“Na encruzilhada, Ele chega / Aqui agora Ele está / Quem é que abre os caminhos?” são os primeiros versos ouvidos em “EXUBERÂNCIA”, faixa de abertura de CORTAVENTO, segundo álbum de estúdio do rapper Joca. A pergunta logo é respondida: “Exú Elegbára”. Elegbára, do iorubá, “aquele que possui o poder”. Exu, o orixá mensageiro, entidade que abre e fecha caminhos, que traz a ordem através do caos. E sua presença aqui não é citada por acaso.
Não poderia ser diferente. Após seis anos fora dos holofotes, o retorno de Joca exigia caminhos abertos. Afinal, seis anos não são seis dias, nem seis horas – mesmo que a noção temporal confusa do período pandêmico insista em nos fazer crer que 2019 foi ontem, ou no máximo, semana passada. O tempo sem grandes movimentações desde sua estreia em A Salvação é Pelo Risco: O Show do Joca, no entanto, não significou que Joca se afastou da música, muito pelo contrário. Foi um período de intensa produção, ainda que nos bastidores das fichas técnicas.
De lá para cá, seu nome circulou por projetos, singles e colaborações em diferentes campos da arte. Seja pelo talento como letrista, seja por sua habilidade de produzir instrumentais potentes o suficiente para atravessar o Atlântico e ecoar em obras como as da estilista cabo-verdiana Ângela Brito, que o procurou para compor a trilha sonora de seu desfile na São Paulo Fashion Week. Ou ainda por sua presença em discos como os de Ana Frango Elétrico e Vitor Milagres.

“Me sinto mais maduro, mais calejado, mais objetivo, mais responsável”
“O álbum acaba sendo um registro das minhas pesquisas ao longo desses seis anos. Um registro dos músicos, produtores, cantores e compositores que pude conhecer nesse tempo. Tudo o que aprendi ali fui trazendo para o CORTAVENTO”, comenta ele, em entrevista. Um trabalho verdadeiramente colaborativo, no sentido mais puro da palavra. Ao todo, 29 artistas foram creditados na construção das 15 faixas do álbum, divididos entre compositores, produtores, intérpretes e instrumentistas, o que ajuda a explicar o amplo leque de timbres, texturas e sonoridades. “Me sinto mais maduro, mais calejado, mais objetivo, mais responsável”.
O amadurecimento citado pelo rapper, no entanto, não se limita só ao campo musical. Durante os anos de hiato, ele iniciou e fortaleceu seu vínculo com o culto aos orixás, processo que se manifesta de forma clara nas canções do novo trabalho: na introdução, uma saudação a Exu; em “AFEFÉ”, penúltima faixa, uma ode explícita a Iansã, deusa dos ventos e das tempestades, a quem Joca dedica seu novo álbum. “É um disco que eu fiz homenageando Iansã. Mas, para cantar para Iansã no final do disco, eu precisava antes saudar Exu, para garantir a segurança, garantir que essa comunicação fosse chegar”, explica.
Niterói surge como palco dessa encruzilhada de autoconhecimento, encontros e reencontros. Mineiro de nascença, criado na Região dos Lagos e radicado na Cidade Sorriso desde os 17 anos, quando ingressou na Universidade Federal Fluminense, João Caetano nutre, desde o primeiro álbum, um profundo sentimento de conexão com o território.
As referências a lugares icônicos da cidade de Niterói são constantes na trajetória do rapper. Mas, em CORTAVENTO, sua linha de raciocínio ganha ainda mais corpo na intenção de construir imagens sonoras. Em “NIGHTANGEL”, o Hotel Sorriso, localizado na Rua Marquês de Caxias, transformou-se no cenário de uma noite de sensualidade e jazz no centro da cidade. O complexo de bares da Praça da Cantareira é citado mais uma vez como um chamado sedutor da rua, mas também como ponto de retorno da jornada. Já em “CHINELIN ”, single do disco, Joca traça seu percurso pelos bairros onde transita: “Centro, Ingá e São Domingos”.
“Fica nítido, de um disco para o outro, a nossa evolução da parte técnica, tanto da escrita quanto da nossa pesquisa de timbres e sonoridades. O nosso vocabulário de cores. Mas, para isso acontecer, eu tive que primeiro passar por um amadurecimento interno”
O Ingá – bairro que faz fronteira com Icaraí e Boa Viagem –, em especial, é também o berço de criação de Gustavo Black Alien, a quem Joca frequentemente reverencia, ao lado de Speedfreaks e do grupo Quinto Andar. “Eu sinto que Niterói é o lugar dos ídolos que eu escolhi. Percebi que ali havia uma dinâmica de cidade menor, uma realidade afetivamente mais próxima da Região dos Lagos para mim, mas ao mesmo tempo próxima do Rio de Janeiro. Me permitiu estabelecer outra relação com rede de apoio, comunidade e território. As pessoas que hoje são minha família de santo, eu conheci quando cheguei em Niterói”, reflete.
O DONO DA CITY
Apesar do profeta pardo do Capão Redondo já ter nos alertado que terça-feira é “ruim de rolê”, foi justamente essa a data escolhida por Joca para a primeira audição pública de CORTAVENTO – na noite anterior ao lançamento oficial do álbum, em 23 de julho. Mas nem o dia atípico para eventos no meio da semana, tampouco o calor característico do ambiente, impediram a casa cheia que recebeu os primeiros ouvintes oficiais no Centro Cultural Lado B, localizado na região central do Rio de Janeiro.
