Luz e sombra com Fernando Catatau

“Às vezes a gente tá legal, às vezes não. E esse disco foi um observatório da minha mente”; o músico cearense explica por que seu primeiro álbum solo é um (re)reconhecimento pessoal de Fortaleza, aponta as diferenças sonoras com o trabalho no Cidadão Instigado e elenca inspirações que vão de forró a Kali Uchis

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Fotos: Jamille Queiroz

Era de tarde, uma quinta-feira de sol, quando nos encontramos em uma chamada de vídeo. Algo me dizia que eu deveria ficar numa posição séria, mas não resisti. “Velho, que disco é esse? Não consigo sair do loop desde sexta-feira! Muito obrigado por topar esse papo”. Catatau, tímido e simpático, como de costume, abriu logo um sorriso, “Massa demais, cara! Pô, eu que agradeço o convite”. Fazia menos de uma semana que ele tinha lançado o disco, mas A essa altura meu last.fm já denunciava os mais de 100 plays.

Imerso no clima denso de Fernando Catatau – o álbum – em pouco tempo me senti interpelando o artista com impressões pessoais do disco, fragmentos imagéticos subjetivos, criados em meio as audições. “Tua obra sempre teve esse tom cinematográfico de criar imagens surrealistas em movimento. Nesse disco não é diferente, me parece quase tangível uma imagem de penumbra, algo próximo da meia luz de um amanhecer. Tu acha que isso faz algum sentido?” questionei. Atônito, Catatau relacionou essa imagem do disco às suas próprias penumbras: “Pode ser talvez por essas buscas internas mesmo. Esses últimos anos tive várias oscilações. Às vezes a gente tá legal, às vezes não. E esse disco foi um observatório da minha mente”, revelou o músico cearense.

O que até minutos atrás soava para mim como uma impressão particular, se revelava ali como justamente a tônica do disco, pensada estrategicamente para formar uma narrativa a partir de jogos de luz e sombra, como ele mesmo contou: “Não sei explicar muito bem, mas acho que tem um pouco dessa luz mais baixa mesmo. Acho que é isso, de tentar escanear a mente, para poder entender que nem toda hora é luz. Inclusive fiz a ordem do disco em U. Começando bem, depois desce, como são os ciclos da vida mesmo, né? Às vezes a gente está bem, às vezes a gente cai, aí depois a gente sobe. Até para ver que tem momentos que conseguimos subir também, né? Não ficar pensando só num buraco”.

Desde o “O ciclo da dê. cadência” (primeiro álbum do Cidadão Instigado), Catatau nunca se deixou esconder do sofrimento e das angústias de um ser urbano. “E aí, face humana, o que é que você me diz agora? / Deve ser muito difícil para você se olhar no espelho / Pois, olhar, olhar / E não enxergar / Cansa” cantava em “Zé Doidim”. A cidade, que é sempre personagem dessas tramas, frequentemente aparece caótica, em ruínas, como em “Fortaleza”, quando ele não reconhece a capital onde nasceu: “Meu Deus, é tão difícil te reconhecer / Em Fortaleza / Cidade marginal”; ou em “Silêncio na Multidão” que fala das relações impessoais num cruzamento entre avenidas de São Paulo: “Todos os dias, em vários lugares, milhares de pessoas se cruzam, mas não se falam, pois não se conhecem, e nem ao menos se importam com isso”.

No álbum novo, o urbano continua erguendo cenários rodeados de escombros, “Nada acontece” cita uma cidade que grita, no entanto permanece estagnada: “Até parece que o tempo parou / nada se move / Nem os coqueiros / nem os cabelos dos insetos”. E em “Tempos Sombrios” nem a alvorada parece atenuar os estragos da cidade “E eram tempos sombrios / E eu só seguindo em frente / Pelas ruas maltratadas / Da cidade a minha frente”. Eu pergunto: “Parece que tu tá mais inserido como partícipe desse caos. Enquanto no Cidadão se mostrava estarrecido. É como se agora tu estivesse imerso, né?”.

