Quem veio para ficar

Aproveitando a virada da década, rankeamos 26 artistas que surgiram depois de 2010 e já se inscreveram na história da música

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Fotos: Petra Collins para 032c / Reprodução

O Monkeybuzz começou sua jornada em 2012 e tivemos a sorte de presenciar (em tempo real) o nascimento de variados talentos da música – do underground ao mainstream. E, durante nossas reuniões de pauta, o acordo sempre foi o de levar novos artistas até o público, atuando como aquele “macaco velho” que entrega em primeira mão o que acaba de despontar e merece ser ouvido.

Com o fim da década dobrando a esquina, nada mais justo do que rememorar o que foi pauta por aqui e causou impacto, cada um à sua maneira e peculiaridade, no imaginário popular. Nacional, internacional, Pop, Rock, Rap, R&B: tudo misturado e compartilhando aspectos que tornam uma obra simplesmente marcante. Além da originalidade e do talento que trouxeram frescor à música dos últimos 10 anos, consideramos apenas artistas cujo primeiro lançamento (EP, mixtape, álbum) apareceu a partir de 2010. Com dor no coração, excluímos, por exemplo, Kendrick Lamar, que já soltava projetos na praça em meados dos anos 2000.

Claro, é bem provável que um dia, em meio a um shuffle descompromissado ou a partir de uma memória repentina, pensemos: “putz, faltou esse”. Mas assumimos o risco: rankeamos 26 nomes que surgiram nessa década, vieram para ficar e, principalmente, encantaram os ouvidos do Monkeybuzz. 

26 – Lorde

Ela disse que não faria parte da realeza quando chegou e, talvez, exatamente por não ter a pretensão de chegar lá, foi rapidamente alçada a uma alta posição no olimpo do Pop mundial. A neozelandesa Lorde é dona de um talento surpreendente para a poesia e tem um faro musical aguçado para perceber o que vai ou não funcionar com seu público que desde o hit “Royals” a segue fielmente. Em 2017, ela lançou o disco Melodrama com a ajuda de Jack Antonoff na produção o que dividiu opiniões, mas, ainda assim, manteve o seu posto de princesa-dark da música Pop.

25 – Idles

Liderado pelo carismático e explosivo vocalista Joe Talbot, o Idles ressignificou o que uma banda de Rock poderia ser durante a década de 2010. A energia do Punk britânico ganha instrumentais que superam a ideia do peso pelo simples desejo de soar pesado e faz uso de pausas, supressões, além de envolventes linhas de baixo, que aumentam a sensação de urgência no som da banda de Bristol. Tudo isso cola que é uma beleza às críticas sociais sarcásticas desferidas nas letras. O cartão de visita veio com Brutalism, das incríveis “Mother” e “Well Done”, e a prova definitiva de que a raiva adolescente-adulta não era fogo de palha, mas, sim, um incêndio gigante, apareceu em Joy As An Act Of Resistance (da já clássica “Danny Nedelko”). Com o Idles, o Rock provou que ainda pode ser feliz, putaço e bom. 

24 – Mahmundi

Marcela Vale, a Mahmundi, tem apresentado um dos Pops mais consistentes do cenário nacional desde sua estreia no EP Efeito das Cores (2012). O revivalismo dos anos 1980, que até chega a remeter a Marina Lima, ganha novos e joviais ares, encontrando o AOR, o Lo-Fi e o Indie, com letras e astral que inspiram bons mergulhos em praias cariocas. Um dos melhores lançamentos nacionais de 2016 foi seu disco homônimo de estreia, que trouxe pérolas modernas do nosso Pop, como “Azul” e “Hit”. No ano passado, retornou sob uma grande gravadora com o disco Para Dias Ruins, no qual Mahmundi amplia suas influências e flerta mais intensamente com o Soul, a Dance Music e até o Reggae. O título não poderia ser mais apropriado, vide os enérgicos singles “Imagem” – uma contagiante homenagem ao Funk carioca dos anos 1990 – e “Qual É A Sua?”.

23 – Baco Exu do Blues

Foi difícil escapar de Baco Exu do Blues nos últimos três anos. Em 2016, aos 20 anos, o soteropolitano despontou na cena do Rap nacional com a diss “Sulícidio”, lançada ao lado do pernambucano Diomedes Chinaski. A faixa direcionada a MCs do eixo Rio-São Paulo gerou a atenção que Baco precisava para o trabalho de estreia: Esú (2017) caiu nas graças de público e crítica, escorado em um misto de raiva e vulnerabilidade, samples que vão de Novos Baianos a Arthur Verocai e inspirações em cantigas de escárnio, literatura e sexo. “Te Amo Disgraça”, grande hit do disco, trouxe o Pop que também guiou destaques do trabalho seguinte, Bluesman (2018), como “Me Desculpa Jay Z” e “Flamingos”. Com o novo disco, além de fazer a cabeça de uma ala intelectual meio órfão dos tempos de Nó Na Orelha (2011), Baco ganhou ainda mais apelo popular e se posicionou na linha de frente do atual Hip Hop brasileiro. 

