O canto rouco das manhãs ásperas

Guaxe é um pássaro, mas é também o nome do projeto e do disco da dupla Dinho Almeida (Boogarins) e Pedro Bonifrate (ex-Supercordas). Ouça aqui

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Se o clima árido de Goiás se reflete no inconfundível timbre de Dinho Almeida, vocalista da banda Boogarins, a umidade do Rio de Janeiro alude às ricas composições de Pedro Bonifrate, dono da psicodelia da finada banda Supercordas. É assim que nascem as sete faixas de Guaxe (2019), trabalho que revela a incontestável conexão entre os dois artistas.

Guaxe é a nome de um pássaro que os músicos viram em um dia quente próximo do sítio do Dragão, em Paraty, onde Bonifrate vive. A ave em questão é famosa pela construção de seus belíssimos ninhos em forma de bolsa que ficam pendentes em galhos de árvores. Além disso, ela também é responsável pelo canto rouco e singular no alto das florestas. É dessa natureza e tranquilidade que aflora o disco homônimo do duo. O impacto leve e mágico que circundava o espaço em que o registro foi gravado, com certeza, inspirou os primeiros passos do caminho que culminou no LP que está entrando hoje nos serviços de streaming.

Em contraponto a essa boa energia, conversas duras sobre os acontecimentos caóticos dos últimos anos se impuseram durante as gravações. No registro, elas funcionam como suporte para as intrincadas composições melódicas. O trabalho exorbitante, política, história, existência e resistência, no fim, são explorados em constatações que se apresentam como um longo suspiro diante do desespero. O resultado sonoro é, naturalmente, uma combinação transparente entre o universo de Dinho e Bonifrate. Guitarras conduzidas de efeito e distorções, ruídos e vozes delirantes, tudo junto e misturado, formando a bagunça graciosa de um ninho de Guaxe. Abaixo, confira um faixa a faixa comentado pela dupla e não deixe de ouvir o álbum já disponível, Guaxe.

“O Dinho é um escritor bem rápido e espontâneo, isso contrasta bastante com o meu processo lento, fermentado de escrita, o que me deu um estímulo nesse sentido. Talvez seja um dos aspectos mais legais desse trabalho”

D E S A F I O  D O  G U A X E

Dinho: Adoro como essa música agrupa a estética e o sentimento que esse projeto causou na gente. Eu tinha ficado muito tempo sem sentar em um computador. Sem realmente mexer em um software de gravação, editando e mixando coisas. Foi maluco como foi fluído e fácil com essa música. A gente misturou o violão reverso de “Nilo”, uma bateria sampleada e desacelerada de um outro disco que passamos para fita e o que tocamos por cima disso. Acabou sendo um processo muito parecido com o que eu e o Bonifrate desenvolvemos para compor juntos: um lance calmo, mas ativo, contemplando o que estava sendo feito ali e adicionando palavras e sons aos poucos. Assim, os minutos viraram horas, feito a modulação maluca do canto do Guaxe. A canção acaba sendo nosso tema, meio que um hino encorajador contra as ondas erradas do presente caótico.

Bonifrate: Um lance legal sobre esse processo é que nós estávamos passando um sample de bateria pela fita K7 no gravador de quatro pistas e desacelerando para ficar mais lento e pesado. Quando demos o play, acidentalmente um canal com o violão de “Nilo” ao contrário estava aberto e os dois elementos soaram juntos. Imediatamente, o Dinho falou: “Caralho! Isso é uma canção pronta”. Passamos esses canais para o computador e o Dinho começou a editar a estrutura e compor uma base a partir daí. Enquanto isso, eu brincava com a minha filha de 3 anos. A melodia e as palavras começaram a fluir espontaneamente e eu escrevendo na lousa. Vinha pensando no Guaxe, o pássaro, como tema de canção. Estava quente quando o Dinho chegou em Paraty para essa parte da gravação. Então, nós fomos dar um mergulho no rio que corre perto de casa e um casal de Guaxe apareceu na nossa frente, dando seus esguichos sintetizados. Eles são um pouco difíceis de se visualizar, porque voam pelas copas altas das árvores, mas lá estavam eles, bem na nossa cara. Achei que era um presságio.

