Jair Naves: quarto álbum em primeira pessoa

“Enquanto fazia esse disco, o pensamento era de não saber se teria show de novo. Ele poderia ser meu canto de cisne, meu último suspiro”; Em “Ofuscante a Beleza que Eu Vejo”, disco lançado hoje (20/05) e produzido durante o período de isolamento, o músico confronta o desconforto da realidade e encontra a beleza pelo caminho

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Ofuscante a Beleza que Eu Vejo – como é interessante ler o título do álbum e poder notar tanto Jair Naves dentro dele. Na escolha de palavras, na construção da frase ou na magnitude de seu significado, é um nome que cabe perfeitamente em nosso imaginário de sua obra. Ao escutarmos o disco, o grave de sua voz e a dimensão de sua poesia são igualmente familiares, mas há uma sensação de novidade, uma qualidade sonora que separa a obra de suas anteriores por um número reduzido de instrumentos em cada faixa. Com isso, o produto final revela algumas novas camadas emocionais em seu trabalho – no qual, é preciso ser dito, nunca faltou emoção – que registram muito bem o tempo de sua feitura e lançamento.

Produzido principalmente durante o período de isolamento da pandemia, Ofuscante a Beleza que Eu Vejo tem produção do próprio Jair ao lado de Zeca Leme, tendo sido feito principalmente pelos dois no estúdio “em uma época em que a convivência com pessoas era perigosa”, como ele disse ao Monkeybuzz. “Tivemos que pensar como suprir a ausência de outros músicos nesses arranjos”, explica o músico, que revela perceber em si “um crescimento musical muito grande. Eu comecei a estudar instrumentos que não estudava antes, sonoridades que eu não dominava antes. O fato de ser o quarto disco trouxe uma certa insegurança, ou até uma inconsequência mesmo”.

Tempos

Ao relembrar sua discografia, Jair Naves começa os comentários por Araguari II: Meus Dias de Vândalo, EP lançado em 2010 que inaugurou sua carreira solo, após fazer história à frente da banda Ludovic. “Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida”, conta ele, “as pessoas tinham uma ideia muito pré-concebida de mim – nem era culpa delas, era como eu me apresentava até então. Gosto de pensar no Araguari como uma redescoberta, [porque] muita coisa ficou clara para mim ali, falando de minha família e do lugar de onde eu vim”.

Jair conta que seu primeiro álbum de longa duração, E Você se Sente numa Cela Escura, Planejando a sua Fuga, Cavando o Chão com as Próprias Unhas pode ser resumido na palavra “consolidação”: “Foi o momento da minha carreira que eu finquei o pé. Acho que 2012 foi nosso último contexto de paz, porque ainda não tinha as ameaças de 2014. É um disco que deixou boas memórias, eu sinto um acolhimento naquele disco”. O seguinte, Trovões a Me Atingir (2015) é definido por “coletividade, porque é o disco com mais convidados – acho que 10 ou 11 pessoas gravaram comigo, e também por ter sido feito por financiamento coletivo”, conta o músico. ”Eu não gosto de ouvir nada que eu fiz depois de pronto, mas, quando ouço algo desse disco, vejo que ele não é tão doloroso quanto me lembro. Acho que a campanha de crowdfunding me deixou desconfortável, era muita gente envolvida”, explica.

Entre Trovões e seu terceiro álbum, Rente (2019), Jair lançou dois trabalhos com o projeto NavesHarris, feito em parceria com sua esposa Brittany Harris. A mudança para Los Angeles que veio com o casamento impactaria sua obra, mas em menor grau do que o momento político do Brasil. Em suas palavras, “Rente é um disco de choque, porque estava acontecendo uma coisa que eu não acreditava que poderia acontecer, eu não acreditava que aquele cidadão tinha recebido o poder que recebeu das pessoas por livre e espontânea vontade. Em termos pessoais, é um disco de choque mesmo”. As reflexões ali iniciadas são novamente revisitadas pelo artista em Ofuscante a Beleza.

