Lis Mc no controle

A rapper carioca fala sobre o corre de ser artista independente e ressalta como o hip-hop foi essencial para encontrar a sua vocação

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Fotos: @bmaisca

Lis Mc é sagacidade e estratégia. Aos 27 anos, a artista entendeu que essas são características essenciais para sobreviver, tanto na vida quanto na música. Criada entre o Complexo da Penha e o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, ela destaca a música e a arte como agentes essenciais para o seu desenvolvimento pessoal. A música me deu a possibilidade de ter um trabalho com o qual eu me identifico e que amo fazer de verdade”.

Com seis anos de carreira, Lis entendeu sua vocação para arte através das rodas culturais promovidas no Complexo do Alemão, onde mora atualmente e atua como produtora cultural. Incentivada pelas batalhas de rima e os saraus realizados no evento, ela criou suas primeiras poesias ritmadas e as incorporou em beats, dando espaço para os seus primeiros lançamentos musicais. Lis Mc tem em sua discografia o EP Infernal (2019), a mixtape Pequenas Empresas & Grandes Negócios (2024), e o disco $cambo (2024), feito em parceria com Matheus Coringa, que resultou no projeto paralelo com a carioca e o baiano tocando juntos. Além disso, Lis já colaborou com nomes como Sant, Febre 90s e participou dos festivais Cena 2K22 e Gigantes.

Conhecida como Mãe da FAC, por ser sempre a única mulher fixa nos estúdios em que trabalha, Lis tem uma lírica aguçada, com rimas que relatam o cotidiano, os problemas sociais e os desejos. Em Pequenas Empresas & Grandes Negócios, ela se juntou aos produtores Khamarinha, SonoTWS, Lilo Balão, OG Ácido, Levitã808, Lilo Balão e DIIGO, além de convocar nomes como Krika, Wizy K Og e Syg Sawer.

Na primeira faixa, “Negociações”, ela ressalta a sua habilidade na rima e a necessidade de escolher os parceiros certos para propagação das suas ideias. Em “Linha de Ataque” e “Balmin”, Lis apresenta o seu lado combativo e furioso. Ao passo que em “Meu Dom” expande sua autoconfiança, reforça a disparidade entre homens e mulheres na cena e destaca a importância do rap na sua vida: “Eu faço rap, não me prendo a gênero / Difícil é lidar só comigo mesmo / Eu só preciso do meu dom”

Artista independente e parte da nova geração à frente das rodas culturais do Complexo do Alemão, Lis contou como o hip-hop provocou o seu levante pessoal e foi responsável por transformar as rotas da vida. E ela quer mais.

Como a música surgiu na sua vida?

A música surgiu na minha vida através das rodas culturais. Sempre frequentei muitas rodas culturais e, depois de certo tempo, fui chamada para produzir a roda cultural da Zona Norte, e eu já fazia música nessa época. Foi muito turbulento. A música surgiu nesse tempo entre começar a produzir roda cultural e lançar meus trabalhos. Comecei escrevendo poesia e a roda cultural me ajudou muito com isso, eu vi que poderia fazer aquilo também, que poderia escrever músicas. Só vejo arte como um trabalho por causa disso.

Foi turbulento por juntar a produção com a sua carreira musical?

Também. Eu estava no momento inicial da minha carreira e antes tive uma vivência muito ruim na vida do crime. Quando voltei para o Rio de Janeiro, foi quando comecei a produzir roda cultural e eu faço até hoje. Eu estava para lançar o meu primeiro disco, acabei lançando, mas estava presa. Foi um momento bem turbulento, de se ajustar mesmo. Mas eu consegui sair, continuar tocando a roda e tocar o lançamento que tinha saído enquanto eu estava lá dentro.

Como a música e as rodas culturais te ajudaram nesse momento de mudança?

A música e o hip-hop mudaram a minha vida. Aprendi a viver coletivamente e trocar com essas pessoas. Aprendi a poder confiar nessas pessoas, que era uma coisa que eu ainda não tinha experimentado. A arte mudou a minha vida, senão eu ia até hoje, provavelmente, estar trabalhando em coisas erradas, ou em paradas que eu não me identifico. A música me deu a possibilidade de ter um trabalho com o qual eu me identifico e que amo fazer de verdade. É uma coisa minha que posso dar ao mundo, e posso receber de volta também. Com certeza mudou toda a minha vida. Inclusive, ser um agente da arte me ajudou a conseguir responder meu processo em liberdade. Eu consegui mostrar toda a minha mudança como pessoa.

