Kenya20hz: 10 anos construindo, vivendo, vibrando

A DJ e produtora reflete sobre a primeira década de trajetória, a evolução de sua identidade, sua filosofia em relação à música eletrônica e examina os significados de sua arte

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Fotos: @ivanishi

A palavra independente pode ter muitos sentidos e se transforma conforme o contexto e o olhar de quem vive seus significados. No caso da DJ e produtora Kenya20hz, é um manifesto. Há 10 anos, ela trilha seu próprio caminho na música, movida pela liberdade de criar, experimentar e existir sem amarras.

Sua história começa a ganhar destaque em 2014, quando é selecionada pela Red Bull Music no Rio de Janeiro. Desde então, Kenya vem firmando seu nome nas principais pistas e festivais do Brasil – como The Town, Tomorrowland, Gop Tun Festival, MITA, Coala, Novas Frequências, Rock The Mountain, Time Warp e Queremos! – e do mundo, como Berghain, Tresor, Hï Ibiza e Rinse France.

Inicialmente, seu som era intimista, tocando o que gostava para si mesma, até que sua arte se tornou uma missão: abraçar mais pessoas, compreendendo o poder do som no ambiente. O som se tornou uma forma aprimorada de transcrever seus sentimentos e gerá-los – de múltiplas maneiras – nas pessoas.

Em entrevista ao Monkeybuzz, ela reflete sobre seus 10 anos de carreira, a evolução de sua identidade artística, sua filosofia em relação à música eletrônica, desafios enfrentados e aprofunda os significados de sua arte. 

10 anos não são 10 dias, né? Como você enxerga a sua trajetória sonora até aqui? Você sente que o seu som mudou muito ao longo desse tempo?

Então, quando a gente pensa nessa frase, né, 10 anos não são 10 dias, ela é um pouco cômica, mas é para deixar muito bem sinalizado que é um tempo. É uma jornada, sabe? É uma paciência que o artista tem que ter consigo mesmo para perdurar, para ver a arte nascendo e renascendo. É um processo… Essa temporalidade. É sinalizar para mim e para todas as pessoas que se impactaram com o meu trabalho em algum momento que é uma construção diária – e é uma construção que ela perdura, é longínqua. Quase assim… É um desafio… Numa indústria como a que a gente conhece, com uma cena como a que a gente conhece, perdurar 10 anos é muito mais do que só trabalho árduo. São vários fatores. Dentro deles, eu poderia colocar até a sorte. Porque são muitas pessoas que você acaba conhecendo nessa caminhada, né? E muitos artistas que começaram comigo lá atrás, hoje em dia já não estão mais aqui. Você entende o aqui, né? E aí é meio para colocar isso – a gente perdura e são vários os fatores, mas só que o principal deles é literalmente acreditar que a arte é algo que se renova e que todo mundo tá aqui com uma missão.

E sonoramente?

Há algumas características do meu som que eu acho que elas persistem. Em relação à originalidade, em relação à coragem de trabalhar com determinadas texturas, com determinadas estéticas. Quando eu falo 20Hz, ele vem até nesse lugar, é um pouco… Foi corajoso colocar esses 20Hz. Eu tinha uma visão do som muito mais intimista. Porque tocar, para mim, era uma possibilidade de eu colocar [o som] para mim, de poder ouvir numa pista algo que eu ouvia na minha casa. Então, eu sabia que, da forma que eu pesquisava música e da forma que eu entendia o que era música boa, dificilmente eu iria escutar outras pessoas tocando. 

Eu comecei muito com essa visão intimista – eu vou botar ali, eu confio no meu ouvido, então eu vou botar aquilo que o meu ouvido acha prazeroso. Mas aí as coisas foram se modificando a partir do momento em que a minha visão sobre à profissão de DJ foi se aprimorando, foi evoluindo. E aí o meu som começou a ser uma coisa que antes era somente experimental e intimista e começou a ser uma missão para abraçar cada vez mais pessoas. Acho que nesses 10 anos eu fui aprimorando a minha forma de transcrever o sentimento em som. E aí eu fui buscando outras referências, eu fui adaptando a minha maneira de mixar, eu fui agregando equipamentos à minha performance.