“Eu acho que esse disco é quase como se fosse um reconhecimento de área, eu me reconhecendo dentro da cidade [Fortaleza]. Não só dentro da cidade, mas como uma figura de lá”

“Eu sou uma figura da cidade, sabe? Eu sou de uma cidade de praia, que tem as suas loucuras. É a maresia predominante” ao afirmar isso, Catatau dizia também o quanto significava para ele se reconectar a Fortaleza e se reconhecer lá após mais de uma década morando em São Paulo “Eu acho que esse disco é quase como se fosse um reconhecimento de área, eu me reconhecendo dentro da cidade. Não só dentro da cidade, mas como uma figura de lá. Por que eu voltei e as coisas mudaram bastante. Não estou mais me sentindo como me sentia antes, deslocado daquele lugar, sabe? Deslocado do tempo. Eu me sentia muito assim, quase como se eu não me conectasse. Por mais que ficasse a minha vida inteira compondo essas coisas, falando sobre lá, me dava uma agonia de não conseguir me sentir local”.

Entre as imagens de ruínas e sofrimentos, a surrealidade também dá o tom ao trabalho de Catatau. A saga de Zé Doidim e El Cabrone, que atravessa as gravações do Cidadão Instigado, já anunciava isso. Outras músicas como “Ficção Científica”, “Doido” e “Cabeção” também modulam imagens etéreas de situações que ficam à deriva entre o ficcional e o absurdo. No primeiro trabalho solo não é diferente, Catatau enxerga topografias da saudade no próprio corpo, deixando vestígios por onde passa, “A nostalgia criou cascas em meu corpo / E com o tempo elas caem no chão / Me machucando pouco a pouco / Sutilmente me arranhando / Descrevendo a saudade em mim” canta em “Nostalgia”.

“Eu tive também a impressão que esse disco parece ter sido construído a partir dos fragmentos das tuas experiências, das tuas angústias…” perguntei. Sem titubear ele logo confirmava: “Eu componho assim. Eu vou pegando vários fragmentos, depois eu vou colando. Isso é uma coisa do meu jeito de fazer a parada”.

“Eu componho assim. Eu vou pegando vários fragmentos, depois eu vou colando. Isso é uma coisa do meu jeito de fazer”

Enquanto conversávamos sobre essas imagens surrealistas, Catatau revelou detalhes sobre outra música do álbum. Em “Os Monstros”, ele pincela figuras tronchas, com olhos “cheios de sangue e luz”. Mas o ponto alto aparece nos últimos versos da canção, quando o ouvinte incauto é colocado em suspeição, “Uma reflexão nos faz é perceber / Que o monstro poderia ser você”. Inusitado pensar que, sob este enredo, uma fábula foi construída “Eu me imaginei sendo um animal numa granja, um pintinho” revelou. “O que seria da minha vida se eu fosse uma figura daquela, um ser daquele, entende? Você não tem expectativa de nada, você vive numa repetição o dia inteiro, vem uns caras e botam injeção para você ficar bombado, para ir para o abate”.

“Além de sempre trazer o ambiente urbano nas letras, eu te enxergo também caminhando musicalmente, como um flaneur. Experimentando coisas novas”, eu dizia para ele. “E nesse disco novo parece que tu caminhou por sons bem diferentes de tudo que vinha produzindo antes. Queria que tu comentasse um pouco sobre como foi a construção dos sons desse álbum”.

Nesse momento Catatau ficou visivelmente animado. “Eu adoro falar sobre isso, cara” e continuou. “O Fortaleza foi um disco que desde pivete eu queria. Queria ter um disco de rock, assim, bem rock clássico. Eu acho que a gente chegou nesse lugar que era para mim quase uma obsessão. Depois disso, caiu esse delírio de ficar na busca disso. Tanto que passei muito tempo escutando muita música de todos os caminhos possíveis”.

Os caminhos variados, ele conta, vêm de muito tempo vagando pelo YouTube: “Tem a Tommy Genesis, por muito tempo eu ficava escutando. Na época da gravação teve Kali Uchis, que agora é super pop, né. E eu acho ela maravilhosa” ele dizia. Surpreso, tive de interromper “Muito doido isso. Imaginar que tem um pouquinho de Kali Uchis aí…”, ele logo foi emendando “Ixe, tem demais! Eu escutava direto também Manth Ribane e OKZharp. Tem Abra... Hoje em dia eu tenho escutado Skillibeng, que é jamaicano. Tem Amnésia Scanner que é um som de Berlim, também bem louco. A Slipmami daqui do Rio né? Eu amo” completou.