22 – Tulipa Ruiz

Desde que surgiu com Efêmera (2010), seu disco de estreia, Tulipa Ruiz despontou como uma das vozes mais marcantes da música brasileira nessa década. A sutileza se alia à potência de maneira natural e, com ecos de Baby Consuelo e Gal Costa, a paulista nascida em Santos assinou alguns dos êxitos que repaginaram a MPB recente, como “Só Sei Dançar Com Você”, além da própria “Efêmera”. Em Tudo Tanto (2012) e Dancê (2015), ela aprimorou ainda mais sua vocação Pop, elevou alguns BPMs e entregou novas joias, como “É” e “Proporcional”, para depois desacelerar em Tu (2017), disco que une canções inéditas e releituras de gravações anteriores, baseadas em violão e percussão. Com quatro belos trabalhos em poucos mais de sete anos, Tulipa é dona de uma das obras brasileiras mais sólidas dos anos 2010. 

21 – Angel Olsen

É possível se apoiar na música de Angel Olsen por uma simples razão: a cantora e compositora norte-americana é capaz de se apoiar sozinha, sem a ajuda de ninguém. As músicas de seus dois mais importantes discos até então (My Woman, 2016 e All Mirrors, 2019) atravessam lugares sombrios com seu Folk bem instrumentado e plural, mas ela não tomba em nenhum momento. Olsen fala de lutas internas no caminho difícil do autoconhecimento em suas faixas e é com esse ímpeto que ela se torna cada vez mais relevante em um mundo desesperado por tentar se conhecer um pouco melhor.

20 – Tássia Reis

Em meio ao predomínio dos homens, Tássia Reis é uma das vozes femininas mais notáveis e importantes da nova safra do Rap nacional. E ela também é muito mais do que isso: seu talento transcende com sobras as habilidades com a rima e ela navega tranquila pelo R&B, o Soul, o Pop e ritmos brasileiros. Ouvir um disco da paulista nascida em Jacareí é notar influências de Erykah Badu e Lauryn Hill, mas é também sentir uma autenticidade que extrapola comparações. Em seu EP de estreia, lançado em 2014, ou em Outra Esfera (2016), seu primeiro disco cheio, ela já demonstra a amplitude vocal e a variação de timbres permeando as rimas sob o flow envolvente. Mas, neste ano, ela elevou ainda mais o nível com o excelente Próspera (2019), uma viagem instigante e prazerosa por toda as influências que compõem a arte de Tássia. Seja modernizando, como no Trap-Peso-Pesado “Dollar Euro”, celebrando influências baduístas em “Eu + Vc”, ou se embebedando de Prince e D’Angelo na faixa-título, o mundo de Tássia é musicalidade até o talo e ainda nos brinda com uma poesia carismática e sagaz. 

19 – SZA

Djamila Ribeiro, a filósofa, escritora e colunista brasileira, com frequência chama-nos atenção para uma cobrança que parece sondar o estereótipo da mulher negra: o de que ela é uma super-heroína. Cuida dos filhos, trabalha, “é guerreira”, “vai à luta”. Ao passo que pouco se fala de seus sentimentos, seus amores e desamores, sua saúde mental, sua energia emocional… É indo na contramão desse fluxo que chegou o disco Ctrl da norte-americana SZA, em 2017. Ali, ela disseca suas tristezas, insatisfações, posturas tóxicas, falta de força. Ao admitir certas fraquezas, a cantora de Hip Hop que flerta com o Trap em alguns momentos expande o repertório representativo da mulher negra ao passo que também se afirma nesta década como uma das jovens mais sagazes de sua geração.

18 – Liniker

Em 2015, Liniker decidiu se juntar em uma sala com alguns amigos e gravar uma música para colocar no YouTube. A canção em questão era “Zero” e esse vídeo, atualmente, já passou a marca de 18 milhões de visualizações. O motivo do hype, evidentemente, é a interpretação corporal, enérgica e poderosa da cantora que desdobra a sua voz sem medo de mostrar seus sentimentos em cada nota que alcança. Depois disso, veio o LP Remonta, no ano seguinte. Com hits como “Caêu”, “Tua” e “BoxOkê”, ela continuou surpreendendo em suas apresentações ao vivo cheias de improviso e Soul. Namorando o R&B, o Funk norte-americano e vozes negras históricas como a de Whitney Houston, a cantora colocou sua garganta no hall das mais especiais da música contemporânea brasileira com uma carreira que ainda nem completou cinco anos.

17 – O Terno

Desde que se juntou para tocar covers de bandas como The Kinks e Mutantes, o trio liderado pelo talentoso Tim Bernardes, aos poucos, despontou como um dos representantes mais interessantes do Rock nacional nessa década. O primeiro disco, 66 (2012), além de composições próprias – destaque para faixa-título –, traz releituras de canções de Maurício Pereira (pai de Tim) e de seu antigo grupo, Os Mulheres Negras. Já com mais tutano e identidade própria, o trabalho homônimo lançado em 2014 assegurou o lugar da banda entre os queridinhos do Rock Alternativo brasileiro, impulsionada por canções como “Ai, Ai, Como Eu Me Iludo” e “Eu Confesso”. O trio retornou ainda melhor em – não por acaso intitulado – Melhor Do Que Parece (2016), adicionando linhas de metais, teclas e mini-orquestras que besuntam ótimas composições de Tim Bernardes, como a lindíssima “Volta”, a bem-humorada “Culpa” e a nostálgica “Minas Gerais”. A ambivalência entre o revivalismo, que vai da psicodelia ao tropicalismo, e a atualidade, sabendo conversar com gerações que descobrem o Rock nacional agora, seguiu certeira em < atrás / além > (2019). 

