Luedji Luna, mais livre que o jazz e o mar juntos

Em nova fase da carreira, a artista baiana navega por dicotomias até encontrar e celebrar todos os seus lados

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Fotos: Henrique Falci

Há alguns anos, Luedji Luna nos contou que bom mesmo era estar debaixo d’água. Agora, ela volta embalada pela densidade do fundo do oceano, com histórias mais profundas, que chegam em duas ondas: Um Mar Pra Cada Um, e Antes Que a Terra Acabe.

Assim como a cantora, os álbuns são geminianos. O primeiro foi lançado em 26 de maio, um dia após o aniversário de Luedji, enquanto o outro nasceu quase 20 dias depois, de surpresa. Juntos, se complementam e encerram a trilogia precedida por Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água (2020), indicado ao Grammy Latino 2021 na categoria Melhor Álbum de Música Popular Brasileira, e Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água Deluxe (2022), com 10 faixas inéditas.

Os contornos de Um Mar Pra Cada Um, e Antes Que a Terra Acabe começaram a surgir em 2024, ano difícil para a baiana. Foi nesse período que ela se viu cercada de questionamentos relacionados ao amor e a si mesma. “Encontrei minha natureza divina me olhando verdadeiramente, tirando essa máscara da cantora e da artista. Acho que esses registros são muito mais sobre a Luedji do que sobre a Luedji Luna”, compartilha.

“Encontrei minha natureza divina me olhando verdadeiramente, tirando essa máscara da cantora e da artista. Acho que esses registros são muito mais sobre a Luedji do que sobre a Luedji Luna”

A liberdade que encontrou em se redescobrir não a aproximou apenas de si mesma, mas também de um dos gêneros mais livres da música: o jazz. É significativo que “Gênesis”, uma faixa instrumental, faça as honras de Um Mar Pra Cada Um, e traga na ficha técnica um nome tão importante quanto o do maestro Ubiratan Marques, líder da Orquestra Afrosinfônica. Para além da abertura, outros artistas conhecidos pela sua atuação no jazz estão espalhados pela obra. Caso de “Dentro Ali”, canção de Um Corpo No Mundo (2017) que ganha uma nova roupagem e convida para a roda o queniano Kato Change, antigo colaborador. Além de ter coproduzido a versão estendida de Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, é dele a guitarra de “Banho de Folhas”, que antecipa alguns dos versos mais conhecidos de Luedji: “Foi em uma quarta-feira / Saí Pra Te Procurar / Andei a Cidade Inteira / Mas cadê você, cadê você?”.

A presença da saxofonista britânica Nubya Garcia no álbum, também em “Dentro Ali”, é um encontro de duas artistas que se consolidam como novas referências no neo soul internacional, gênero encabeçado por nomes como Erykah Badu. Ainda nos sopros, um dos solos mais marcantes do disco é o de “Salty”, que conta com a participação do trompetista japonês Takuya Kuroda.

Música a música, Luedji cria o seu próprio jazz, mas sem se esquecer de quem esteve na vanguarda. É aí que John Coltrane entra em cena. A Love Supreme (1965), obra-prima do saxofonista norte-americano, inspirou Luedji tanto musicalmente quanto na interpretação dos significados do amor, sobretudo quando ele resiste aos contextos mais desafiadores.

Coltrane viveu nos Estados Unidos do pós-Guerra e da luta pelo fim da segregação racial – a Lei dos Direitos Civis só foi implementada em 1964 no país. Em paralelo, enfrentou o vício em drogas e álcool, que chegou ao fim em 1957, quando teve um despertar espiritual que mudou sua vida, conforme relatou no encarte de A Love Supreme.“Você tem que passar por um processo de desconstrução”, reflete sobre Coltrane. “O que dialoga muito com Antes que a Terra Acabe também, isso de você desconstruir para construir algo. Quando você faz uma análise, você quebra uma parte inteira. E aí tu vai quebrando, quebrando, quebrando, até compreender o que tem ali no mais íntimo daquilo que você está construindo”.

Nessa jornada, Luedji abraça todas as suas camadas, principalmente aquelas que nos esforçamos tanto para esconder debaixo do tapete. Em “4hz”, do primeiro disco, usa um áudio que enviou para alguém que já não está mais na sua vida, uma amiga que estava presa numa situação bem conhecida por mulheres negras, a de não serem assumidas socialmente pelos seus parceiros. “Aquilo ali é a minha voz, e eu acho que é a expressão do meu amor, de como o amor pode ser violento também. Cuidado pode virar o controle, desrespeito”, divide. “Aquilo ali sou eu também. É sobre humanidade, me expõe por inteiro… Como me relaciono com os meus afetos, com os meus amores, comigo mesma, com as minhas amizades”.

