Me diga com quem você joga conversa fora e eu vou saber quem você é. Mesmo o ditado não sendo exatamente assim, sabemos que os amigos influenciam diretamente como pensamos e, portanto, como vivemos. Isso serve para o cidadão comum e ainda mais para artistas, que são influenciados – ou mesmo formados – por aquilo que trocam com os outros. Não à toa, Varanda dos Palpites tem os amigos de Joaquim já a partir do título, que homenageia o espaço no apartamento onde eles se reúnem para divagar sobre todos os assuntos que ali surgirem. Não teria como essas conversas, portanto, ficarem de fora do primeiro trabalho do músico.
“O maior orgulho da minha vida são as pessoas das quais eu me cerquei”, contou ele ao Monkeybuzz. “De longe, muito mais do que qualquer coisa que eu fiz ou possa fazer”. Por isso, falar de amizade foi uma decisão “orgânica” na hora de produzir o álbum, ainda que este não seja o tema central da obra. Inevitavelmente, os amigos estão ali com ele. “Sou muito feliz com as escolhas de amigos que eu fiz. Os acasos foram muito felizes comigo também”.
O processo de feitura de Varanda dos Palpites rendeu novos amigos para o músico, como Marcus Preto, que assina a direção artística do disco e a coprodução ao lado de Joaquim, Tó Brandileone (mixagem) e Felipe Tichauer (masterização). Todos eles foram “palpiteiros” na obra, ao lado também de Leo Quintella, uma amizade anterior ao disco. “Todo mundo teve uma participação ativa. Não acredito que eu seja o mais competente [entre as pessoas] que estavam fazendo o álbum”. Dono da última palavra nas decisões de produção, seu processo foi o de “analisar as opiniões das outras pessoas” e perceber como elas somaram ao trabalho. “Talvez o maior prazer do álbum seja o de lançá-lo com tanta gente feliz por ter participado”, comenta.
“Emboscada” apresentou ao mundo a sonoridade de Varanda dos Palpites, e a faixa faz também as vezes de abertura do disco. De dramaticidade intensa, ela apresenta o piano e, principalmente, o vocal grave e intenso de Joaquim. Seu timbre é carismático, forte e agradável, seguindo a linhagem de cantores brasileiros que compartilham das mesmas características, como Frejat, Cássia Eller, Cazuza e Angela Ro Ro – principalmente esses dois últimos.
Joaquim conta que, mesmo sendo comparado a ambos com alguma frequência, eles “não fazem parte do seu repertório de base”, e a imersão nas obras dos dois aconteceu recentemente. “Cazuza é uma influência para mim da mesma forma que é para qualquer pessoa”, ele explica. “Já Angela virou um objeto de pesquisa até para depois do álbum”. Inclusive, um dos destaques do disco é sua versão de “Fogueira”, que ela gravou no álbum A Vida é Mesmo Assim (1984). “Quando vejo que as comparações que fazem são com coisas que eu não tenho o costume de ouvir, fico tranquilo”, revela o músico. “Porque aí acredito que estou fazendo algo original, não copiando quem ouvi por anos”.
“O maior orgulho da minha vida são as pessoas das quais eu me cerquei. De longe, muito mais do que qualquer coisa que eu fiz ou possa fazer”
Ele conta também de seu apreço pela bossa nova, surgido durante a pandemia. “Mais Vinicius mesmo, João Gilberto veio pouco depois, daí também Toquinho e Edu Lobo – os classicão”. Todos vão reconhecer também a citação direta que ele faz a “Wave”, clássico de Tom Jobim já regravado por meio mundo. Aparece logo na segunda faixa, homônima ao disco, com o clássico verso “É impossível ser feliz sozinho”. “Esse verso já é quase um bordão, todo mundo já ouviu, e ele está na que provavelmente é a música mais contemporânea do álbum – na sonoridade, harmonia e construção do arranjo –, o que brinca com a atemporalidade da música”.
“Minha pesquisa toda sempre foi na composição. E sempre compus no sistema tonal também, que é bastante limitado no que se refere a harmonia e melodia. Acho que as grandes variações a cada década são no timbre, produção, equalização das coisas, na mixagem e masterização. O disco também tem referências de muitos tempos diferentes. Mas também eu gosto muito de música, de todas as décadas. Sempre gostei muito de artista grande, de música que mobiliza”.
Joaquim explica que encontrar a sonoridade do disco foi uma de suas maiores angústias, junto a encontrar o seu público. “Isso eu ainda estou entendendo”. Para esse processo, ele conta com as trocas sinceras com os amigos. “Acho bom ter crítica de quem está próximo, que é quem tem algo a dizer”, diz ele. “E eu gosto de crítica, de feedback, não tenho muito problema com isso – ainda, pelo menos. E apesar de que a maioria, de modo geral, eu sei que gosta e que está comigo nessa, às vezes uma pontuação um pouco mais incômoda, mas que agrega pra caramba. Os amigos próximos falam se eles não gostam. Eu acho isso legal”.
As amizades do meio musical são relativamente recentes na vida de Joaquim – ele brinca que, dentre o pessoal da Varanda dos Palpites, “tem só um músico e meio”. Ainda assim, gostam do disco e seguem por perto apoiando sua carreira. “São amigos super engajados e as pessoas próximas a eles acabam me conhecendo”, conta. “O boca a boca funciona”.
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