16 – Ana Frango Elétrico

Quando Mormaço Queima surgiu no ano passado, já sabíamos que o projeto carioca Ana Frango Elétrico seria um dos nomes de peso da música experimental brasileira em pouco tempo. Dito e feito. Depois conquistar os ouvintes por suas ousadias na guitarra com o disco de 2018, a jovem artista lançou Little Electric Chicken Heart que até ganhou resenha (e notão) do crítico norte-americano Anthony Fantano, dono do canal The Needle Drop no YouTube. Nesta segunda investida, Ana firma os passos que começou a dar com seu debut ao mesmo tempo que toma uma postura mais ativa na interpretação das canções, colocando sua voz para jogo de uma vez por todas. Em entrevista ao Monkeybuzz, ela explica: “O Mormaço Queima era o disco de uma anti-cantora. O LECH é o meu ‘disco de intérprete’”. Com referências que vão do classudo Burt Bacharach a nossa incensada Rita Lee, Ana Frango Elétrico tornou-se um dos expoentes do experimentalismo Pop no Brasil e é por isso que o seu lugar está garantido nesta lista.

15 – Cardi B

É simplesmente impossível falar do Rap nessa década e não mencionar Cardi B. A nova-iorquina criada na parte sul do Bronx tomou a cena de assalto aliando o carisma de uma celebridade 100% inserida ao mundo digital à agressividade que faz lembrar os momentos mais raivosos de Lil’ Kim. O resultado: hit atrás de hit, like atrás de like. A artista soltou mixtapes e singles que chamaram atenção entre 2015 e 2016, mas foi com o hit estrondoso “Bodak Yellow”, em 2017, que ela derrubou as portas do mainstream. Colocando novamente uma rapper feminina no topo do Hot 100 após quase 20 anos, a faixa foi o carro-chefe de Invasion Of Privacy, trabalho oficial de estreia de Cardi. O ótimo disco rendeu outro nº 1 no ranking de singles, o Trap-Salsa arrasador “I Like It”, e ainda garantiu o gramofone de Melhor Álbum de Rap para uma rapper solo pela primeira vez no Grammy. Ela coleciona colaborações exitosas com estrelas do mundo Pop, como Bruno Mars e Maroon 5, sem perder a aura de (já) ícone do Rap entre seus pares. Entre a franqueza total e a caricatura – que não deixa de ser honesta –, Cardi B encarna a fórmula infalível no show biz atual: música da boa e entretenimento do bom. 

14 – Luiza Lian

Desde 2015, a paulistana Luiza Lian vem capitaneando uma reconexão dos millennials e da geração Z com sua espiritualidade. Em seu primeiro disco, homônimo, ela se valia do Rock misturado com ritmos brasileiros e um toque de Psicodelia para espalhar sua palavra. Depois, em Oyá Tempo, excelente LP de 2017, ela mergulhou em um momento mais eletrônico e modernizou radicalmente o seu som de modo a alcançar mais pessoas com seu discurso que, na época, já tomava mais corpo no zeitgeist. 

Nos últimos anos, quem não estava dormindo percebeu que houve uma guinada grave da juventude rumo ao mundo do ocultismo e do esotérico. As razões para essa tendência ter tomado tal proporção são muitas: ansiedade coletiva cada vez mais popular, instituições religiosas ruindo, um resgate necessário de cura interior… Seria incorreto dizer que Lian surfa nesta onda. Pelo contrário, a jovem cantora e compositora é um agente ativo dela. Por meio de sua música que atualmente, com Azul Moderno (2018), encontrou um equilíbrio sábio no contraste de uma MPB acústica com timbres eletrônicos poderosos, ela toca fundo no peito e faz mais sentido do que nunca.

13 – Alabama Shakes

São poucas as bandas que, como o Alabama Shakes, conseguem fazer um som ao mesmo tempo revivalista e contemporâneo. Não é sempre que vemos alguém conseguir unir os dois pólos desse paradoxo com tanta assertividade quanto a banda norte-americana composta atualmente pela extraordinária cantora e guitarrista Brittany Howard (que, neste ano, ainda nos presenteou com um lindo disco solo), Heath Fogg (guitarra), Zac Cockrell (baixo) e Steve Johnson (bateria). Basta ouvir o hit “Hold On” para entender do que estamos falando. Pertencente ao disco Boys & Girls (2012), que rendeu até indicação ao Grammy para o grupo, a faixa une a potência vocal de Howard com um fundo instrumental que mistura Blues e Soul de um jeito que a década ainda não tinha visto. Em Sound & Color, de 2015, eles mantêm o jeito vintage de encarar sua sonoridade, mas cavam ainda mais o seu espaço na linha do tempo desses gêneros clássicos da música popular ao intensificarem a dramaticidade de suas músicas. Exemplo disso são as poderosas “Don’t Wanna Fight” e “Miss You” que se equilibram entre delicadeza e agressividade com maestria. Por fim, vale lembrar que tudo isso está embalsamado pela perspectiva de uma mulher cujo corpo foge do padrão “rockstar” e é desse lugar, desse ponto de vista ironicamente pouco visto que vêm essas canções avassaladoras.