Trazendo meio button push, trazendo uma CDJ, mais uma CDJ. Trazendo o microfone, trazendo ali efeitos que externalizassem e abrangessem o sentimento que eu queria colocar.

Até no jeito que você vem se apresentando, em questão de moda, de performance mudou…

Com toda certeza. A parte da moda é algo que desde o começo eu busquei. A partir do momento em que eu percebi que a moda era uma linguagem que me servia muito, que me serve no sentido de faz sentido pra mim. Faz sentido, para mim, pensar na cor. É uma coisa meio sinestésica. Como eu vou estar vestida, a cor que eu vou estar e o sentimento que eu vou querer botar naquela noite. Tudo isso foi uma construção, de fato. Que demorou aí 10 anos – e que ainda tá acontecendo.

Houve momentos em que você precisou se desprender de certas coisas para amadurecer artisticamente?

Não sei se eu me desprendi, acho que fui agregando porque, quando comecei a tocar, eu tinha na minha cabeça uma linguagem, uma postura, e aí você vai vendo que as coisas não são fórmulas prontas. Você precisa ir compreendendo – em relação a você mesma como artista, em relação a você enquanto observadora do público, você como uma pessoa, uma sociedade que sempre tá em mudanças, muitas coisas acontecendo. Eu fui agregando novas formas de lidar com a realidade enquanto artista. E isso passa por tudo. Quando eu comecei, não tinha tanto Instagram. Instagram não era uma ferramenta essencial na vida do DJ, na vida do músico. Ainda mais um artista de música eletrônica.

A gente vê diferentes circuitos se colocando de formas diversas em relação ao seu som e ao seu público. A gente vê uma galera do techno de uma forma, quem toca mais pop de outra forma, quem toca música eletrônica mais experimental, noise. Enfim, você vai entendendo como as ferramentas do tempo modificam a sua própria postura, sua própria visão. Em relação a desprender, é meio isso: é desprender de uma lógica de como o meu som vai alcançar aquelas pessoas, mas ao mesmo tempo você não está se desprendendo, você está agregando novas ferramentas. E tudo isso no meio de que isso não pode se tornar algo negativo. Acho que esse é o principal desafio. Agregar todas e ser positivo pra você.

Você se lembra quando e como foi o seu primeiro contato com a música eletrônica/techno? 

Costumo botar o meu marco zero com 17, 18 anos. Sou do Rio de Janeiro, mas morei em Brasília. Assim que fui estudar, fazer faculdade lá eu me deparei com uma cena completamente diferente do Rio de Janeiro, em relação à música eletrônica underground e aquilo ali me cativou muito porque sempre fui meio… Meio gótica, meio outsider, assim, e eu ouvia muito rock, ouvia muito rock. E aí vi uma galera outsider, underground, mas só que de outra forma. E eu falei: tá, o que é isso? O que é esse estilo de som? O que está acontecendo?

Tem uma comunidade. E a galera se conecta ali naquela linguagem. Assim, a linguagem me pegou muito. Porque eu tenho uma parada com o som. Que é como se o som estivesse me passando informação o tempo inteiro. O que me faz ficar numa pista é o diálogo que o DJ consegue trazer junto com a máquina. E aí, quando vi o DJ tendo esse comportamento, que era uma coisa muito nova pra mim, eu falei: cara, que tecnologia é essa? O que é isso? O que me pegou primeiro foi dubstep, bass music, dark psi, gostava muito, hi-tech, músicas que trazem essa linguagem tecnológica mesmo, que era uma coisa muito diferente do que eu tinha no Rio de Janeiro. 

