Led Zeppelin – “Houses of the Holy” e seus 40 anos de idade

As quatro décadas deste belo exemplar do Rock & Roll, o quinto álbum de estúdio da banda, merecem uma homenagem

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Como suceder um clássico? Como se manter no topo quando somente o céu parece ser o limite? Perguntas como estas talvez tenham passado na cabeça dos integrantes do Led Zeppelin quando se preparavam para o seu quinto álbum de estúdio, Houses of the Holy, que completa 40 anos no Hall da fama como uma das grandes obras do Rock & Roll.

O grupo já havia alcançado o status de “maior banda do mundo”, denominação dada por críticos e fãs na época, assim como o autor Mick Wall no livro-biografia Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra. Após o lançamento de Led Zeppelin IV, para muitos o melhor disco do grupo, todos imaginavam como eles poderiam lançar algo mais poderoso, emocionante e enérgico. É só pensar em três músicas do Led Zeppelin, agora, de cabeça. Quais vêm primeiro à sua mente? Posso estar errado, mas com certeza uma entre Rock and Roll, Stairway to Heaven e Black Dog deve aparecer. Todas estavam em IV, e logo você pode entender o “problema” que os ingleses enfrentavam para gravar Houses of the Holy.

Um velho ditado expressa que, “depois do topo só existe a queda”. Eu vejo este pensamento de forma diferente com o Led Zeppelin, pois, depois do topo, existe a possibilidade de se manter no topo pra sempre. Foi assim que álbum após álbum o grupo se negava a deixar o posto de “maior banda do mundo”.

Houses é uma virada do grupo rumo a produções ainda mais elaboradas, muito devido ao conhecimento acumulado por Jimmy Page ao longo de sua carreira. Vemos mais camadas nas músicas, incorporações de outros instrumentos – como o mellotron, um teclado que poderia utilizar sons pré-gravados em suas diversas teclas, algo como um sintetizador como o conhecemos hoje em dia. Uma última consideração: Houses foi o primeiro disco com somente faixas feitas pelo grupo, sem nenhum cover ou reimaginação de faixas de outros, algo usual em seus outros quatro álbuns.

A capa, uma série de crianças nuas de costas, foi inspirada em uma obra do autor de ficção-científica Arthur C. Clarke chamada o Fim da Infância. Polêmica, foi contestada em alguns mercados, como os EUA. O nome do disco foi inspirado nos fãs e nas diversas arenas e estádios em que o grupo costumava tocar, lugares sagrados na visão da Led Zeppelin e de seus seguidores. Curiosamente a faixa título da obra foi gravada no período, no entanto, foi deixada de lado para somente aparecer no sexto disco do grupo, Physical Graffiti. Mas chega de curiosidades e vamos aos motivos que fazem deste um dos melhores discos da história do Rock, e um dos mais diferentes, até então, na carreira do Led Zeppelin.

Começa com The Songs Remains the Same e dificilmente você não se emociona com a energia passada em cada riff. Jimmy Page acelera a introdução para depois pausá-la, enquanto o baixista John Paul Jones acompanha de forma melódica cada nota colacada na música. Tudo maravilhoso até o momento em que um solo um agressivo de Page parece jogar o ouvinte para mais um momento explosivo à la Black Dog. No entanto, tudo para e a canção se acalma com a voz única de Robert Plant. Ela é um turbilhão de emoções com transições rápidas e diversos solos diferentes em tempos opostos. E, sim, a música é a agressividade que você esperava. Tudo sai de um círculo e retorna a ele – ou, em outras palavras, estruturas musicais são desfeitas e depois reconstruídas.

Logo em seguida, duas baladas como poucas bandas conseguem fazer. Este era talvez o apelo musical do grupo e por que seus shows eram tão concorridos e comentados. Desde o Rock & Roll explosivo, que faz a sua veia saltar, até uma simples balada para abraçar a sua namorada, Led Zeppelin parecia saber dosar o ânimo de seus expectadores mas sempre os emocionando. The Rain Song é linda, com sua orquestração e um ótima linha de piano feita por Jones. As sensações vão se elevando assim como o volume da música. Camadas são colocadas cuidadosamente para um explosão ao final.