12 – Chance The Rapper

Entre os protegidos de Kanye West, o mais notável dessa década foi sem dúvida Chance The Rapper. O jovem de Chicago encontrou vocação para as rimas em eventos de microfone aberto em bibliotecas da cidade natal e descobriu a paixão pelo Rap ao ouvir The College Dropout (2004). Entre um EP e outro, o primeiro projeto a fazer barulho foi 10 Day (2012), mixtape que prenuncia algumas das qualidades de Chance: flow imprevísvel, voz áspera, produções baseadas em trompete e uma personalidade que flutua entre o Garoto Mais Drogado do Bairro e o Queridinho Da Mamãe. Essas dimensões foram ainda melhor exploradas e se uniram como mágica em Acid Rap, mixtape lançada em 2013. De “Good Ass Intro”, uma explosão baseada no chamado Chicago Juke, a Chain Smoker”, inspirada em Prince, cada faixa de Acid Rap traz o que torna Chance tão especial: uma inconfundível assinatura em tintas fortes. 

Para dobrar a aposta, ele posicionou seu caleidoscópio sobre a espiritualidade e se voltou às raízes Gospel, lançando The Coloring Book (2016). Amparado pelo hit “No Problem”, a encantadora “Blessings”, a nostálgica “Same Drugs” e a festiva “Finish Line”, o projeto levou o Grammy de Melhor Álbum de Rap e rendeu o gramofone de Revelação a Chance. E somado ao verso desferido por ele em “Ultralight Beam”, de Kanye West, provou que sua caneta continuava afiada na fase espiritual. Em The Big Day, disco lançado esse ano, ele reuniu astros como Nicki Minaj, John Legend e Shawn Mendes, mas o resultado é bem menos memorável. Nada que ofusque a caminhada brilhante que Chance trilhou durante a década. 

11 – Billie Eilish

Os wunderkind são sempre meio assustadores. O termo em alemão serve para designar jovens prodígios e cabe perfeitamente na norte-americana Billie Eilish que com apenas 16 anos foi capaz de lançar sua carreira com um disco tão bom que garantiu o seu espaço nesta lista (e seis indicações ao Grammy, claro). No caso dela, o susto vem por vários lados. Primeiro, obviamente, pela qualidade da produção de WHEN WE FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?. Parece impossível que alguém tão jovem possa assinar um trabalho tão contraditoriamente maduro. Depois, a temática e a estética visual do LP também se esmeram para dar sustos em quem se pretende a mergulhar na obra de Eilish. Os clipes atualizam o gótico, as roupas largas são o avesso das divas Pop e as músicas, é claro, contornam todo esse cenário com beats tortos e melodias melancólicas.

Elas falam de ansiedade crônica, de amores não correspondidos, de pesadelos inesquecíveis, ao mesmo tempo em que misturam gêneros como Pop, Trap e EDM. É o caso de faixas sagazes como “bury a friend” e “bad guy” que exemplificam tão bem as tonalidades da jovem cantora e compositora. É nesse combo de um vocal delicado rodeado por uma sonoridade Pop obscura com toques de ironia que Eilish parece cravar suas unhas (hiper-estilosas) no cenário musical desta década. Ela é o ensaio de um futuro incrível e, portanto, um presente importante de ser notado.

10 – Anderson .Paak

Infelizmente Anderson .Paak apareceu para o mundo com um leve atraso. Entre EPs e mixtapes, o ex-músico-de-casamento-que-tocava-Bruno-Mars-e-Michael-Jackson lançou seu disco de estreia, Venice, em 2014, e passou despercebido – ainda que com segredos escondidos como “Might Be”. Mas o mainstream às vezes é justo: Malibu, que chegou ao mercado dois anos depois, apresentou o impressionante talento do californiano ao mundo, por meio de uma viagem que reverbera de Stevie Wonder a Kendrick Lamar, de Jamiroquai a CeeLo Green ou que simplesmente é a cara de Anderson .Paak. A habilidade como baterista e a química com o grupo The Free National se unem à versatilidade de um rapper que também é crooner, rendendo pérolas como “The Bird”, “The Season/Carry Me” e “Come Down”. 

Indicado ao Grammy de Revelação do Ano, .Paak ainda mergulhou na faceta de MC em Yes Lawd!, do NxWorries – projeto colaborativo com o produtor Knxowledge –, antes de soltar outro disco de inéditas. Oxnard chegou ao mercado em 2018 e traz participações estreladas, como Snoop Dogg (“Anywhere”), J Cole (“Trippy”), além do próprio Kendrick (“Tints”). Poucos meses depois, ele voltou de surpresa com Ventura (2019), que comprovou sua intimidade pelo melhor dos dois mundos, convocando gente do calibre de André 3000 e Smokey Robinson para a dança. .Paak precisou de poucos anos para demonstrar ser provavelmente o rapper mais músico de todos os tempos. Uma aula pode ser vista em sua memorável e hipnotizante apresentação no Tiny Desk Concert, o vídeo mais visto da história do canal NPR, com mais de 42 milhões de visualizações. 