Na minha família não tem ninguém da música. Eu estava pensando nisso esses dias. Cara, eu vejo tantas entrevistas de artistas que falam assim “ah, minha mãe fazia tal coisa meu pai” e eu não tenho nenhuma referência, eu sou a primeira pessoa da minha família a trabalhar com música. A partir do momento que comecei a me dedicar a isso, meus pais aceitaram bem, porque eles sabiam que eu sou uma pessoa muito responsável.

Apesar de ser uma coisa nova ali para a minha família, sinto que tive apoio até a página 2, né? E tive um apoio e basicamente foi algo que me pegou muito por esse sentimento de inovação, esse sentimento de algo que eu nunca tinha vivido antes. Aí comecei a ir em festas, comecei nos festivais e logo aquilo me pegou de uma forma, assim – cara, eu preciso fazer isso. Porque você vai numa festa e você tem essa conexão com a música. A acho que não é todo mundo que sente isso, eu acho. Eu posso estar equivocada, mas só que eu senti uma vontade de eu preciso ajudar…

Participar, estar nesse meio…

Preciso fazer a minha parte nisso aqui, sabe? E posso somar o fato de que quando eu comecei… Ser uma mulher negra periférica, tocando música estranha, é algo muito atípico. Fui engatinhando meio que sem referência. Eu tinha a DJ Tami, que é uma DJ preta do Rio de Janeiro que toca hip-hop. Eu tinha a DJ Hebraids, de Brasília, que tocava grime e tal. Mas todas essas características… Ah, tocar high tech…

Do gênero musical e também um pouco do recorte geográfico. Eu poderia colocar um recorte étnico. “Não, mas você é uma DJ assim então você toca house, então você toca hip-hop”. Teve uma época que eu toquei bastante hip-hop. Eu cheguei num determinado ponto que passei a comunicar aquilo que eu quero – de qualquer gênero musical. Mas até que eu me estabelecesse, quando a chegava para tocar, as pessoas pensavam imediatamente que eu tocava hip-hop ou que eu tocava funk. E isso eu falo de uma forma pejorativa, porque na mente das pessoas era um pouco pejorativa.

Sim, e até também por ser do Rio de Janeiro, tem a questão do funk, né?

Com toda certeza. Quando comecei a tocar uma música eletrônica mais 4×4, a galera já foi logo assim – então, você toca house. E nada contra house, adoro, mas tipo assim… A brutalidade que eu busco trazer com as minhas performances sai um pouco daquilo que eu defino como um sentimento que o house acaba trazendo. Eu queria ir para outro lugar, outra textura, outro sentimento. Então, eu falava com as pessoas assim: não, então, eu… Toco house também, mas não me veja assim. Não acha que eu vou subir para tocar música para você dançar somente. Quero te levar a outros estados de consciência. Dançar é apenas uma consequência. O que eu quero causar em você é outra coisa. E aí as pessoas começaram a compreender isso na base da porrada.

De onde surgiu o seu nome, Kenya20hz? 

Então, se tornou para mim uma maneira de trazer a ciência para a minha abordagem, né? É 20 Hz porque o ser humano tem uma faixa de frequência audível, entre 20.000 Hz e 20 Hz. Além de 20.000 Hz, cachorro pode ouvir, baleia, golfinho, mas o ser humano não pode mais. E aí a gente tem ao lado oposto, 20 Hz, é o que abaixo disso a gente só sente. O ouvido humano não é preparado para ouvir abaixo de 20 Hz. Isso me trouxe uma noção de que existe uma ciência por trás, existe uma física por trás disso. É entretenimento, é diversão, mas existe uma ciência por trás disso.

E essa ciência é o que me coloca a entender o som a partir do momento que o som se torna algo físico, algo sensorial, aí chega nos 20 Hz. Na verdade, ali a partir dos 70 Hz para baixo, 60 Hz, a gente já começa a sentir dentro dessa caixa enorme que é o corpo humano. Mas só que 20 Hz é uma coisa abdominal, uma coisa quase chakra.