“Acho que esse disco é de confronto com muitos sentimentos e dados de realidade que são desconfortáveis, mas gosto também de pensar o álbum como o exercício de colocar as coisas em seus devidos lugares e reconhecer que tudo é cíclico. Penso em quem sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, por exemplo, e sentia que o mundo parecia que seria daquele jeito para sempre. Valia a pena viver? As pessoas são assim mesmo? Mas eventualmente acabou. Esse disco passa isso, de que a natureza humana é assim, mas vai passar. E tem bondade, e tem beleza”.

“O fato desse ser meu quarto álbum me dá uma certa tranquilidade, por um lado, porque eu já meio que sei o meu lugar enquanto compositor, enquanto alguém que tenta se expressar artisticamente, com quem eu falo e o que eu posso esperar dessa recepção, e também um pouco mais confiante para fazer coisas que antes acho que eu não teria confiança”, diz ele, “no processo de produção do disco, a gente tomou certas liberdades e cometeu certas ousadias que eu não estaria seguro para cometer antes, quando me sentia na obrigação de fazer alguma coisa que fosse facilmente reproduzível ao vivo. Falava ‘não vamos fazer isso porque no show a gente não vai conseguir tocar, ou vai ter que colocar um músico extra’. Enquanto fazia esse disco, o pensamento era de não saber se teria show de novo. Ele poderia ser meu canto de cisne, meu último suspiro”.

“Acho que esse disco é de confronto com muitos sentimentos e dados de realidade que são desconfortáveis, mas gosto também de pensar o álbum como o exercício de colocar as coisas em seus devidos lugares e reconhecer que tudo é cíclico”

Isolamentos

“Estar distante” é uma das sensações mais compartilhadas nesses últimos dois anos ao redor do mundo, e é também uma realidade para Jair Naves desde antes da pandemia, quando transferiu sua residência para os EUA. “É um tema muito presente do qual não consigo escapar na minha realidade”, conta ele, “até mesmo quando estou aí [no Brasil], porque então estou longe da minha parceira [que está em Los Angeles]”.

“E aqui estou um pouco distante de mim mesmo também, porque toda a minha trajetória musical está ligada ao Brasil. Estou onde, em tese, é um dos melhores lugares do mundo para se tentar alguma coisa, mas a realidade é que há uma competitividade que eu nem imaginava que poderia existir. O pensamento que temos [no Brasil] de cena tem um certo romantismo que não existe por aqui. E me deparei com essa necessidade só de sobreviver, porque minha moeda não vale nada [e tive que trabalhar em outras atividades]. Então, estou um pouco distante do que amo também”.

Jair explica que o significado da distância em Rente era outro, porque “agora a distância é ainda maior – de quem eu sou, da minha identidade, é a distância do mundo e do que eu achava que era definitivo, porque vivemos uma época de prosperidade econômica e até um certo otimismo. Então, estou distante de uma realidade ideal, ou mesmo possível”. Outro fenômeno impactou fortemente as composições de Ofuscante a Beleza: “A distinção entre ‘nós’ e ‘eles’ foi algo que se acentuou muito para mim desde o início desse momento de extrema polarização política – e, ao mesmo tempo, se tornou uma linha mais nebulosa, difícil de definir”, comenta ele, “até que ponto conseguimos nos separar totalmente da oposição, quando muitas vezes temos familiares e amigos próximos que optam por uma visão de mundo totalmente distinta da nossa? E o que você faz? Desiste deles? É muito confuso, porque muitas vezes são pessoas que você sabe que são boas, que não têm uma natureza ruim, mas que optam por uma coisa que é medonha, diabólica”.

“É difícil de explicar, mas sinto que é por aí, que a ideia de individualidade, de pensar apenas nos meus e não no resto, pode ser algo extremamente perigoso para a convivência em sociedade”, diz o músico.