9 – Courtney Barnett

Com uma visão poética e bem-humorada das angústias mundanas, Courtney Barnett surgiu como uma prova de que o Rock não precisa necessariamente se reinventar para cativar novas gerações. A australiana criada em Melbourne fez sua estreia em 2012, com o EP I’ve Got A Friend Called Emily Ferris, mas puxou os holofotes hipsters de vez ao lançar o single “Avant Gardener”, no ano seguinte. Influências do Folk e do Rock Alternativo noventista serviram como cama perfeita para Courtney entoar, na voz impassível que se tornou sua marca registrada, versos sobre inadequação e, ao mesmo tempo, cumplicidade para quem se sente como ela. A faixa foi o carro-chefe de The Double EP: A Sea of Split Peas (2013), projeto que compilou canções anteriores de sua carreira e, munido de outros momentos slackers-afetuosos como a bela “Anonymous Club”, deu amostras do que estava por vir. 

Rendendo uma indicação ao Grammy de Revelação do Ano, Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit, lançado em março de 2015, foi um dos melhores discos daquele ano. A habilidade de mesclar influências de grupos como Nirvana e Pavement a uma personalidade em sintonia com o mundo pós-moderno produziu canções que soam familiares e originais, de uma só vez, como a pesada “History Eraser” ou a redentora e nostálgica “Depreston”. Após uma descompromissada e divertida reunião com Kurt Ville em Lotta Sea Lice (2017), ela apareceu um pouco mais agressiva em Tell Me How You Realy Feel, uma bem-sucedida mudança de tom. Entre a velocidade e a letargia, Courtney defende um Indie Rock que rejeita o caráter blasé e que é cínico apenas se, ao fim do dia, o efeito causado for o de nos tornar um pouquinho mais humanos. 

8 – Djonga

Não é exagero de dizer que, de uns três anos para cá, Djonga assumiu o cargo de maquinista do bonde do Rap nacional. Desde que soltou um verso incendiário em “Diáspora”, faixa dividida com o DV Tribo (coletivo a qual pertencem outros talentos mineiros como FBC, Clara Lima e Hot & Oreia), o rapper seguiu numa escalada veloz e brilhante. O primeiro disco cheio, Heresia (2017), homenageia o Clube da Esquina na capa, mas seu conteúdo é muito mais raivoso e incisivo do que o som de Minas Gerais de outrora. “Esquimó” e “O Mundo É Nosso”, parceria com Bk’, são alguns dos exemplos da poesia de Djonga que une agressividade, deboche, carisma e crítica social, com rara competência. Antes de retornar com outro álbum de inéditas, ele soltou “Olho de Tigre”, uma voadora no mito da democracia racial que já se tornou um clássico do Rap nacional.

O Menino Que Queria Ser Deus (2018) chegou com as habilidades de Djonga ainda mais apuradas e sob produções de Boom Bap jazzeado (“Solto”), picotes de sample precisos (“Corra!”) e influências do Trap (“Ufa”). Em meio a singles de sucesso como “Yeah” e “A Música da Mãe”, o rapper manteve a média de um álbum por ano com Ladrão, um dos lançamentos mais comentados de 2019. Seja falando sério, como em “Hat Trick”, ou flertando com a safadeza romântica, como em “Tipo”, Djonga flutua com tranquilidade pelo Rap de Mensagem e pelas pistas, angaria admiração de fãs de Hip Hop mais radicais e é figura bem-sucedida comercialmente. Nessa década, fez a cabeça dos kitados de Supreme e de Mano Brown. 

7 – BaianaSystem

Resultado da união entre a voz vibrante de Russo Passapusso, a guitarra baiana de Roberto Barreto e as pirações digitais de SekoBass, o BaianaSystem foi responsável por alguns dos shows nacionais mais marcantes dessa década. E as performances arrebatadoras têm sua razão de ser na fusão explosiva criada em estúdio. Ainda que com participação de nomes como BNegão e Lucas Santana, o disco homônimo de estreia dos soteropolitanos não se espalhou pelo Brasil lá nos idos de 2010. Entre EPs e singles seguintes, o som camaleônico que viaja do Dub ao Rap, do Ijexá ao Reggae – sempre com ecos baianos inconfundíveis –, redundou no incrível Duas Cidades (2016). Produzido por Daniel Ganjaman, o álbum se tornou um marco da produção nacional na década ao mesclar sofisticação a apelo popular, comentários sociais e auto permissão ao divertimento. E, de forma similar, sua produção traz complexidade, sem perder seu caráter direto e reto na explosão de um bom refrão – como são os casos de “Playsom” e “Lucro”. 

Após soltar Outras Cidades (2017), com remixes do projeto anterior, Passapusso e seus comparsas entraram em estúdio novamente para gravar O Futuro Não Demora (2019). Mais uma vez produzido por Ganjaman, o álbum amplia os horizontes do grupo e, com a mapa de volta para casa debaixo do braço, puxa a América Latina e a África para dançar. O saldo são novas envolventes composições – como “Sulamericano” (ao lado de Manu Chao) e “Bola de Cristal” – que mostram o segredo do BaianaSystem, tão fundamental no Brasil de hoje: a diversão também é uma forma de traçar vários planos para poder contra-atacar. 

