Los Hermanos: É Impossível Ser Feliz Sozinho

Segundo álbum do quarteto encontra seu maior atributo na melancolia essencialmente brasileira

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Sabe aquele disco lançado há algum tempo que você carrega sempre com você em iPod, playlist e coração, mas ninguém mais parece falar sobre ele? A equipe Monkeybuzz coleciona álbuns assim e decidiu tirar cada um deles de seu baú pessoal e trazê-los à luz do dia. Toda semana, damos uma dica de obra que pode não ser nova, mas nunca ficará velha.

Los Hermanos – Bloco do Eu Sozinho (2001)

Vou te contar, Bloco do Eu Sozinho mudou a forma de uma geração inteira fazer música e estamos colhendo os frutos dessa onda até hoje. Tem a ver sim com o uso do que é referencialmente brasileiro na música, mas a questão não é essa. Los Hermanos nos lembrou que somos românticos e que a melancolia combina muito bem com a língua da saudade.

Tenho a impressão que olhamos para os anos 1990 como se uma espécie de Idade Média da música brasileira – era muito ouro para fins muito específicos e poucas (em comparação a outros momentos) buscas estéticas mais ambiciosas. Na virada da página, quando o pêndulo voltou pro lado mais inquieto da criatividade, a banda carioca carregou, querendo ou não, o estandarte de uma nova era.

Todo Carnaval Tem Seu Fim anuncia os novos caminhos da banda, a partir dali um quarteto e sem a gravadora que a lançou, trazendo filosofia para quem antes cantava sobre perder a menina para um outro alguém. Esse mesmo tema volta em A Flor, mas mostrando agora os dois lados da moeda – a história contada por quem perdeu e por quem ganhou -, fruto da maturidade pessoal que a postura filosófica denota.

O disco passeia pelos mais diversos humores, um retrato fiel da pós-adolescência, e cada música ganha um norte para dar conta da inconstância – algo que Fingi na Hora Rir sintetizou muito bem -, do humor de Cher Antoine ao peso de Tão Sozinho. Ele nos ajuda a lembrar que tanto faz se é Rock, se é MPB ou se é qualquer termo desgastado e que comunica tão pouco hoje em dia (já desde aquela época, na verdade). O que importa é que essas composições funcionam muito bem, juntas ou separadas.

E o lançamento reverbera até hoje, direta ou indiretamente. Veja Bem, Meu Bem e Casa Pré-Fabricada entraram para o cancioneiro popular do novo século e, se Cadê Teu Suín? enraizou de vez Los Hermanos em solo emepebístico, Adeus Você é uma amostra do que muitas das bandas tentam atingir ainda em 2014: Uma poesia orgânica e bem construída amparada por guitarras agradáveis, timbres inusitados e uma leve brincadeira metalinguística (na hora de “mudar de tom”).

Mesmo com tanta coisa pra se prestar atenção por entre as faixas, o que prevalece é o romantismo. Ele chega a ser meio brega, meio melodramático às vezes, porém é bonito sempre. “Quem é mais sentimental que eu?” (em Sentimental) e “Vem dizer adeus ao que restou de quem um dia foi feliz” (Assim Será) são alguns desses exageros mais que perdoáveis do álbum.

Por mais dramático que ele se apresente, não é à toa que tantas de suas músicas tornam-se favoritas não só entre os fãs da banda. A melancolia em Bloco do Eu Sozinho é muito humana, a começar pelo seu título. A felicidade vem como uma brincadeira, um faz-de-contas, enquanto a vontade de um amor de verdade é pecado e viver acaba sendo uma sentença sem livramento. Treze anos depois, Bloco do Eu Sozinho não é uma mera obra para se cantar de olhos fechados, mas um disco que desperta o olhar para a poesia que só entende quem cresceu imerso no universo de telenovelas, canções bregas e quartas-feiras de cinzas que duram até o próximo fevereiro.

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ARTISTA: Los Hermanos
MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.