 

“A distinção entre ‘nós’ e ‘eles’ se acentuou muito para mim desde o início desse momento de extrema polarização política – e, ao mesmo tempo, se tornou uma linha mais nebulosa. Até que ponto conseguimos nos separar totalmente da oposição, quando muitas vezes temos familiares e amigos próximos que optam por uma visão de mundo totalmente distinta da nossa? E o que você faz? Desiste deles? É muito confuso, porque muitas vezes são pessoas que você sabe que são boas, que não têm uma natureza ruim, mas que optam por uma coisa que é medonha, diabólica”

Sensibilidades

“É difícil falar sobre outra coisa, né?”, conta Jair ao ser perguntado sobre como percebe Ofuscante a Beleza tocando em assuntos muito próprios dessa época que vivemos. “A composição sempre foi uma forma de extravasar [minhas] impressões do mundo, aquilo que eu me sentia desconfortável falando para as pessoas, coisas que estavam muito presentes no meu consciente e no meu inconsciente”, diz ele, “agora, mais do que nunca. Quando você coloca algo assim no mundo, nunca sabe como as pessoas vão reagir, as leituras ou projeções que elas vão fazer de coisas em si mesmas que não estão muito bem resolvidas, ou das quais elas não gostam”.

“O exercício de escrever é tão revelador da psique e de um monte de coisas que não sabemos sobre nós mesmos, e eu aprendo muito sobre quem eu sou e quem eu fui com as músicas. Às vezes, vamos fazer show e eu ensaio faixas dos primeiros discos, e isso aconteceu muito em shows de reunião do Ludovic também – coisas que escrevi quando tinha 18, 19 ou 20 anos –, e pensava ‘ah isso então que eu queria dizer, agora eu entendo’”.

As músicas deste seu quarto álbum, ainda que possam revelar novos significados com o passar do tempo, são facilmente decodificadas por quem atravessou esses últimos anos com a sensibilidade ao alcance das mãos, seja para observar a si mesmo ou o mundo ao redor (ou ambas as coisas) entre as tantas dificuldades de uma pandemia e, como Jair comenta, “no contexto de estar no Brasil, ou de ser brasileiro, lidar com como tudo foi conduzido é mais difícil ainda”.

“Em alguns momentos desse disco, eu estava falando de uma coisa tão específica e sobre pessoas e questões específicas que eu quase caí na armadilha de citar o nome. Mas sabe como tem pessoas que não merecem nem que você gaste um pingo de energia pronunciando o nome? E eu não queria que elas fossem eternizadas dentro da minha obra, ou da minha vida”.

Vale destacar que a maneira com que Jair comenta o mundo que estamos vivendo é sempre na primeira pessoa, de um lugar pessoal e íntimo, ao invés de apenas apontar o que acontece do lado de lá da porta de casa. “Mesmo falando dessas coisas que são muito presentes, nocivas e destrutivas no mundo e na gente, acho que era importante me incluir e também dar certa dimensão disso em um contexto geral”, explica ele, “muitas vezes, quando falo de outras pessoas nessas músicas, seja com raiva, indignação, esperança ou o que quer que seja, não consigo me distanciar totalmente. Estou fora daquilo que estou descrevendo, mas também sou diretamente atingido. Falando do todo, é impossível não falar de mim e de como eu me sinto com relação aos outros”.

Esse lugar de expressão própria dos sentimentos esbarra muitas vezes em questões culturais de como se espera que um homem – e o que essa classificação carrega em nosso imaginário – se comunique. “A sensibilidade masculina foi meio condenada, o ‘você não pode reagir assim”, comenta ele, “na sociedade norte-americana, os homens são muito reprimidos, com um grande medo de expor fragilidades emocionais, é mais visível que no Brasil. Essa era ‘pós-Tropa de Elite’, que culminou em onde estamos hoje, também não ajuda muito, não proporciona um ambiente muito acolhedor para homens que querem refletir como se portar no mundo”.

Ofuscante a Beleza que Eu Vejo nasceu em meio a ousadias e inconsequências, nas palavras de Jair Naves, que, em seu status de veterano da música independente e autoral, trabalha o lançamento com a mesma integridade – musical e emocional – que são marcas registradas de seu trabalho. “A motivação principal é paixão, é amor, não tem outra explicação que justifique”, conta ele, “se fosse por projeção de carreira ou qualquer coisa, estaríamos perdendo um tempo enorme”.

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ARTISTA: Jair Naves

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.