Essas vulnerabilidades, que aparecem como um fio solto em “4hz”, terminam de ser desfiadas em Antes que a Terra Acabe. No álbum, Luedji mergulha de vez no mundano e no terreno, assumindo seus medos, vaidades e prazeres. Assim, vai da “Gênesis” ao “Apocalipse”, faixa que abre o disco.

No clipe, o prólogo do fim do mundo é anunciado por Conceição Evaristo: “Uma serpente cósmica trouxe vida à Terra. Dan, a serpente eterna. Toda a natureza foi desenhada conforme ela serpenteava o planeta. Ela habita o fundo das águas, segurando o peso da terra com o próprio corpo. Para os Fons do antigo reino do Daomé, um dia a serpente irá morder o próprio rabo e a terra irá afundar no mar”.

“O Verocai é o Verocai. O homem mais sampleado do Brasil. Um grande arranjador. Essa é uma grande contribuição que enriquece o trabalho perante ao mundo, não só musicalmente, mas quanto à narrativa também. A presença desse artista brasileiro que dialoga com o mundo, que é respeitado pelo mundo”

Essa não foi a primeira vez que a escritora colaborou com Luedji. Em Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, quando a cantora fez uma releitura de “Ain’t Got No”, de Nina Simone, a versão teve a participação de Conceição Evaristo recitando o poema “A noite não adormece nos olhos das mulheres”, dedicado a Beatriz Nascimento – a ativista e historiadora também foi homenageada em Um Mar Para Cada Um, ao ter sua voz recriada por inteligência artificial na faixa “Baby Te Amo”.

Além de Conceição, “Apocalipse” conta com a presença de Seu Jorge nos vocais, e do maestro Arthur Verocai, responsável pelos arranjos das cordas. “O Verocai é o Verocai. O homem mais sampleado do Brasil. Um grande arranjador”, fala entusiasmada. “Essa é uma grande contribuição que enriquece o trabalho perante ao mundo, não só musicalmente, mas quanto à narrativa também. A presença desse artista brasileiro que dialoga com o mundo, que é respeitado pelo mundo”.

Ao passo que Luedji se abre nas temáticas, o mesmo acontece com a sonoridade de Antes que a Terra Acabe. O álbum traz a primeira bossa da artista, na qual é acompanhada por Alaíde Costa. “Na geração dela [Alaíde], era esperado que as mulheres negras cantassem samba. Várias dessas cantoras, como Leny Andrade também, faziam jazz, faziam bossa, e não tiveram reconhecimento”, analisa. “Trazer Alaíde para perto é pedir licença, já que eu tô querendo me firmar no jazz. O convite foi algo instintivo”.

Da bossa, a cantora também vai para lugares mais dançantes, como em “Ioiô” e “Farol da Barra”, produzidas por Iuri Rio Branco e Toty Sa’Med, respectivamente. Eles fazem parte de um time de produtores que estão ao longo das 21 músicas dos dois álbuns, como Zudizilla, Lucs Romero, Curumin, Duda Raupp, Kato Change, Lucas Cirillo, Feijuca, além da própria Luedji.

“Na geração dela [Alaíde Costa], era esperado que as mulheres negras cantassem samba. Várias dessas cantoras, como Leny Andrade também, faziam jazz, faziam bossa, e não tiveram reconhecimento. Trazer Alaíde para perto é pedir licença, já que eu tô querendo me firmar no jazz. O convite foi algo instintivo”

O último domingo (27) marcou o início da turnê Um Mar Pra Cada Um, Antes que a Terra Acabe, em Brasília, no Festival Latinidades. A cantora passará ainda por cidades como Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte. Além das canções novas, Luedji planeja levar para os palcos a mesma paixão e entrega que os fãs puderam ver de perto nos shows Luedji canta Sade, um tributo da baiana a uma de suas maiores referências artísticas.

Enquanto existir o mar para mostrar seu reflexo e o fim não tiver data marcada, Luedji vai saboreando o mundo. “É um final sem pressa. A gente vai acabar aos poucos. Tenho essa sensação que a gente tem pouco tempo, mas vamos aproveitar, fingindo não saber quando vai acabar de fato”.

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ARTISTA: Luedji Luna