6 – Boogarins

A magia do Boogarins é que, a cada lançamento, os goianos confundem mais e mais aqueles que insistem em enquadrá-los na caixinha da psicodelia. É verdade que o projeto de estreia, As Plantas Que Curam (2013), remete a Mutantes, mas já de cara expandiu o conceito por meio de uma destreza Pop, demonstrada em faixas como “Lucifernandis” e “Doce” – pedidas à exaustão nos shows, agora que a banda, três discos depois, atravessou o mundo em festivais como Coachella e Primavera Sound. Depois do aperitivo, o grupo azeitou a mescla entre a tal psicodelia, influências de Clube da Esquina e empréstimos do Stoner Rock, em Manual (2015). A voz de Dinho se camufla, como mais um instrumento, à guitarra atmosférica de Benke, ao baixo econômico de Fefel e à bateria ora furiosa, ora serena de Ynaiã. Canções como “Avalanche”, “Tempo” e “Cuerdo” cativaram uma legião de fãs e aumentaram a expectativa para os passos seguintes.

A resposta veio com a lisergia sombria em Lá Vem A Morte (2017), projeto mais experimental do grupo, mas que, mais uma vez, resguarda um frescor Pop dos mais sedutores, como é sentido em “Foi Mal” ou “Onda Negra”. Deixando um pouco as colagens e experimentações eletrônicas de lado, o grupo retornou com Sombrou Dúvida (2019), uma viagem mais clean, que chega a flertar com o Dream Pop, mas ainda assim uma bela viagem. “Tropicália Vintage”, “Tame Impala brasileiro”, foram muitas as designações que o Boogarins recebeu nessa década, mas a verdade é mais simples: há muito tempo o Rock nacional não apresentava algo – cantando em português, ainda por cima – que combinasse tanto com aquele famoso passeio de bicicleta dado por Albert Hoffman, em 1943. 

5 – Brockhampton

Em 2015, diretamente de San Marcos (Texas), o Brockhampton surgiu, como não poderia deixar de ser, da maneira mais condizente com o século 21: em um fórum de discussão sobre Kanye West. O coletivo formado por jovens de 20 e poucos anos trouxe uma sintomática autossuficiência para se lançar, agregando cantores, MCs, designers, produtores, fotógrafos e empresários em uma só missão. Sob tutela do líder e símbolo Kevin Abstract, a autointitulada boyband lançou a mixtape All-American Trash (2016), que, embora promissora, passou batida pelo mundo do Rap. Mas a fase brilhante e alucinante, que credenciou o Brockhampton a ocupar o nosso 5º lugar estava por vir.

Morando todos juntos, os garotos gravaram e lançaram a impressionante trilogia Saturation (2017), em menos de um ano. Cada disco trazia uma mescla arrebatadora de habilidades, seja nos versos de Ameer Van e Dom McLennon, na competência para ganchos contagiantes de Kevin, no alcance vocal de Bearface, no talento imprevisível de Joba ou nas produções versáteis de Romil. E mais: além da trilogia unir diferentes gêneros, do Rap ao Emo, do Indie ao Rap Industrial, ela absorve o zeitgeist com precisão, abordando angústias geracionais, temáticas LGBT e saúde mental. “Sweet”, “Gold”, “Swamp” e “Bleach” elevaram o reconhecimento do grupo de amigos, que colocou Iridescence (2018) – lançado após a conturbada saída de Ameer – direto no topo do Billboard 200. O ritmo continua frenético e, em 2019, o melancólico Ginger chegou ao mercado, trazendo novas pérolas como “Sugar” e “If You Pray Right”. Em uma velocidade vertiginosa, o Brockhampton provou que um produto de nossos tempos pode vir acompanhado de uma ebulição criativa deslumbrante. 

4 – Mitski

Atualmente, quem ouve as canções melancólicas da norte-americana com descendência japonesa Mitski não imagina que sua adolescência foi regada a divas Pop como Mariah Carey, Christina Aguilera e Britney Spears. Foi quando ela descobriu Björk, M.I.A. e Jeff Buckley que a jovem artista entendeu que poderia ser quem quisesse na música. Desvendar sua própria personalidade, aliás, é um dos temas centrais da obra desta cantora e compositora que passou toda a sua infância e adolescência inventando personagens para si mesma. Isso porque ela se mudou inúmeras vezes de país: morou na Malásia, no Japão, na República Tcheca, na Turquia… E, a cada mudança, tinha a oportunidade ingrata de se transformar completamente. Foram os filmes de Hayao Miyazaki que esboçaram para Mitski como devem ser alguns vínculos sociais que, até ali, ela não teve a oportunidade de viver. É sobre esses dilemas que tratam seus primeiros registros musicais, principalmente o debut Lush de 2012. Hoje, dez mil vezes mais segura de si, ela toma as rédeas de sua própria vida e seu último disco Be The Cowboy (2018) parece ser sua inscrição nessa nova fase. Isso, é claro, olhando para o seu passado com orgulho e com a compreensão de quem enxerga os fatos agora de um novo ângulo. De alguma forma, Mitski resume em seu Rock Alternativo o sentimento de um outsider que, ao invés de revoltar-se como a maioria dos roqueiros clássicos fazem, se entristece e encara essa tristeza. Com medo, com tudo. E é por essas e outras ousadias que ela garantiu esta posição nesta lista.