P U P I L A S

Dinho: Bonifrate chegou com essa música quase pronta. Para mim, é sempre maluco ver como as formas da poesia dele crescem conforme você vai ouvindo. Eu fiz um pouco do bacharelado em História e o Bonifrate é mestre no lance. Nessa música, ele manda um verso dizendo que o tempo é espiral, linkando isso com uns versos que, sei lá… Foi foda entender essa música. Eu só cheguei no cerne da coisa depois de ter ajudado a escrever a segunda parte. Outra coisa maluca é que nossas vozes se misturaram tão bem que, às vezes, eu não sei quem fez qual voz.

Bonifrate: Antes do Dinho chegar para mais uma sessão, gravei a base toda no gravador de fita de quatro canais – bateria, baixo e violão – pensando em usar como uma demo. Só que soou tão legal e estranho que acabamos deixando daquele jeito. Captei mais as guitarras, casiotones e a viola caipira no computador, mesmo. E, quando o Dinho chegou, ele escreveu uma segunda estrofe e gravou as vozes principais. Eu harmonizei em cima delas e as vozes soaram bem juntas na mix, como se fosse uma pessoa só cantando. Escrevi a primeira estrofe depois que vi uma foto de uma senhora bem idosa segurando um cartaz que dizia “I can’t believe I still have to protest this shit” (“Eu não acredito que ainda tenho que protestar por essa merda”). Fez muito sentido pra mim e a letra foi saindo a partir daí.

R I O  A B A I X O

Bonifrate: Essa peça veio de um improviso com o Dinho (na viola caipira) e eu (na harmônica) que fizemos no ano novo de 2015 para 2016, e que minha companheira filmou. Acabei passando pela fita e por um pedal de delay para deixar tudo torto e quebrado.

N I L O

Dinho: Essa é uma música antiga minha. Comecei no Ensino Médio, quando fiz estágio trabalhando em uma obra pública grande, em Aparecida de Goiânia. Lembro de ver os homens trabalhando debaixo do sol intenso do Cerrado – aquele clima seco, poeira subindo, todo mundo exausto. Aquilo parecia muito com as descrições bíblicas de escravidão no Egito. Depois, já na faculdade, dei cara com um texto no qual Heródoto descreve a civilização egípcia e dizia como, para eles, toda vida vinha do rio Nilo. E, aquele tempo do estágio, para mim, foi uma época de muito trabalho e pouco deságue criativo. Então, foi meio que a luz final que eu precisei para terminar a música.

Bonifrate: Eu conheci o Dinho através do Diogo Valentino, meu irmão de Supercordas, durante o Dia da Música 2015 em São Paulo. Depois das apresentações daquele dia, fomos para a casa do Diogo e ficamos bem loucos, mostrando nossas novas canções no violão um pro outro. Nessa, o Dinho tocou “Nilo” e foi aí que eu tive uma dimensão do enorme cancionista que ele é. Ele deu essa introdução sobre os caras trabalhando na obra moídos no sol da tarde, então pra mim sempre foi uma canção sobre a exploração do trabalho e o que ela faz com as pessoas. Uma canção assim é muito difícil de se escrever, sendo tão simples e abrangente e ao mesmo tempo tão direta e contundente. Depois que o Dinho gravou o violão e a voz, não havia muito mais o que fazer além de acrescentar aquele pseudoJazz Lo-Fi pra ambientar. É uma canção única e assombrosa, fico muito feliz de ter gravado e arranjado essa com o Dinho.