E quando o bass… Quando o subgrave, que isso é o subgrave, incide em você e aí tá nessa faixa de frequência de 30, 20 hertz que você sente uma pressão, você sente uma vibração no seu corpo inteiro. E isso me causou muita curiosidade. Porque eu escutava muito dubstep. E aí eu ficava ali, nossa, mas como que na frente de um bom sistema de som…. O que você sente? O que te arrebata?

E aí comecei a pesquisar sobre frequência, sobre acústica, engenharia acústica, e entendi. Entendi também que eu não conseguiria ter esse efeito em casa. Essa é a parte mais triste, que eu realmente só conseguiria ter esse efeito de fato tocando e almejando que um dia eu pudesse colocar o meu som em lugares com um sistema de som gigante para que eu pudesse dividir essa sensação que eu tanto buscava com as pessoas. 

Porque o 20 Hz, a gente sempre fala sobre altas frequências, né? Altas frequências causam a transcendentalização, altas frequências levam pra estados alterados de positividade. Tem os estados alfa, beta, quando você tá em estado alfa é como se a sua mente estivesse vibrando em frequências bem altas. E isso é bom, né? Quando você vai meditar, enfim, você tem maneiras de alcançar esses estados alterados de consciência que eles colocam a sua atividade neural em frequências altas. 

E aí eu venho com 20 Hz. E 20 Hz é como se fosse o estado vibracional mais baixo. Então, é uma coisa que é associada a quase algo negativo. E aí eu fiquei durante muito tempo pensando sobre isso, né? Até que eu precisei pesquisar mais. E aí esse estado dos 20 hertz, na verdade, é quase uma coisa de trabalho das sombras. É quando você tá numa situação, num estado ali um pouco down, um pouco para baixo, quando você encara algo que se compromete a trabalhar exatamente com suas frequências. É um trabalho de cura. Comecei a entender melhor o que era esses 20 hertz pra mim. Porque a música é um trabalho de cura. A música pode trabalhar e te deixar muito feliz, mas a música também pode trabalhar num lugar de liberação de alguns sentimentos que estão ali numa frequência baixa, mas a partir do momento que você encara um trabalho que mira exatamente nesse estado, que é um estado um pouco desconfortável, um pouco pesado… Através disso tem um trabalho de cura. Os 20 Hz falam um pouco disso. Não é só sobre chegar lá em cima, é também entender esses sentimentos, essas sensações tão humanas que, com o poder do bom sistema de som, a gente consegue destravar.

Para a divulgação dos seus anos de carreira, você produziu novas músicas em cima de clipes. Qual foi sua maior inspiração para esse projeto? 

Já faz alguns anos que venho compreendendo a minha linguagem sonora como algo que me pede mais. Enxergo o som de uma forma muito sinestésica. E teve um momento que eu comecei a vislumbrar, a unir a imagem ao som. Isso é algo que já está na minha cabeça há muitos anos e eu fui buscando caminhos, ferramentas para conseguir materializar isso. Eu quero colocar aqui… Que não é fácil, audiovisual não é fácil. 

Nesses 10 anos eu já tinha produzido algumas coisas. O primeiro projeto que eu fiz a direção criativa foi pro Mutec. Mutec é um festival que une música e tecnologia. Ele acontece em alguns países pelo mundo. Quando eu iria tocar na edição em Montreal, teve a Covid. E aí, tive que passar o que estava imaginando para uma performance ao vivo, tive que fazer num estúdio. Chamei algumas pessoas, um light designer, um bom editor, pensando na montagem desse material e fiz ali meio que um filmezinho, que eu até nomeei como It’s All a Dream. Era tudo um sonho. Eu explorei um pouco dessa estética hipnagógica, lúdica e coloquei nessa apresentação de uma hora. 

Desde o começo, sempre ouvi que eu era uma artista que explorava uma estética específica. E, de fato, eu faço isso. Você pode progredir, você pode cada vez mais ir aprimorando essa linguagem e, para isso, requer estrutura. E eu digo literalmente o financiamento. Isso tudo vai te afastando de onde você quer chegar. 

