Matéria Prima repassa a visão

MC mineiro fala sobre as diferentes inspirações que permearam o disco “Visão” (2020) e compartilha aprendizados acumulados ao longo de 20 anos de caminhada no Rap nacional

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Fotos: João Victor Medeiros

Com 20 anos de Rap e uma caminhada que sempre prezou pela versatilidade, Matéria Prima é peça importante na história da cultura Hip-Hop no Brasil. De membro do extinto Quinto Andar a clássicos como “Paraísos Artificiais”, do EP Material de Estudo (2012), passando pela exploração do canto em 2 Atos (2017), o rapper vem exibindo a sua abrangência musical.

Matéria Prima é um veterano e mantém seu olhar atento a novos talentos da cena. Em Visão (2020), o MC confiou a niLL – um dos grandes nomes da novíssima geração do Rap nacional – a direção musical do trabalho. A aliança resultou em explorações por House e Trap e participações de outros jovens rimadores, sem que, contudo, Matéria soasse como se estivesse forçando uma juventude à la Lenny Wosniak, o personagem de Steve Buscemi imortalizado pelo meme “How do you doing, fellow kids?”. “É muito divertido rimar nos beats do niLL. Tive mais dificuldade no conteúdo do que na musicalidade”, comenta o rapper.

O que era para ser um EP acabou virando um disco de 18 faixas e com quase uma hora de duração – números distantes dos padrões atuais do gênero. Influenciado por Pharoahe Monch e repleto de crônicas contadas a partir de uma escrita característica, o rapper conversou exclusivamente com o Monkeybuzz sobre a criação de Visão.

O que mais te interessou no som que o niLL produz?

As linguagens com as quais ele conversa têm influência de muita coisa que a gente escuta fora do Rap. “Só Quer Falar”, “Sol de Verão” são Houses. Tem essa versatilidade do novo, mas ainda bebe na fonte que eu bebo desde sempre. Michael Jackson, Soul, Jazz… Nossas ideias também bateram para além do Rap e da música.

Você teve desafios ao explorar essas novas musicalidades?

Me senti desafiado a não sentir que eu estava forçando uma onda que não é minha. Tive desafios no conteúdo mais do que na musicalidade. Desafio de conteúdo na “Que Tipo de Preto?”, que levou meses de pesquisa e diálogo para não deslegitimar nenhuma causa, não dar tiro no pé quando eu tava querendo mostrar a diversidade da negritude. O House na “Sol de Verão” me acompanha antes do Rap acontecer na minha vida. Há muitos anos a gente tinha o que chamávamos de “Barraquinha”. A galera se reunia nas praças onde tinham várias barraquinhas de bebida e um sound system tocando Technotronic, SNAP!, clássicos do Hip House.

Você é um cara da old school, como se posiciona em diversas músicas. No entanto, nesse disco as participações são majoritariamente de novos rappers, como Nabru, JOCA… Por que essa escolha?

Eu ouvi o disco do JOCA e me identifiquei muito com a escrita dele. Como diz o Pharoahe Monch, esse amigo nosso de longa data do underground nova-iorquino, ele é “indesculpavelmente lírico”. Queria que ele trouxesse essa essência do que eu reconheço como uma escrita agradável.

A ousadia é uma qualidade lírica?

De fato. A Nabru, quando escutei “Redução de danos”, [do disco] Porque Prefiro Falar de Amor (2019), fiquei de cara pelo tanto que ela instiga com a caneta dela. Ela tem um contexto que ela podia falar de criminalidade, abuso, várias outras coisas que muita gente já fala no Rap mas ela escolheu falar de outras coisas de uma forma mais arriscada, complexa. É assim que eu acho que é o ideal da contribuição para o Rap. A partir do momento que a música é uma válvula de escape, você cria esse portal para as pessoas questionarem de outra forma e isso ela faz com muita propriedade. A intenção da nossa escrita se parece muito.

(Fotos: Bruno Queiroz)

“Fiquei preocupado, no início do processo do disco, de ser o tiozão querendo colar com os novinhos. Foi um exercício de escrita, ritmo, musicalidade negra, então comecei a me entregar ao processo. Não forcei em nenhum momento. A partir do ‘Bem Boom Bap’ (2018) – uma coisa mais nublada e introspectiva – eu comecei a pensar em uma coisa mais colorida. Não no sentido frívolo, mas de buscar outras tonalidades”

Você tem um apreço pela técnica de aliteração. Por que essa preferência? Uma técnica em exagero pode se tornar muleta?