O N D A

Dinho: Essa já veio no nosso segundo encontro para gravar. A canção é toda do Bonifrate. Eu cheguei com algumas guitarras depois, que ajudaram a dar forma e molho para a coisa. Ele já tinha toda a letra e me deu meio um briefing do que sentia com o lance. A partir daí, cravei o refrãozinho no melhor estilo que os improvisos com o Boogarins me ensinaram. Adoro como tudo deságua no segundo verso, “venenos ambíguos/pesadelos políticos”, e explode no meu improviso. Meu pensar vai sempre longe e em lugares novos com essa música.

Bonifrate: Escrevi os versos da estrofe pensando na minha companheira e no rolê militante dela enquanto feminista e historiadora das mulheres. Em como é difícil reescrever a história quando grande parte dela foi propositalmente esquecida ou deixada de fora dos livros. Você faz uma universidade de história e te botam para ler duas ou três autoras mulheres dentre centenas de homens. Fiquei orgulhoso dessa linha de baixo. Soa quase como um groove clássico da Motown ou de alguma produção do Quincy Jones, e vai ver é mesmo.

A V E S S O

Dinho: Essa música também é desse segundo encontro. É daquelas jorradas incontroláveis do inconsciente. Fico encantado em como fizemos pulso, melodia e letra respirar junto nessa canção. Na minha cabeça, ela é uma ode a quão controversa é a ideia do indivíduo dentro da inevitável existência com um todo. Lembro que esculpimos os versos, meio que palavra a palavra, sem discutir o total. É daquelas, novamente, que ganham novas profundidades toda vez que eu escuto.

Bonifrate: As duas últimas canções das sessões de Guaxe foram gravadas logo antes eleições de 2018. Nos sentíamos estranhos e receosos com isso, obviamente, mas também tentando evitar que essas energias sinistras entrassem em nós. Acho que esse arrepio estava lá quando escrevemos essa canção, e a necessidade de transformar aquele sentimento em algo bonito e pleno existiu. Foi o que fez essa música acontecer, a meu ver, como uma canção do Clube da Esquina funcionava contra aquelas péssimas vibrações políticas e ainda soava como uma música preciosa, inabalável. Foi a última que escrevemos e talvez o ponto alto da nossa parceria, já que ela veio do nada com versos e frases melódicas que nós dois acrescentávamos. Pareciam desconexas, mas, no fim, se integraram de um jeito bem simples e forte. Não sei de onde veio essa canção, cara, talvez do infinito.

P O V O  M A R C A D O

Dinho: Para mim, essa é tipo de canção que as pessoas cantam juntas para dar ânimo durante um tipo de trabalho braçal. Um mantra torto que cresce e ganha força conforme vai se desenrolando. O processo de gravação foi maluco. Bonifrate tinha uma captação de viola no celular que virou o loop base pra tudo. Depois, nós dois gravamos a bateria, coisa que eu não toco de fato, mas foi super divertido e fiquei feliz com o resultado. Gosto de tudo na música. Adoro a vibe que as camadas e a edição do Bonifrate deram para a coisa toda.

Bonifrate: Tinha gravado uma levada na viola de 10 cordas no telefone para não me esquecer depois e quando mostrei pro Dinho, ele falou: “Massa! Bora loopear essa aí mesmo”. E eu: “Mas não é melhor gravar direito? Tá, mas então bora pensar em uns versos para ela”. A partir daí, ele começou a espirrar essas palavras do nada. Lindas. O Dinho é um escritor bem rápido e espontâneo, isso contrasta bastante com o meu processo lento, fermentado de escrita, o que me deu um estímulo nesse sentido. Talvez seja um dos aspectos mais legais desse trabalho.

INFLUÊNCIAS EM CINCO DISCOS

The Olivia Tremor Control –
Black Foliage:
Animation Music
(2004)

Tetê Espíndola – Piraretã (1980)

Milton Nascimento & Lô Borges
Clube da Esquina (1972)

Super Furry Animals –
Radiator (1997)

The Apples In Stereo – Her Wallpaper Reverie (1999)

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