Apelidado apenas de Lado B pelos mais íntimos, o espaço tem se consolidado, nos últimos anos, como um dos principais pontos de efervescência da cultura urbana na cidade, graças à sua localização privilegiada e de fácil acesso, principalmente para quem, assim como o artista, atravessa a Baía de Guanabara de barca rumo ao outro lado da ponte Rio-Niterói.
Com a mesa de som posicionada bem em frente à entrada principal da Rua Primeiro de Março, quem passava desavisado podia ouvir, a metros de distância, os sets de abertura assinados por Daviu e Mabruxo e logo se inteirar do que estava acontecendo. Era noite de festa, de música, de celebração. Entre o público, artistas, jornalistas e agentes culturais da cena local se misturavam aos fãs que aguardavam ansiosamente o momento em que o rapper daria o play para iniciar os trabalhos. Joca não hesitou em atender à demanda.
As percussões de atabaque que abrem CORTAVENTO penetram os ouvidos dos presentes como um aviso: este é um álbum incontornavelmente afro-diaspórico. Ancestral, mesmo que a palavra esteja desgastada, aqui pelo menos ela se aplica com precisão. CORTAVENTO não busca retornar ao que já foi, mas se reconhece como possibilidade do que pode ser a música preta contemporânea, a partir da continuidade das tecnologias herdadas de quem veio antes. E o que é a música eletrônica do Terceiro Mundo, senão um legado?
“Percebi que nossa cultura de sound system, de paredão e de grave, e a relação do universo percussivo brasileiro com a dança vêm desde os cortejos, das fanfarras, dos tambores do candomblé, da umbanda, do maracatu, do jongo… A música eletrônica da diáspora – o technobrega, o bregafunk, o reggae do Maranhão, os funks do Sudeste – é uma continuidade da linguagem percussiva afro-indígena.”
“Existe um resgate muito forte da música a partir da história oral, do que as pessoas lembram ter ouvido de seus pais e avós. Poder registrar isso no meu disco é importante demais”, completa.


O estudo do som como extensão indissociável do corpo se manifesta na pista: nas batidas sincopadas do garage britânico em “SÓ POR HOJE” e “BADU & 3000”, com participação de Ebony; e também nos balanços sutis de “TML”, com versos de Amanda Sarmento. Na linha de frente da audição, era possível ver a DJ carioca Jacquelone fazendo caras e bocas, em estado de êxtase sonoro, como se sentisse o som percorrer todos os seus sentidos.
Sem seguir uma narrativa tradicional, o repertório nos projeta alternadamente para lugares diferentes do passado. Alguns acontecimentos nos fazem duvidar em que momento desses seis anos de espera estamos. Esse movimento, segundo Joca, reflete o próprio processo criativo que desenvolveu ao longo desse período. “Tem esses seis anos aparecendo no álbum de forma não linear. A última música do disco foi uma música que eu gravei para o A Salvação é pelo Risco e acabou não entrando. A partir dessa proposta de tentar enxergar o ciclo e não uma linha monodirecional, aos poucos, essa história vai sendo mostrada”, diz.
“Eu estava conversando sobre angústias minhas a respeito de onde morar. Estava pensando muito se eu mudava para São Paulo ou me mudava para o Rio, e ao mesmo tempo com muito medo de perder o que eu já tinha construído [em Niterói]”
Em “NÃO ME RECONHEÇO”, traçamos uma linha reta do sul América Latina ao extremo sul do continente africano. A batida suave e pulsante do amapiano sul-africano sustenta os vocais do trio Tuyo numa música que surge como um sopro de vitalidade, um renascimento após o caos. “Eu não me reconheço quase nada / Eu não me reconheço mais em ti”, exclama o refrão. A canção é carregada de um sentimento de ambiguidade, que pode ser lido tanto como a dissolução de um vínculo amoroso quanto como um rompimento com antigas versões de si mesmo – como se os medos de outrora tivessem finalmente sido deixados para trás.
Já “AYE Ô”, suinga na influência vocal do raggamuffin jamaicano nos versos de Jef Rodríguez, em uma das poucas faixas em que Joca se permite mais a cantar do que rimar. Presente na audição, o baiano interpretou de forma irreverente a sua partição na 13ª faixa. Mesmo após mais de 20 anos de carreira a frente da banda OQuadro, Jef parecia entusiasmado com seu verso com o mesmo apreço que teria se fosse o primeiro que tivesse escrito. O anfitrião correspondeu com a mesma empolgação. Estavam em sinergia.
Quando pegou o microfone para os agradecimentos finais, após “PRELÚDIO DA SAUDADE”, faixa de encerramento do disco, Joca ouviu um pequeno grito se iniciar na plateia. O grito, a princípio solitário, foi crescendo como em um efeito cascata, tomando forma e ganhando mais vozes. O rapper passou a ter seu nome entoado em coro pelo público. Ele respondeu com um sorriso tímido, quase encabulado. Um pouco mais à direita do palco, amigos próximos assistiam emocionados. Entre eles, estava a cantora Jadidi, que chorava durante a apresentação.
Perguntei se, ao final de CORTAVENTO, o risco ainda faz parte do seu processo criativo. Ele me respondeu sem hesitar que: “Abraçar a ideia de se expor é se arriscar.” E não há como não notar: João Caetano é, definitiva e felizmente, um corajoso irremediável.
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