Over The Hills And Far Away é outra faixa que justifica o turbilhão de emoções feito pelo Led. Introdução folclórica e rápida no violão, imaginada como uma canção à beira de uma fogueira que conta a história de um homem sábio, Robert Plant. Em talvez uma de suas melhores letras, o vocalista diz: “Many times I’ve lied – Many times I’ve listened /Many times I’ve wondered how much there is to know”. Aqui, a balada se transforma do acústico para o elétrico, com todas aquelas quebradas do power trio Page, Jones e o baterista John Bonham, um sincronismo e entrosamento poucas vezes visto na música.

The Crunge é uma faixa jamais vista anteriormente. Funkzão, homenagem clara ao James Brown tem uma das melhores linhas de baixo de Jones e o uso do mellotron para reproduzir um instrumento de sopro. A clara referência ao Funk de Brown não vêm só na estrutura musical mas também nos diálogos e versos na música. Ao final Plant diz: “Excuse me Oh will you excuse me I’m just trying to find the bridge… Has anybody seen the bridge?”, de um jeito claramente influenciado pela música negra e no icônico rei do Funk.

O lado B tem a ótima Dancing Days e, se tem alguma coisa que os roqueiros nesta época faziam, assim como Led Zeppelin, era tocar ALTO. As caixas de som vistas em seus shows eram absurdamente grandes, valvuladas e tudo o que a indústria sonora pudesse oferecer de melhor e mais poderoso. Tente imaginar os riffs estridentes desta faixa clássica ao vivo e você pode ter uma sensação do que era este grupo na sua melhor fase. D’yer Mak’er é o Reggae do Led, influência da cultura Jamaicana no Reino Unido. Seu nome vem do sotaque e forma de falar dos jamaicanos, assim como a estrutura da música. Guitarra swingada, com uns riffs bem pausados e um baixo marcado. O engraçado é que, apesar de estar tocando um ritmo mais cadenciado, “suave”, o grupo não consegue tocar em níveis baixos. É só ver como Bonham detonar a bateria nesta “balada” do disco. Teclados caribenhos dão o toque a mais nesta inovadora faixa.

No Quarter já havia sido tocada muitas vezes ao vivo antes de ser gravada para este álbum de estúdio. Porém, ouvi-la bem produzida é outra coisa, pois vemos o que realmente o grupo queria realizar. Esta é talvez a faixa mais perto do Pink Floyd que o Led pode chegar. Introdução em um teclado que lembra o fundo do mar, tem também efeitos utilizados na voz de Plant e é (sim) uma das faixas mais psicodélicas do grupo. O piano tocado no meio da música é simplesmente lindo e lembra muito os momentos de Richard Wright no instrumento, assim como o solo Blues de Plant, em um tempo mais devagar, pausado, sentindo cada nota como o guitarrista David Gilmour sempre fez. Led Zeppelin encontra Pink Floyd em mais uma faixa diferenciada.

Sem antes terminar, vemos aqui uma canção clássica do grupo, The Ocean, mostrando tudo o que sabe fazer melhor. Bateria sendo destruída, seguida por um riff conjunto entre baixo e bateria, e a voz de Plant acompanhando tudo isso como um verdadeiro quarto instrumento. Aliás, o vocalista diz na letra: “Singing to an ocean, I can hear the ocean’s roar/Play for free, play for me and play a whole lot more, more!”. O oceano da faixa era a imensidão de fãs que os viam ao vivo em shows feitos em arenas e estádios do mundo. Um mar de gente e você pode ter a noção do que era ter visto um concerto do grupo. O riff final da faixa termina o disco com uma linda festa, com todo mundo sorrindo e dançando ao som da maior banda de rock de todos os tempos.

Houses of the Holy conseguiu fazer o que muitos duvidavam, a realização de um quinto álbum seguido com faixas clássicas, presentes em qualquer coletânea lançada posteriormente. Realmente, não dava pra duvidar do talento e da capacidade do Led Zeppelin e, se “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, poucos grupos conseguiram lidar com ambos ao mesmo tempo tão bem. Ao pensar que há 40 anos atrás, no mesmo ano, eram lançados The Dark Side of The Moon e Houses of the Holy em um espaço de um mês, quem sabe quais serão os clássicos contemporâneos que iremos lembrar com o mesmo entusiasmo em 40 anos? Uma coisa é certa, o Monkeybuzz estará cobrindo e resenhando todos.

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ARTISTA: Led Zeppelin
MARCADORES: Rock & Roll

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.