John Grant: Genialidade, Agonia e Música

Com o novo disco, vale a pena redescobrir a obra deste incrível músico

 3,145 total views

Se todos os artistas tivessem apenas dois discos lançados em suas carreiras, o mundo seria um lugar melhor se essas obras arranhassem a excelência dos trabalhos de John Grant. Queen Of Denmark (2010) e Pale Green Ghosts (2013), são daqueles discos que te pegam pela mão com gentileza e te falam: “Oi, tudo bem? Vamos dar uma voltinha lá nos porões do ser humano?” E você responde: “não, não quero, estou feliz e hoje o sol está brilhando”. Eles vão insistir, vão levá-lo até lá e, uma vez sob toneladas de amores não correspondidos, desilusões mil, barra pesada pelo uso de drogas e toda sorte de perrengue emocional, você sairá devastado/a, mas, de alguma forma misteriosa, satisfeito.

Grant nasceu em Parker, no estado americano do Colorado, em 1968. Morou um bom tempo na Alemanha, onde tentou trabalhar como tradutor, sem muito sucesso. Retornou aos Estados Unidos e ingressou numa boa e obscura banda da região de Denver, os Czars. O grupo existiu nos circuitos alternativos da cidade e foi confundido com uma formação de Alternative Country, mas havia muito mais em sua música, que a aproximavam os Czars de formações plurais como os ingleses do Tindersticks, por exemplo. Entre 1994 e 2004, a banda lançou cinco discos e, quando encerrou suas atividades, Grant parecia desinteressado da vida de músico. Ficou um bom tempo sem gravar ou compor nada, até surgir, seis anos depois, com Queen Of Denmark, no qual ele é acompanhado por outra banda, Midlake. Com canções pungentes, grande parte delas no estilo “piano driven”, Grant tem momentos impressionantes. A faixa-título, curiosamente, a última do disco, tem em seu verso de abertura a síntese das intenções de John, que diz: “I wanted to change the world, but I could not change my underwear”, que dão o tom de uma balada plácida, que é atacada por surtos de programação eletrônica de bateria ao longo de seus quase cinco minutos, surtos estes que parecem saídos de Homogenic, terceiro disco da Björk, de 1997.

É como se fosse a própria vida contribuindo para a realização ou não da vontade de todos nós. Where Dreams Go To Die é outro exemplo, apenas pela terrível constatação do refrão, em que Grant diz: “baby, you’re where dreams go to die”, talvez uma das mais sérias declarações que alguém pode fazer para outra pessoa. Em Jesus Hates Faggots, Grant amplia sua verve e enfrenta preconceito social e religioso ao mesmo tempo, com isso: “cos Jesus, He hates faggots, son, we told you that when you were young, or pretty much anyone you want him to, like niggers, spicks, redskins and kikes”, fazendo de gente como Morrissey ou Rufus Wainwright, apenas para citar dois exemplos imediatos, meros amadores. As pequenas epopéias de Grant, um homossexual fora dos eixos do glamour urbano de lugares como Los Angeles ou Nova York, mostravam uma espécie de mundo real dotado de variações funestas de tons de cinza sobre as paisagens desérticas do Meio Oeste, uma região na qual o senso comum emburrecido só presumia a existência de cowboys e sujeitos toscos à beira da estrada.

A repercussão de Queen Of Denmark foi enorme na Inglaterra, com elogios rasgados em publicações prestigiosas como a Mojo, que definiu o álbum como clássico instantâneo, enquanto o Guardian chegou a traçar paralelos entre o disco e Pacific Coast Blue, o impressionante álbum solo do beach boy Dennis Wilson. Grant mudou-se para um lugar bastante improvável, Reikjavik, a capital da Islândia e lá, novamente, passou a atuar como tradutor sem, contudo, deixar de lado suas composições. Desta mudança de ares, surgiu sua associação com o produtor Birgir Þórarinsson, também conhecido como Biggi Viera, ex-integrante e mentor do Gus Gus, pioneira formação islandesa de música eletrônica, em atividade pela década de 1990 afora. Em pouco tempo, mais precisamente, no início de 2013, Grant vinha com Pale Green Ghosts, seu segundo disco. Meses antes, durante uma performance em conjunto com o grupo de neodisco Hercules And Love Affair, Grant revelou ser portador do virus HIV, certamente um dos grandes motivos para a confecção do feixe de canções de Pale Green Ghosts. O imaginário de Grant, neste segundo álbum, comporta tanto as lembranças mais tênues da infância, como o próprio titulo, uma referência a arbustos que cresciam perto de sua casa, em Parker, até verdadeiras assunções de problemas, como o próprio vírus da AIDS, que ele exorciza em “Ernest Borgnine”, com o refrão monocórdio “I wonder what Ernest Borgnine would do”.

O panorama musical de Pale Green Ghosts é genial. A mistura de baladas com perfeição de ouvires pianístico segue temperada por insights de eletrônica, mas usada com mais propriedade por Biggi. A faixa-título, que, desta vez, abre o disco, já se inicia com uma programação retrô intencional de sintetizadores preguiçosos, que secundam o registro de barítono de John, que parece vir de lugar nenhum. O amor não correspondido dá as caras em It Doesn’t Matter To Him, com vocais de apoio de Sinéad O’Connor, cujo verso “It doesn’t matter to him, I could be anything, but I could never win his heart again” dá o tom de resignação e perda. Why Don’t You Love Me Anymore é outra canção na mesma área de interesse, com aparições pontuais de efeitos de teclados e percussão, assombrando os vocais, novamente divididos com O’Connor, fã assumida de Grant desde que ouviu Queen Of Denmark. No fim do ano passado, Pale Green Ghosts seria escolhido como álbum do ano pela gravadora Rough Trade.

John Grant é desses artistas que não escondem nada de seu público, ao contrário, obtém força vital justamente da exposição de suas questões em forma de música e letra. Seus dois discos, como dissemos acima, são belos, depressivos e intensos, como a vida costuma ser em alguns momentos. Que ele continue a chamar pra si a complicada função de guia turístico desses infernos emocionais que habitam nosso Lado Negro, usando seu próprio como parâmetro. Deve doer e purificar na mesma medida.

 3,146 total views

ARTISTA: John Grant
MARCADORES: Redescubra

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.