A aliteração é um exercício muito gostoso de habilidade. O desafio está em colocar um conteúdo coerente dentro de uma técnica que pode ser só chamativa, só um amontoado de sons. Construir o conteúdo dentro de uma sonoridade que pode soar como uma muleta técnica é uma outra história. Pharoahe Monch mesmo me inspira muito nisso. Recentemente, ele lançou um disco pelo Th1rt3en, que é um power trio, e me inspirou muito pela fome de rima que ele tem, que é a mesma de 20 anos atrás.

E como dialogar com o pessoal da nova geração sem parecer que tá forçando uma barra?

Eu sigo passos de alguns da gringa. Redman e Busta Rhymes são dois dos meus MCs favoritos e que conseguem dialogar com todas as gerações; vejo a possibilidade mais em termos de musicalidade, principalmente se acho divertido. Eu fiquei preocupado no início do processo do disco, de ser o tiozão querendo colar com os novinhos. Foi um exercício de escrita, ritmo, musicalidade negra, então comecei a me entregar ao processo. Não forcei em nenhum momento para chegar e falar “Ah, eu quero agora entrar no mercado do Trap, porque aí serão reconhecidos os meus esforços durante todos esses anos” (fala ironicamente). Tenho uma caminhada que preza pela versatilidade. A partir do Bem Boom Bap (2018) – uma coisa mais nublada e introspectiva – eu comecei a pensar em uma coisa mais colorida. Não no sentido frívolo, mas de buscar outras tonalidades.

“Que Tipo de Preto?” é uma das músicas mais interessantes do projeto. Como ela se relaciona com você como Thiago e como Matéria Prima?

Thiago cresceu culturalmente dentro do skate. Aqui em Belo Horizonte tinha a loja de discos Black and White, que vendia uns discos “frankenstein” com Kris Kross, House of Pain. Bos deu várias influências. Comecei a andar de skate e conhecendo a fundo A Tribe Called Quest, Public Enemy, Young Black Teenagers, coisa que nem existe mais… E tinha curiosidade diferente do que colocavam pro preto e comecei a questionar isso de uns tempos pra cá. Não tive o estereótipo de ser o preto elegante, só considerado pela aparência, nem de ser o preto sedutor, o da capoeira, da dança, do folclore, do sexo… E todos esses outros moldes que pré definem a gente. Se você é um preto nerd [por exemplo], com quem você se relaciona na quebrada? Ela vai te tirar, mas você tem uma vivência que é válida. A pessoa não deixa de ser negra e ser vítima de preconceito, discriminação. Fiz o questionamento nessa música com muito cuidado pras pessoas não acharem que é um ataque, mas é um chamado para se libertar desses padrões e começar a ter esse diálogo.

Como bateu por aí o falecimento do MF DOOM?

A história do cara é muito fascinante. A morte dele bateu como uma tijolada na testa, mas ao mesmo tempo foi o último ato dele. Ele morreu em outubro e a gente soube em dezembro, então manteve uma aura de mistério. Foi de um impacto gigante, porque tinha ele como liderança no experimentalismo, de ousadia perpétua e aí de repente…

Você também pratica fotografia. Como isso se relaciona com suas músicas?

Nem sei de onde surgiu. Tudo que eu escutava de rap era muito visual, os caras pintam cenas – tipo o GZA. A esposa de um amigo meu disse que eu tiro foto como escrevo minhas músicas. Não sei se é um olhar específico para coisas despercebidas, mas tenho atribuído bastante as fotos à minha musicalidade. Se tudo der certo, vou conseguir desenvolver um trabalho que case as fotos com as músicas. Me inspiram nomes como Delfina Carmona, Gustavo Minas, Chi Modu e outros.

No Instagram, você com frequência posta trechos de conversas com seu filho que parecem pequenos causos, alguns, até, piadas. Me conta da sua relação com ele?

Diego é muito bobo, a gente tem o mesmo gosto pra coisas de humor assim. A espontaneidade do humor me faz querer mostrar como é a nossa relação. Temos essa visão de deixar o mundo mais leve bem parecida. Não sei se respondi bem essa pergunta, eu fiquei emocionado, talvez.

Vi um tuíte seu dizendo que ele é sua melhor obra.

Todos os erros que eu cometi é para que ele, sendo a pessoa que é, não cometa de forma alguma. E não é aquela coisa do “meu pai é a referência do que não ser” e sim “meu pai é a referência de por onde ir depois que ele cometeu esses erros”.

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