Mas só que, em determinado momento, eu comecei a entender que às vezes o primeiro passo pode ser dado de uma forma independente. O primeiro passo pode ser dado de uma forma não tão pesada. Só tenta. E eu tive que trabalhar muito com essa ideia. Aí, na próxima apresentação que eu também fiz, criei uma direção criativa focada em imagem, não só no som. Essa interconexão foi para o The Town, que eu criei um show chamado Caos Sonora, no qual eu fiz essa apresentação com uma banda, chamei uma saxofonista, um percussionista e fiz ali uma performance.

E aí comecei a pegar um gosto. Mas como posso fazer isso? E nesses últimos dois anos, tenho me dedicado totalmente ao estudo da produção musical, que é uma coisa que durante tantos anos eu posterguei. Sempre me coloquei num viés muito perfeccionista. 

Acho que agora tô chegando num lugar que me sinto satisfeita. Tô entendendo como conseguir materializar esse som que tá dentro da minha cabeça. Isso aconteceu a partir do momento que eu comecei a produzir as minhas músicas – comecei a imaginar esses cenários. E aí, nesse aniversário de 10 anos, eu falei assim: tá, vamos começar então.

É o fim de um ciclo e o começo de algo novo. Quero começar a fazer exatamente as coisas como, há tantos anos, eu vejo na minha cabeça. E eu quero botar isso para fora.

E mostrar pra todo mundo o que se passa na cabeça de Kenya.

Sim, é algo que até é saúde, isso é saúde mental. O artista botar para fora aquilo que ele tá sentindo é questão de saúde mental. Por que o fulano tá maluco na rua? Porque tava cheio de ideia na cabeça e não conseguiu botar para fora. Esses 10 anos são sobre essa caminhada. Vamos continuar caminhando. Esse grande presente que eu recebi dos 10 anos serem exatamente no dia do show do Jeff Mills. Ficou muito claro o que eu precisava fazer. Um presente pra mim mesma. Escrevi o roteiro, reuni uma equipe muito competente. 

Quanto Jeff Mills influenciou o seu trabalho? E o que você sentiu ao dividir esse momento com ele?

Esse convite veio para mim com uma energia muito de sincronicidade. Sinto que, de certa forma, o Jeff Mills bebe da mesma fonte que eu bebo. Porque a arte não é temporal. O artista pega a inspiração de algo que sempre existia, uma fonte que nunca seca. De certa forma, sinto que o Jeff Mills passou por esse lugar, que eu também passei. E antes que eu conhecesse o trabalho dele, a gente já poderia ter se encontrado nesse lugar. Porque eu não comecei a tocar música eletrônica através do techno. Comecei com outras vertentes.

As vertentes que me pegaram foram música psicodélica e dubstep, bass music. Só que essa linguagem afrofuturista, essa linguagem do ser humano e máquinas. Esse olhar periférico, eu posso dizer até um olhar diaspórico para aquilo que é do futuro, que é tecnológico, cósmico, que transcende a materialidade. 

Isso é Jeff Music para mim. Quando eu recebo esse convite, as coisas se sintonizam. Recebi isso com uma alegria muito grande. Eu estava pensando em como preparar esse show, porque não era só sobre o Jeff Mills – era um projeto dele, no qual ele traz o tecnho, com toda certeza, mas só que ele traz também uma linguagem étnica, ritualística, tribal, que também tem muito a ver comigo. Eu pensei em uma forma de homenagear a música eletrônica, mas também homenagear essa ancestralidade.

Ele, o Jean e o Prabhu trazem nesse projeto. Então, para mim, foi algo muito lindo. E eu tive muitas pessoas à minha volta, uma equipe incrível ajudando a materializar, literalmente a roteirizar como seria essa noite. Isso em todos os quesitos. Desde essa campanha dos videoclipes entrelaçados a essa apresentação. Desde o figurino, passando pelo material que vai ser gerado após esse show. Tudo isso chegou de forma muito rica para mim. 