3 – Rosalía

Diferente da maioria dos selecionados desta lista, Rosalía começou sua carreira oficialmente na segunda metade da década e tem apenas dois LPs assinados por ela. Eles são Los Ángeles (2017) e El Mal Querer (2018) e é impressionante ver a trajetória e a evolução da jovem espanhola em tão pouco tempo. O debut já chegou com tudo: um bom disco de Flamenco que respeita o ritmo tradicional espanhol ao passo que não hesita em modernizá-lo. É um contato da jovem millennial (Rosalía nasceu no dia 25 de setembro de 1993 [Libriana, diga-se de passagem]) com suas raízes que, desde muito tempo, são celebradas por ela que já foi até professora de Flamenco. Ainda assim, o salto do acústico Los Ángeles para o megalomaníaco El Mal Querer é nítido. Tanto se fala hoje da mistura entre o local e o global (nessa infame rima do mundo dos negócios), mas esse paralelo se aplica perfeitamente à cantora que, com estes dois discos, conseguiu ao mesmo tempo honrar sua cultura e levá-la para o mundo todo com um álbum que, para além misturar o gênero com mil elementos da música contemporânea, ainda detém um simbolismo feroz e, claro, dramático.

Inspirada na novela “Flamenca”, do século XIII, a cantora e compositora dividiu o seu disco em capítulos. Assim, trata-se de uma narrativa com uma estrutura que, de fato, assemelha-se com a dos livros. Ela começa falando de maus presságios, reencena um casamento de um jeito mais humano (levando em consideração os benefícios e os sacrifícios envolvidos nesse tipo de compromisso), assume os ciúmes e, daí por diante, em diferentes momentos, se abre, se derrete, se mortifica, se ataca e se cura em um disco que conta uma história de amor digna dos filmes mais românticos de Pedro Almodóvar. De quem, aliás, ela é amiga. Em Dor e Glória (2019), filme mais recente do icônico diretor espanhol ela não só faz parte da trilha como também tem uma rápida aparição logo no começo do longa-metragem. Com El Mal Querer, Rosalía colocou o planeta em suas mãos e lembrou a todos de que é com coração cheio da nossa própria cultura, dos nossos próprios desejos e com as nossas próprias dores que conseguimos criar uma obra-prima, tocar o zeitgeist e, no limite, sermos de fato ouvidos.

2 – Metá Metá

Entre os méritos do trio formado por Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci está a capacidade de dosar silêncios. É com essa ferramenta quase mágica que o Metá Metá (nome que significa “três em um” em iorubá) criou uma das sonoridades mais interessantes da música brasileira contemporânea. Em seu misto de Jazz, Samba, Rock e ritmos africanos, a banda destila poesias refinadas. Quando falam de amor, equiparam esse fenômeno interpessoal com o impulso criativo que move o artista em um exercício metalinguístico que não cai em armadilhas simplistas ou trapaceiras. Quando falam de história, escolhem o caminho da mediação dos conteúdos e colocam-se como um terceiro que analisa o curso que tomou a humanidade (tanto na vida privada quanto em sociedade) com sagacidade e amplitude. A voz da extraordinária Juçara Marçal é que se encarrega da entrega dessas mensagens poderosas que, entornadas pelas ausências criadas pelos outros dois terços do grupo é catapultada até o ouvinte que não escapa de seus enleios.

A fórmula do Metá Metá engana. É simples em estrutura (guitarra, saxofone e voz), mas explode em alguns momentos em que os sons se confundem. É como uma avalanche sonora, dá para sentir o suor por trás das notas quando vem a “barulheira”. Assim, a banda não toca para ouvidos de porcelana. Quem aceita o desafio de encarar um disco do trio tem que se desassociar do comum e abrir-se para novas complexidades. Até porque, em vista do que está sendo dito nas letras das músicas, outra sonoridade (mais leve, mais delicada, mais convencional) não faria o menor sentido. Já em “Vias de Fato”, do primeiro disco Metá Metá (2011), anuncia-se a insubordinação do grupo: “Vias de fato aos pés de quem/ Desrespeitou sinais e atravessou ileso/ Decidiu flutuar, quis se plantar de peso/ Quando a noite cansar e a luz brotar à esmo/ Sigo o meu caminhar, nunca amanheço o mesmo”. Isso depois de uma espécie de comunhão com o “nada” que faz lembrar A Paixão Segundo G.H. (1964) de Clarice Lispector: “No breu, sigo só/ E o corpo no espaço é bom/ Me alimento desse breu/ Já nem sinto quem sou eu/ Noturno, fugaz”.