Você falou que a roda foi o seu primeiro contato com a arte. Quais eram as principais atividades?

Sempre foi mais batalha. Até por isso, na roda que a gente organiza lá no Complexo do Alemão, tentamos sempre trazer coisas diferentes para que uma roda cultural não se limite só à batalha. Mas sempre me chamavam atenção por causa das batalhas de rima. E foi nesse momento que conheci o sarau de poesias e percebi que gosto de escrever poesias.

Você brinca muito com as palavras nas suas letras. Quando foi que você descobriu essa facilidade para lidar com elas?

Desde menor eu já criava umas músicas muito doidas, mas eu sempre achei que era coisa de criança. Quando comecei a escrever poesias para recitar nas batalhas e nos saraus, eu sempre criava elas com uma melodia. Era sempre uma poesia muito cantada. Nisso, fui tentando encaixar em beats e foi dando certo. O hip-hop foi me levando para esse caminho e foi me mostrando o lugar que eu me encaixava.

E quando você percebeu que era esse caminho que você queria?

Quando comecei a fazer música. Comecei com um coletivo dos meus amigos do Complexo da Penha, eles já batalhavam e montaram um coletivo. Nessa época, euestava escrevendo poesias e a gente sempre se juntava na praça para beber e cantar, daí que surgiu a ideia do coletivo. Ele não foi para frente porque muitas pessoas que não sabem nada de music business querendo fazer música é complicado. A partir disso, entendi que o coletivo não ia existir, mas que a Lis Mc ia continuar. Foi aí que pensei que era muito mais do que cantar na praça. Entendi que poderia fazer isso para pagar as minhas contas e eu amo fazer, então foi perfeito.

E foi aí que você lançou o EP Infernal, em 2019. Como foi a produção dele?

Foi muito planejamento e muita insegurança. Ia ser a minha estreia, por mais que tivesse 100% para mim, era uma coisa muito crua e muito imatura. Eu tinha chances de conquistar muita gente e chances de acabar com tudo ali mesmo no começo. Deu bastante certo. A única coisa mesmo que me quebrou durante Infernal foi a prisão, porque fui presa antes de lançar ele. E eu fiquei naquela de: “Nossa, o que vai ser de mim daqui para frente?”. Eu tinha acabado de começar uma carreira e ainda não produzia a roda cultural, só frequentava. Era um problema gigante. E durante a produção, eu tava querendo entender melhor as coisas. Então foi muito aprendizado, muita insegurança e depois muita aflição. Mas foi recompensador também, porque foi o trabalho que me ajudou a provar que eu era uma agente de cultura. O hip-hop me ajudou em tudo mesmo. Tem a minha mãe, que é uma querida, uma parceira. Mas o meu pai me criou a maior parte da vida. Durante essa prisão, ele foi mais do que essencial. Sem ele, com certeza, eu teria ruído. Meus amigos do estúdio também correram atrás de conseguir defensor e advogados. Eles conseguiram uma advogada que dava aula na UFRJ e participava do projeto Mulheres Encarceradas. Em troca de defender meu caso, eu seria um caso de estudo na faculdade. Foi assim que consegui responder o processo em liberdade. O processo acabou, se eu não me engano, no ano passado ou retrasado. E foi por causa da minha rede de apoio, meu pai e o hip-hop, com certeza. Se eu não tivesse esses pilares, eu ia estar lá até hoje, quem sabe.

(Foto: @vevemilk)

“A música me deu a possibilidade de ter um trabalho com o qual me identifico e que amo fazer de verdade. É uma coisa minha que posso dar ao mundo – e posso receber de volta também”

Muitas das suas letras falam sobre problemas sociais e o cotidiano. Como você acha que a música pode ser utilizada como essa ferramenta de protesto e propagação de ideias?

Gosto muito de contar sobre o cotidiano e falar sobre as coisas possíveis. O rap é de protesto e é de mensagem e seja qual for a mensagem, é importante saber transmitir. O rap nasce já como um protesto, como forma de expressar as mazelas sociais que a gente tem. E eu acho que era o único gênero que eu cabia naquele momento, justamente por ele ser criado para isso. Até quando a gente fala de ostentação e dos nossos anseios, é uma forma de protestar e dizer que a gente também pode ter coisa boa, também pode ser chique, pode andar na moda, ter coisas de alta postura e ter uma casa boa. Nós também merecemos tudo isso.

