleixada”, “relapsa”, “negligente”. Assim como um alien, o som de James, a princípio, foi recebido com estranhamento. No entanto, ouvidos atentos como de Q-Tip (a quem Dilla olhava como uma “estrela-norte”) sabiam da genialidade do garoto de Detroit com a qual outros vieram a se habituar depois. A admiração mútua entre Jay Dee e Q-Tip foi tamanha que ambos se juntaram a Ali Shaheed Muhammad, também membro do A Tribe Called Quest, para formar o The Ummah, um coletivo de produção musical. Sob a alcunha, o trio produziu músicas para nomes como Busta Rhymes, Whitney Houston, Keith Murray, Michael Jackson, Janet Jackson, além de praticamente todos os instrumentais de Beats, Rhymes and Life e The Love Movement, quarto e quinto álbuns do A Tribe Called Quest, respectivamente.

Os hábitos e a metodologia de Jay Dee na organização de seus discos, de sua rotina implacável e até mesmo de sua geladeira comprovaram que o que ele fazia era, na realidade, o oposto de desorganizado. Tudo estava exatamente onde deveria estar, principalmente, suas baterias: os ritmos de Dilla não eram acidentes, eram intenções. A descoberta (e decisão artística) que o produtor fez poderia ter morrido em Detroit. A diferença é que outros músicos eletrônicos começaram a usar esse feeling e então músicos tradicionais passaram a tentar emular esse conflito de tempos da MPC-3000 de Dilla. Foi o que Questlove fez com D’Angelo (e a pedido do próprio) na produção de Voodoo (2000), colocando-se em micro conflitos rítmicos como não havia sido feito antes. Esse álbum ganha atenção do mundo do jazz e de repente nomes do gênero começam a se inspirar em Dilla e o legitimam ainda mais, como é o caso de Robert Glasper.

Os ritmos de Dilla não eram acidentes, eram intenções.

Um masterclass de jornalismo, o livro lançado em fevereiro deste ano contou com cerca de 190 entrevistas — entre família, amigos próximos e colegas de trabalho de Jay Dee — para prover um contexto amplo e aprofundado dos elementos que fizeram da obra dele tão inovadora e influente. Dilla Time, além da biografia de um artista cujo impacto no rap é algo como o de Miles Davis no jazz, é um resgate de Detroit e do contexto que moldou Dilla. O livro aborda até mesmo desapropriação da Paradise Valley, uma vizinhança predominantemente negra de Detroit e sede da Motown Records, para a construção de uma supervia durante os anos 1960. O movimento afetou diretamente a família de Dilla, que vivia no bairro, epicentro do negócio e entretenimento negro de Detroit. Não à toa, o produtor aparece como um surpreendente MC em sua mixtape Welcome 2 Detroit (2000), essencial para qualquer um que busca compreender sua obra.

A doença de J Dilla o levou muito precocemente (pelo menos, no tempo terráqueo), mas seus frutos são inúmeros. Dois anos após a morte do artista, seu irmão Illa J lançou o excelente Yancey Boys, todo produzido pelo filho mais velho de Maureen Yancey. Seus beats continuam a se espalhar e viver através da voz de antigos colaboradores, como Q-Tip, MF DOOM, Erykah Badu, e novos admiradores, como Joey Badass (que o tem como beatmaker favorito), e Knxwledge, por exemplo. Antes de morrer, J Dilla também deixou organizado o disco The Diary, com suas rimas e produções junto a beatmakers parceiros, lançado em 2016.

Em doses equilibradas de biografia, musicologia e história da cultura, Dilla Time trata de J Dilla com o mesmo compromisso e seriedade com que o beatmaker encarava sua obra. O livro ainda humaniza seu personagem ao abordar tanto suas glórias como produtor quanto equívocos como ser humano. É um espirituoso e magnífico portal para o planeta desse artista que revolucionou o rap e, sobretudo, a forma como a música entende o tempo.

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ARTISTA: J Dilla