“Eu queria que tivesse mais espaço para as coisas, o Cidadão não era assim. Era um amontoado de vários recortes. Muita coisa toda hora, muita informação”

Famoso pelas guitarras, no seu primeiro disco solo, Catatau colocou seu instrumento de obsessão – como ele mesmo diz – como coadjuvante. Investiu numa sonoridade especializada, projetando a arquitetura dos sons a partir dos silêncios. Durante a conversa ele enfatizou esse desejo algumas vezes “Eu queria que tivesse mais espaço para as coisas, que o Cidadão não era assim. Era um amontoado de vários recortes. Muita coisa toda hora, muita informação”.

A ênfase nesses espaços, ele diz, vem da música pop. Isso ajudou a reposicionar outros instrumentos enquanto protagonistas “São poucos elementos na música, não tem aquela informação toda. Você não tá prestando atenção na guitarra. O baixo e a bateria ficam comandando muito. É sobre isso a parada que eu estava falando, vem de uma coisa muito da música pop, do Hip Hop, essa parada que dá espaço para a coisa ser contada”, analisa.

Enquanto ele falava, eu me perguntava como esses desejos e o amontoado de influências foram tomando forma musical. Mas não foi preciso questionar e espontaneamente Catatau explicou como o processo de produção foi importante para a construção do disco. “Eu não tinha mais nem o que pensar, eu tinha que chegar e entrar no estúdio para gravar. Que senão, não ia nem sair, por que eu fico rendendo, rendendo…”, revelou. Assim, junto com Dustan Galas (companheiro de Cidadão Instigado) e Samuel Fraga (companheiro na carreira instrumental), Catatau compôs parcela significativa das músicas do disco em praticamente 10 dias, dentro do estúdio “A gente fazia o arranjo e no mesmo dia já gravava” disse.

Mesmo em músicas mais “artesanais” como “Completamente Apaixonado”, cujas batidas eletrônicas ele montou em casa, Catatau ainda assim deu autonomia para os colegas participarem. “Eu ficava fritando em casa. Mas eu já cheguei com algumas coisas assim que eu já sabia o que é que eu queria. E eu deixei muito na mão do Dustan e do Samuca, entende? Para eles virem tocando. A gente ia conversando e eles iam fazendo”.

Quando já caminhávamos para o final do papo, uma questão que me acompanha desde o Uhuuu! (2009) surgiu na conversa. “Velho, eu tenho um interesse particular em pesquisar brega. E é comum te encontrar relacionado a música brega, principalmente numa perspectiva da mídia sudestina. O que tu acha disso? O que tem de brega no teu som?”.

“Cara eu até entendo esse lugar. Mas eu entendo por que eu sei que faço da minha maneira. Muitas pessoas me associam ao brega dos anos 1970, mas eu não acho que seja bem por aí. Eu me inspiro muito em coisas atuais, eu gosto de refrão romântico. Eu gosto destes forrós todos dos tempos atuais, piseiro, sofrência. Isso para mim faz parte do meu repertório, eu me emociono. Mas como é romântico a galera já tá no costume de ir para esse lugar. Acaba caindo nesse lugar pela maneira que eu faço talvez, que não é animado como o forró é e os piseiros são. E também por eu ser mais velho e nordestino, acho que todas essas coisas contribuem. Mas eu também sou brega, sou tudo isso. Caminho por todos esses lugares e acho tudo massa”.

Catatau não sabia, mas nosso papo era duplamente prazeroso. Além de ser fã do seu trabalho há anos, queria que um amigo pudesse ouvir esse disco e ler esse texto. “A última banda que eu parei mesmo para escutar foi Cidadão” me dizia André, toda vez que eu chegava para oferecer a ele algum lançamento que achava interessante. Eu, que já era fã, me empolgava sempre em concordar com ele e reafirmar o quanto era apaixonado pelo disco de 2009. “Eu sei o Uhuuu! todinho, mago, sei quando cada guitarra vai entrar, sei cada virada de bateria”.

Escutar Cidadão com André era como atingir o nirvana, a gente entendia cada milímetro daquele som. Lembro quando a gente foi a um show e ficamos em êxtase quando rolavam as músicas do disco que mais gostávamos. André partiu ano passado, vítima de Covid. Mas tenho certeza que, assim como eu, ele amaria esse papo e o disco novo.

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