Nos LPs que seguiram, o Metá Metá continuou crescendo. Com isso, quero dizer que não há graves cisões musicais entre os registros do grupo. É como se eles estivessem compondo um grande único disco. Metal Metal (2012) trabalha sobre a mesma base do debut, mas chega mais agressivo e acena ainda mais para a música africana e suas línguas. MM3 (2016), por sua vez, já tem esse nome que parece dar fim a esta que é uma das trilogias mais interessantes da MPB ao passo que expande o léxico da banda e dá margem a ainda mais experimentações. Sem contar os infinitos projetos dos integrantes do grupo para fora do Metá Metá que vão desde blocos de Carnaval (é o caso da Charanga do França, de Thiago França) a colaborações históricas como a com Elza Soares que rendeu o clássico instantâneo Mulher do Fim do Mundo (2015). E é exatamente essa extraordinária consistência somada à pluralidade de investidas que justifica a posição do Metá Metá nesta lista.

1 – Frank Ocean

O que torna Frank Ocean tão especial a ponto de merecer o 1º lugar? Entre todos os excelentes artistas e bandas citados aqui, acreditamos que ele é aquele que mais representa a ideia e promove o fascínio de um… ídolo. E por motivos que vão muito além de sua (maravilhosa) música. 

Desde que apareceu para o mundo como parte do Odd Future, o ex-Christopher Breaux – que, à época, já havia sido compositor-fantasma de gente como John Legend e Justin Bieber – demonstrava algo de especial. Em meio às excentricidades do coletivo liderado por Tyler, The Creator, o tímido cantor chamava atenção pelo talento vocal, dos agudos aos graves, e por conta de melodias que transcendiam o R&B e revelavam uma faceta Pop aos moldes de James Taylor e Paul McCartney. Além da contagiante forma de rimar que se aproximava de uma poesia sendo recitada. Em “Oldie”, que reúne todos os integrantes do OFWGKTA, é possível perceber: até seus amigos ficam empolgados quando ele se materializa, Lo-Fi e cool, para cantar sua parte.  

O primeiro lançamento solo, a mixtape Nostalgia Ultra (2011), dá mostras da aglutinação de suas qualidades, em canções como “Swim Good” e “Novacane”, além de comprovar a sintonia com um mundo Pop na releitura melhorada de “Strawberry Swing”, do Coldplay. Já elevando o sarrafo consideravelmente, Ocean superou as expectativas com sobras em Channel Orange, o grande disco de 2012 e um dos melhores da década, cujas mais de 40 críticas no Metacritic dão em média a impressionante nota 92. E Channel Orange é mesmo isso tudo. Assumindo diferentes personas – do frágil ao bon vivant, do sexy ao lânguido –, o músico nos entrega um trabalho no qual as ricas narrativas se nivelam à musicalidade. Seja na comovente balada em órgão e cordas “Bad Religion”, no minimalismo de “Pilot Jones”, no ânimo de “Forrest Gump” e “Lost”, no romantismo sofrido de “Thinkin Bout You” ou no pacote completo “Pyramids”: Channel Orange se tornou um marco cultural que, além de cativar e traduzir uma geração, tratou de dar o primeiro incremento à aura mística de Frank Ocean.

Com o disco, vieram Grammys, admiradores ilustres que vão de Pharrell a Flea, o status de um dos artistas mais interessantes da década. E a reclusão. Não antes de soltar uma memorável e inspiradora carta no Tumblr, na qual revela ser bissexual e promove um sermão da montanha moderno sobre a autonomia de ser quem se é – exatamente o que eu, você e muita gente precisávamos ler. Mas, já um astro inserido em um contexto de superexposição, os silêncios de Frank Ocean diziam muito: ele não era (e não é) um ídolo convencional e, de maneira similar à famigerada dificuldade que existia para chegar até Prince, sua reclusão tem mais a ver com liberdade do que qualquer outra coisa. 

O pulo do gato é que as fugas não significam que ele não sabe jogar o jogo. Aproveitando-se da expectativa inebriante que circundava qualquer mínima aparição, Ocean, repentinamente, atualizava o Instagram ali, publicava no Tumblr aqui. Até que, em agosto de 2016, ele apareceu com o vídeo-álbum Endless e, no dia seguinte, com Blonde. O primeiro, como o nome diz, é uma espécie de filme com músicas inéditas, covers e pequenas faixas que soam como skits. O segundo? Bem, o segundo é outro fundamental motivo que o coloca em 1º dessa lista. 

Se, em Channel Orange, as influências do Soul e do R&B falaram mais alto, em Blonde, Ocean coloca a intimidade com a música negra à luz da psicodelia, do minimalismo, de experimentações caóticas e, ao mesmo tempo, desenvolve um acabamento Pop que remete à riqueza melódica de um Brian Wilson. A fugacidade das relações humanas, as paixões mal arrematadas e o desespero por perceber-se frágil são musicadas com guitarras doces, baterias discretas (ou até suprimidas) e uma bela e inconfundível voz. “Nights”, “Pink + White”, “Self Control” e “White Ferrari” são alguns dos pontos altos de um disco que é tão bom quanto seu antecessor e, ao mesmo tempo, tão diferente. Hoje, mais de três anos depois de Blonde, cada single ou aparição do misterioso californiano de Long Beach – agora, até marcando presença no Instagram – continua sendo um evento simplesmente atípico. E assim será enquanto Frank Ocean continuar hesitando tão sedutoramente entre o homem comum e o ídolo.  

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