Jamie xx – Cadê o disco?

Inúmeros projetos do produtor, além de sua vida de turnês, fazem com que o seu aguardado trabalho solo demore para sair

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Ter uma banda que logo no primeiro trabalho, consegue arrebatar multidões, ganhar disco de platina em seu país natal e ao mesmo tempo ser considerada moderna e distinta da maioria da música atual poderia ser o sonho de qualquer um. Poder trabalhar com o que se ama é um privilégio para poucos, e, quando acontece, ganha ares de realização pessoal. Como continuar motivado e tentar amplificar ainda mais os seus sonhos, abrindo-se para novas possibilidades? Esta é uma resposta díficil de ser respondida, mas a resposta veio naturalmente para Jamie XX.

Membro do amado e cultado The xx, o músico acabou ganhando projeção solo como produtor musical ao inicialmente realizar os remixes de algumas músicas do disco de estreia de sua banda, fenônemo que ganhou repercussão ainda maior quando uma série de outros artistas começaram a realizar mashups e releituras de um trabalho que tinha espaços básicos para reimaginações. No nosso país, uma série de mashups com Funk, como os feitos por João Brasil, cairam no gosto popular, mas, em relação a Jamie, era a porta de entrada para um novo rumo musical que aos poucos vai ocupando cada vez mais a sua vida.

Saindo de um escopo musical que ele dominava – sua banda – o músico começou a realizar remixes de outros grupos e artistas como um bom produtor musical. Surgiram trabalhos – remixes, reworks, edits – com Florence and the Machine na ótima versão para You Got The Love, Adele no seu hit Rolling in the Deep e Four Tet, em uma leitura melhor que a original, com Lion. Só para citar alguns nomes que tiveram as mãos e a cabeça de Jamie tentando trabalhar para pensar em algo novo. No entanto, foi quando ele realizou um remix para a última obra de um dos maiores nomes do R&B e Soul, Gil-Scott Heron, que as coisas começaram a ganhar maiores projeções.

Evidentemente, além das turnês feitas em conjunto com o XX, Jamie realizava DJ sets por onde passava, mas com NY is Killing Me, versão Dubstep de um dos singles do disco de Heron, I’m New Here, foi que os holofotes começaram a brilhar. Logo em seguida, veio I’ll Take Care of You, outro remix para o álbum, que, ao mesmo tempo que sinalizava um talento incomum, mostrava também uma linha musical que permaneçeria até hoje em todos seus singles lançados. Toda a repercussão por estes remixes na mídia especializada o levaram a fazer o trabalho We’re New Here, mashup/releitura do disco de Gil Scott com elementos eletrônicos e autorais de Jamie.

Além de termos a usual voz poética de Gil, um estilo característico deste artista que consiste em realizar uma poesia livre enquanto recebe o apoio de ritmos tribais, percussivos e com forte raiz negra, ela é acompanhada neste álbum de batidas, baixos gravíssimos e samples, além de diversos “shots de voz” – como um sample de vocal colocado constantemente na música, mas que pode ser acionado uma vez ou tocado através de um loop -. Este elemento recebe também diversas alterações de timbre realizados pelo músico. Isso acabou se tornando um elemento não tão original, mas característico do produtor. As batidas minimalistas e trabalhadas na transição entre texturas sonoras (elementos, instrumentos são acrescentados e retirados da faixa para criar uma sensação de progressão e narrativas) podem ser consideradas as duas marcas registradas dele.

Vimos isso no seu primeiro EP, Far Nearer Beat For, um pequeno exemplo de seu trabalho autoral que nos deixou aguçados por novos projetos. Feito no já longinquo 2011, só recebeu um sucessor propriamente dito em 2013, com a prévia para o seu primeiro disco apenas sob o nome de Jamie xx, que ainda não sabemos quando será lançado. Girl e Sleep Sound são só paliativos de um talento que está demorando para colocar seu House Music diferente para dominar o mundo. Dificilmente você não gostará de uma das faixas produzidas por ele, o que nos leva a perguntar: Por que tanta enrolação?

Os anúncios de um terceiro disco de The xx sendo trabalhado, as exigências que as turnês trazem aos seus músicos e o escapismo às vezes necessário de quem só trabalha com música – o silêncio nunca é tão aproveitado quando se trabalha com os ouvidos – são algumas possíveis respostas para a demora de seu esperado disco solo. Mas a verdade é que Jamie xx não para, e uma série de shows anunciados em grandes festivais, como Primavera Sound, figurando entre os personagens que ganham festas à parte no evento ou que estão a frente das pickups em palcos comerciais, o músico pode estar simplesmente trabalhando neste projeto sem sabermos. A verdade é que ele gosta de nos surpreender com faixas sendo jogadas em programas de rádio, sem o menor alarde, como feito no lançamento de Girl em um DJ Set feito para BBC. Logo, não se surpreenda se quando você menos esperar, receber este álbum solo no seu colo em um streaming da Internet. Enquanto isso não ocorre, vamos continuar no repeat de seus remixes e singles.

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ARTISTA: Jamie xx, The xx
MARCADORES: Conheça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.