Em “Fútil”, você canta “Eu nunca vou ser a donzela em apuros / Se a casa cair, eu resolvo, eu juro”. Como é a sua relação com a vulnerabilidade?

Não posso ser vulnerável, não tenho essa opção. Tenho que pagar as contas, botar uma carreira para frente, mostrar para minha família que hip-hop é muito mais do que só estar cantando numa praça e mostrar que arte pode ser trabalho e salvar vidas, como salvou a minha. Quando falo que nunca vou ser uma donzela em apuros, é por causa do episódio da minha prisão, que não foi devido ao meu envolvimento com o tráfico, foi porque um homem me assediou sexualmente e eu o esfaqueei. Não posso estar dependente de um homem me bancando e decidindo coisas para mim. Não posso ser a pessoa que recebe na mão, que tem um marido cuidando das contas. Preciso ser a pessoa que resolve e não tenho tempo de ser salva por um príncipe. Inclusive, acho que se tivesse um homem tocando as minhas coisas, elas não seriam como têm sido. Então, é sobre não poder ser vulnerável, eu ainda não tenho esse tempo, espaço e direito.

Em “Inimiga do Estado”, você canta que “Aos sábados usamos ódio”. Como você lida com a sua raiva e ódio?

Fazendo muito rap sujíssimo. Quando tô querendo vomitar algo, geralmente, eu faço uma música muito agressiva. Foi assim que saiu “Inimiga do Estado”. Eu tinha acabado de sair da cadeira e eu precisava fazer uma música. Foi a minha primeira música depois que saí do presídio e ela destilou todo o ódio que eu tinha guardado naquele momento. A música me ajuda muito nisso, a dar voz ao que normalmente eu não posso falar. Não tem como eu chegar para um governador e falar tudo o que falo nessa música, mas lançar essas músicas ajuda a lidar com o que estou sentindo.

Em 2024 você lançou a mixtape Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Como surgiu esse trabalho?

PEGN vem num momento em que eu tentei ser agenciada duas vezes e não fluiu. Eu sempre fui independente, sempre fiz as minhas próprias paradas. Quando tentei fechar agenciamento, foi para deixar de me sobrecarregar com toda a burocracia de uma carreira e focar só em fazer músicas. Mas isso não aconteceu, eu continuei cuidando de tudo e tendo que dividir royalties com a produtora. Eu esperei o contrato acabar e quando ele acabou pensei em lançar uma coisa mais madura, uma Lis 2.0, que agora é daqui para melhor. Sinto que, nos trabalhos anteriores, eu estava aprendendo e me reconhecendo como MC. Aprendendo sobre mim, minha voz, o que gosto de falar, como gosto de cantar e como posso usar a minha voz. PEGN vem no momento em que eu já tenho o total controle da minha carreira e eu penso em fazer algo grande. Algo que eu consiga mostrar às pessoas que estou aqui fixa e não vou sair da cena. Pelo contrário, eu almejo espaços maiores dos que tenho agora. PEGN vem muito nesse intuito, de querer mostrar que posso chegar mais longe, e que vou buscar isso.

Como foi a produção da capa e a ideia de lançar em mídia física?

Amo mídia física! Na música com o Febre 90s ,eles lançaram fita cassete do nosso single. Pensei em lançar uma coisa física também. O vinil não foi uma possibilidade porque eu ainda não tenho tanto tempo de carreira para lançar um vinil. Sou da época do CD, sempre tive muito CD e DVD e gostava das capinhas internas, pôster ou brinde. Gosto muito disso no rap de antigamente, de fazer as coisas ao vivo, um lançamento aberto, ter algo para dar como brinde ou vender disco físico. Sempre pensei em fazer alguma coisa física e pela ordem cronológica da fita cassete, casou com a ideia de lançar um CD. A capa foi feita por um casal de grafiteiros, o Che e a Ana. Aí surgiu a ideia de fazer uma capa em animação, pegar essa ilustração e animar para fazer o audiovisual. Gosto muito de desenho, assisto até hoje, e queria trazer uma coisa diferente, uma estética suja, mas que conseguisse chegar em todo mundo, saísse da mesmice e que eu me identificasse.