E primeiro, eles falaram que eu tocaria uma noite só e aí depois eles conheceram o meu trabalho melhor, falaram que eu tocaria as duas noites, porque fez sentido, né? E estaria tendo uma falsa humildade se dissesse para você que não faz sentido. De fato, faz sentido porque é isso que o meu coração ressoa. Esse é o som, esse é o o sentimento que há tantos anos eu busco colocar. A união com a tecnologia e ancestralidade.

Quando a gente sobe lá no palco para fazer algo assim, entende que é somente sobre verdade. Só tem uma palavra que eu poderia descrever aqui para falar tanto do dia 1, quanto dia 2: verdade. 

Em um post no Instagram você questiona “Se eu fosse uma carta do Tarot, qual carta eu seria?” mas não conclui. Fiquei curiosa, qual você seria? Seria mais de uma? 

Tenho uma conexão muito forte com esse tipo de conhecimento. Posso dizer até que esses arquétipos das cartas do Tarot influenciaram parte desse material que eu produzi. Peguei um pouco da ideia da sacerdotisa, da imperatriz e do mago. São três cartas que, de certa forma, falam um pouco de temas que passam por interesses meus desde sempre. Mas eu acredito que o arquétipo pode ser sentido de acordo com os tempos da sua vida. Cada fase é um arquétipo. Acredito que hoje o que eu busco é exercitar cada vez mais a sacerdotisa dentro de mim.

A sacerdotisa é a mulher que tem acesso ao oculto que existe em si, dentro dela. E através desse oculto, ela consegue descobrir todos os mistérios, não só dela, como do que a cerca também. E eu acho que a vida é cheia de mistérios, mas o primeiro grande mistério é você mesmo, o seu coração, sua mente. A sacerdotisa faz esse trabalho de voltar para si, de enxergar o seu oculto, de olhar para o seu interior. Eu acredito que se existe um arquétipo que eu busco, não digo dominar, mas compreender – esse grande mistério da sacerdotisa.

O que você diria para aquela menina de Nilópolis que começou a tocar lá em 2015?

Poderia responder isso de várias formas. Mas uma coisa que eu gostaria de falar é: continua tocando música estranha, garota. Continua tocando música estranha porque é isso que vai ditar o teu caminho. É isso que vai fazer você levantar e ir lá tocar, porque você sabe que esse som é você. Essa música estranha é um pouco da forma que você encontrou para se colocar no mundo. E através dessa forma você vai encontrar outras pessoas estranhas também que vão se identificar e aí você vai conseguir trabalhar com coisas que outras pessoas têm medo de fazer. Continua nesse caminho sem medo. Eu quero muito que você continue entendendo o porquê de você tocar essa música. E quero que você não pare de fazer isso. Isso vai te levar a lugares que você nem imagina. E não liga para a indústria. Liga para isso não. No final das contas, não é sobre isso.

E olhando para o futuro, como você se imagina daqui a 10 anos?

Tem uma coisa que eu sempre busquei: fazer a conexão entre diversos cenários e nichos. Tenho muito orgulho disso, de já ter tocado em festival de noise, jazz, psytrance, techno. Já toquei em muitos lugares onde senti que a minha música é bem-vinda. Para essa próxima década, quero conseguir expandir cada vez mais a atuação da minha música em diversos tipos de meio – do cinema, das artes visuais, da dramaturgia. Levando a bandeira do techno, do bass, mas fazendo as pessoas entenderem que em um grande músico não existem barreiras. Para um grande produtor, um grande mago, não há ferramentas que determinem como a magia vai ser feita. A única coisa que determina é o resultado. Quero que a minha música chegue a resultados que sejam inimagináveis para qualquer pessoa e principalmente para mim, que imagina tanto esse futuro. Mas quero realizar algo inimaginável até para mim.

Hoje em dia, ainda existe certa polêmica em torno do funk dentro das festas eletrônicas. Como você enxerga esse debate e o espaço que o gênero vem ocupando nesse cenário?

