Lauryn Hill: 15 Anos de Má Educação

Em seu primeiro trabalho solo, artista mostrou ser muito mais do que a voz feminina do trio The Fugees com uma obra que extrapola estilos

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“Conhecimento não ocupa espaço”, dizia um professor meu sempre que alguém se recusava a tentar compreender algo novo na minha turma. Ironicamente, parece que, depois de reter muita informação, precisamos desaprender certas coisas para que a quantidade daquilo que se sabe não se torne excessiva e conflitante. E, talvez, essa dinâmica seja justamente o que significa ter sua própria opinião: Selecionar o que deve ser retido e o que não cabe na sua mente.

O que Lauryn Hill fez em seu álbum de estreia, The Miseducation of Lauryn Hill (1998), parece ser o resultado de um processo desses. Integrante de um dos grupos de Rap mais influentes da metade da década de 1990 (The Fugees) e prestes a ter seu primeiro filho, era hora da moça (na época aos 23 anos) crescer de vez, na vida e na carreira, apesar do que todos ao seu redor falavam (como ficou registrado no refrão da faixa-título: “But deep in my mind, the answer it was in me, and I made up my mind to define my own destiny”).

Pode-se dizer também que é esse seu lado de ir “contra a maré” que dá o tom do disco. A tal “má educação” do título vem como constatação de que ela nunca aprendeu nada direito, nada como as pessoas esperavam que ela aprendesse, daí sua vida não seguir os caminhos convencionais e, consequentemente, sua música ser também tão livre de regras. E é aí que está a maior graça disso tudo.

The Miseducation of… é um álbum tão louco na mistura que faz que, mesmo com seus 15 anos de lançamento completados neste fim de semana, ele pareça atualíssimo – já que ainda hoje há tantos e tantos artistas que se preocupam em seguir tão à risca as estéticas pré-estabelecidas. Lá atrás, no finzinho do segundo milênio, Lauryn já escolhia fazer as coisas do seu próprio jeito – e, olha, deu muito certo.

Excelente tanto como rapper quanto como vocalista, a artista conseguiu criar uma obra que enaltece uma qualidade ainda maior que essas: Sua própria musicalidade. Lauryn é tão do Hip Hop quanto é do Reggae (e ser casada com um dos filhos de Bob Marley certamente ajuda nisso), é tão ligada às batidas eletrônicas quanto é fã de guitarras bem trabalhadas e outros timbres inusitados, como harpas.

Os temas presentes no álbum parecem transitar entre três grandes esferas: Social, como manda a tradição Hip Hop (Lost Ones, Final Hour, Every Ghetto, Every City); Romântico, para priorizar sua bela voz (Ex-Factor, When it Hurts so Bad, Nothing Even Matters); E o espiritual (To Zion, Everything Is Everything e a oração/faixa-bônus Tell Him). Porém, os três temas se entrelaçam em diversos momentos, revelando uma coesão natural entre as músicas.

Ainda assim, o que dá liga mesmo é a própria figura de Lauryn Hill. Não é à toa que seu nome está no título e não é questão de estrelismo. Depois de deixar sua marca ao lado de Pras e Wycleaf Jean (os outros dois terços de The Fugees), é ela quem, obviamente, protagoniza seu disco solo, que, no fim das contas, é um trabalho sobre ela mesma.

Não posso terminar o texto sem antes observar um pouquinho da minha experiência pessoal com The Miseducation of Lauryn Hill. Ouvi muito o disco durante toda minha adolescência e diversas vezes ao longo dos últimos anos, esporadicamente. Mas, nas últimas duas semanas, me preparando pra escrever o artigo, minha impressão é que só agora que finalmente “caiu a ficha” sobre o quanto esse álbum é incrível. Deixando todo meu gosto e predileção de lado, repito: Esse álbum é incrível.

É difícil conter o frio na barriga com a harpa no meio das batidas de Superstar (com sampler de The Doors) ou de When It Hurts so Bad (com destaque pro “Gave up my power” cantado com toda a emoção possível), ou não curtir o clima Gospel misturado às guitarras de Carlos Santana em To Zion. Além de tudo, ainda tem as pequenas vinhetas entre as músicas, encenadas como se um professor falasse com uma turma de sétima ou oitava série sobre amor, uma adição muito simpática ao todo.

E, mais encantador ainda, é ver como ela conseguiu orquestrar todos os elementos pra romper de vez com regras estéticas e não fazer um disco de Hip Hop ou de R&B, mas um primoroso álbum de música boa. Tão marcante que nem precisaria ter ganhado seus quatro Grammys pra entrar pra história.

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ARTISTA: Lauryn Hill
MARCADORES: Aniversário

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.