“A música me ajuda muito nisso: a dar voz ao que normalmente eu não posso falar”

E ano passado você lançou $cambo, com o Matheus Coringa, e vocês estão rodando agora com esse show. Como surgiu essa parceria?

Conheci o Matheus pelo Brasil Grime Show. Eu já trabalho com o pessoal do BGS há um tempinho e tô sempre acompanhando. Eles lançaram um episódio do Matheus Coringa com o Victor Xamã e eu fui ver porque vi num teaser no Instagram e ele estava rimando loucamente. Eu pensei: ‘Esse maluco é maluco’. Vi o episódio e mandei uma mensagem para ele no Instagram. Mandei assim: ‘Eu vi o seu Brasil Grime Show agora e gostei muito do seu trabalho. Você é muito esquisito e rima muito esquisito, eu adorei você’. Ele me mandou mensagem e falou que já me seguia, mas como não segui ele de volta, ele me deu unfollow, mas que adorava o meu trabalho. A partir daí a gente marcou de se conhecer, fizemos uma música juntos, porque ele tava morando no Rio, e a partir dali a gente já tava planejando fazer mais. Fizemos duas músicas e percebemos que era muito maior e foi daí que nasceu “$cambo”, e a ideia de posteriormente o EP virar um duo. Tem sido muito louco, a gente nunca imagina que vai se conectar assim com alguém. É praticamente um casamento. Ele mora em São Paulo e eu moro no Rio, às vezes a gente discute e não consegue se comunicar muito bem. Mas, mesmo estando longe, estamos sempre fazendo de tudo para estar junto um do outro. É uma conexão incrível, é uma das maiores conexões que a música me deu. Amo esse cara, papo reto.

Recentemente você tocou no Festival Gigantes, do BK’, como foi se apresentar no evento?

Foi tudo! Foi muita correria. Eu já tinha feito o Cena, em 2022, mas sempre que chega uma grande participação e um grande show a gente se questiona da nossa capacidade. Mas entendi que isso é resultado de todo o trabalho que eu tenho feito. De tudo que planejei lá atrás, antes de lançar PEGN. Foi muita insegurança e muita felicidade, mas a certeza de que eu estava só colhendo fruto do que planejei.

E como você se sente em relação a esse momento da sua carreira?

Me sinto adulta. Me sinto muito feliz de ser uma produtora cultural e conseguir conciliar a minha produção artística. Conciliar esses dois mundos é bem complicado e corrido, mas tem dado certo. Nesse momento, em que vêm aparecendo várias oportunidades legais, penso que tenho conseguido fazer isso no meu tempo, do jeito certo e de acordo com a minha vontade. Tenho me sentido satisfeita, mas quero mais, quero bastante. Tenho conseguido atingir mais pessoas, mas é totalmente diferente se fosse um homem no meu lugar. Se fosse qualquer garoto no meu lugar, ele já estaria sendo super aplaudido, visto e super midiático. Eu tenho boas letras, não sou a melhor MC do Brasil ou do Rio de Janeiro, mas sou uma MC esforçada. Eu sou uma boa MC e me preocupo com isso. A única coisa que me mata é a disparidade, eu tenho que correr duas vezes mais do que qualquer outro homem do rap.

Além do reconhecimento, você está com sede do quê?

Quero muito conseguir através do meu trabalho uma estabilidade financeira maior. Eu consigo pagar as minhas contas e consigo sobreviver, mas eu quero viver de música. Não quero mais só ter o mínimo necessário para viver, quero conquistar isso através do meu trabalho, porque sei que é possível. Não quero mais só o mínimo, quero mais. Quero conquistar mais coisas para que eu possa dar mais oportunidades também. Produzindo Roda Cultural, eu crio um espaço para que as pessoas possam se identificar com a arte e ver a arte como um trabalho, assim como eu pude. Mas se eu conseguir montar o meu próprio estúdio, posso também dar oportunidade para outros MCs, como me deram e me dão oportunidade até hoje. Quero poder ter mais do que o mínimo para sobreviver, ter uma estabilidade maior a partir do meu trabalho com a arte para que eu consiga promover espaços culturais melhores e maiores, como eu tive.

 

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ARTISTA: Lis Mc