Cara, me dói muito. Me dói muito quando vejo as plataformas, meios de comunicação exaltando de forma quase pedante quando chega algum gringo e toca uma música com funk. Quero muito mesmo ver o mundo inteiro tocando funk e não é sobre isso, mas só que a maneira que é colocada, a maneira como é visto um DJ brasileiro colocando um remix de funk, um edit de funk num festival de música eletrônica grande e aí quando vem um artista estrangeiro e utiliza esse funk…. E aí a gente vê claramente que existe uma parcialidade na forma como aquilo dali é noticiado. Isso acaba comigo porque é de uma ignorância, é de um oportunismo muito grande. Eu tenho uma propriedade muito grande para falar de funk. Porque eu sou da periferia, a minha casa era do lado de um botequim que tocava funk a noite inteira. Esse preconceito em relação ao funk, a musicalidade e tal… Eu cresci vendo aquilo, sabe? Cresci com o funk sendo a música comum, o normal. Então quando vêm algumas pessoas e colocam funk dentro desse lugar para chocar, tipo assim, mano, desculpa, isso aqui não me choca em nada, sabe? 

E acredito que tem muitos gringos que chegam aqui com essa mentalidade. É tudo muito sobre como a coisa é veiculada. E muitas vezes, até o próprio respeito pela cultura do funk, pelo movimento do funk, que poderia ser tratado de forma muito mais séria, deixa de ser sério – vira uma coisa jocosa, vira uma coisa cômica. Porque chega alguém sem ter o menor tipo de conhecimento sobre aquela cultura e a pessoa é ovacionada por causa daquilo. Enquanto tem gente aqui, brasileiro, ralando para botar uma parada que é normal, porque é nossa… E aí é mal vista. quando é tocada aqui no Brasil ou quando é tocada lá fora.

Quando o brasileiro mostra a nossa própria cultura lá fora, muitas vezes aquilo é mal visto pelas próprias plataformas, pelos próprios meios de comunicação do Brasil. Isso é uma coisa que eu até compreendo, compreendo, porque existe uma agenda por trás disso. Existe uma agenda que a gente tá tentando, aos trancos e barrancos, exterminar. Quando eu vou num set e boto funk, é para resgatar a minha cultura. Não é para chocar. É porque eu cresci ouvindo isso e eu quero ter autonomia, quero poder ter propriedade dessa cultura. E poder fazer isso sem que os meios de comunicação do meu próprio país vejam aquilo como algo pequeno, sem valor. E não quero ter que precisar tocar um remix de funk na Alemanha, na Finlândia, para que as pessoas achem isso legal. É algo, para mim, de extrema ignorância.

Óbvio, tem muitos profissionais, muitos pesquisadores, jornalistas, que entenderam isso e fazem o trabalho correto. Mas tem outros, eu acho, que se aproveitam dessa agenda oportunista, que eu não poderia colocar de outra forma, e que atrasa esse lugar de intimidade, esse lugar de reconhecimento cultural que a gente poderia ter. Só atrasa, porque parece que aquilo dali só tem valor, mais uma vez, quando é visto pelo olhar estrangeiro, quando é reproduzido pelas mãos do estrangeiro. Enquanto isso existir, me desculpa, não faço parte dessa palhaçada.

Você acredita que a sua música nasce como forma de escapar da realidade em que vivemos ou como tentativa de construir uma que faça mais sentido pra você?

Uma tentativa de fazer sentido para a minha vida, com toda certeza. Eu não escapo. Quando tô fazendo música, não escapo. Pelo contrário, no momento que estou tocando, eu me sinto num estado mental tão prazeroso, que é como se eu não estivesse ali. Mas o processo até chegar naquele momento, é você caminhar de mãos dadas com a realidade o tempo inteiro. Até o momento de a música estar pronta ou de estar no palco tocando, é um processo – uma série de etapas que não tem como você se desvencilhar da realidade. Então, é uma forma de eu conseguir compreender a realidade através desse trabalho. 

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ARTISTA: Kenya20HZ