Melly e os doces perigos

Com influências que vão do R&B ao ijexá, “Amaríssima”, primeiro disco da artista soteropolitana, se debruça sobre prazeres, dores e aprendizados do amor

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Fotos: João Arraes

Entro na sala virtual para entrevistar Melly e encontro a jovem de 22 anos tomando sol em um terraço de um hotel no Rio de Janeiro. O clima típico carioca provavelmente favoreceu o dia de descanso da baiana que, àquela altura, seguia com agenda de ensaios para uma apresentação no Prêmio da Música Brasileira, ao lado de Seu Jorge e Rachel Reis, em homenagem a Tim Maia. Foi naquele momento de pausa, com o sol batendo na pele e gaivotas voando ao redor do hotel, que Melly falou sobre o processo de criação de Amaríssima, seu primeiro disco, e como ele reflete contradições e conflitos de amadurecimento pessoal e artístico.

A soteropolitana conta que a música sempre esteve presente na sua vida por influência do pai, Tito. O músico, que já tocou samba rock, partido alto e reggae, hoje gerencia a carreira da filha. “Meu pai é músico e me proporcionou esse contato com a música. Ele me levava para os lugares, e eu subia no palco e tocava os instrumentos que o pessoal não estava tocando”. Apesar da relação constante com o universo musical, Melly revela que nunca o enxergou como um caminho profissional, mas como uma manifestação dos seus sentimentos. “Sempre fiz música por amor pessoal, sempre foi algo íntimo e um mecanismo para entender o mundo. Todo mundo tem o seu mecanismo, tem gente que pinta, escreve, faz conta – eu compunha. Por gostar, comecei estudar mais sobre instrumento, canto e produção. A partir daí, lancei algumas faixas e as coisas começaram acontecer despretensiosamente”. Inclusive, na hora de prestar vestibular, a faculdade de música sequer foi cogitada – e, atualmente, além de seguir como artista, Melly cursa Direito. “Meu negócio é relações humanas e linguagem. Gosto de falar, debater e pensar, e Direito me coloca para pensar. Acredito que a faculdade de música ia me enrijecer, música para mim sempre foi rua”.

“Sempre fiz música por amor pessoal, sempre foi algo íntimo e um mecanismo para entender o mundo. Todo mundo tem o seu mecanismo, tem gente que pinta, escreve, faz conta – eu compunha”

E foi no cenário urbano que Melly deu os primeiros passos: aos 16 anos, ela começou a cantar nos bares de Salvador e, aos 18, produziu o primeiro show autoral. Em 2021, aos 20, lançou o EP Azul. Lancei Azul e chegou aos lugares. Não imaginava que ia chegar e, na verdade, nem gostava tanto assim de Azul, muito pela repetição de escutar várias vezes antes de lançar”. Mas foi apenas em 2023, ao ganhar o título de Artista Revelação do Prêmio Multishow, que Melly encontrou sua autoestima artística. “Com o lançamento de Azul, comecei a me reconhecer como artista. Mas, até ganhar o prêmio ano passado, ainda estava sem autoestima para música. Depois da premiação, decidi que queria seguir por esse lugar. Cantei com Lulu Santos e Iza. Quando discursei, estava Caetano Veloso de um lado da plateia, e a Vanessa da Mata do outro, isso foi uma virada de chave. É difícil a gente acreditar em si, acho que todo mundo tem esse embate. É um processo vagaroso de crescer, ter essa autoestima e se reconhecer como boa. A partir daquele momento, eu passei a acreditar”.

“É difícil a gente acreditar em si, acho que todo mundo tem esse embate. É um processo vagaroso de crescer, ter essa autoestima e se reconhecer como boa”

Durante esse período, Amaríssima já estava em processo de produção. O disco surge do desejo de Melly de explorar as nuances do amargor que surgem a partir das relações. Ao contrário de composições anteriores, nas quais a artista canta mais sobre o lado romântico do amor, as composições de Amaríssima relatam situações conflitantes. “Li em alguma poesia a palavra ‘amaríssimo’, mas, por licença poética, afeminei a palavra e achei que seria interessante falar sobre o amargo porque eu sempre me identifiquei com ele. Não apenas pelo sabor, porque não gosto muito de doce, mas sou uma pessoa que tende à melancolia. Não era algo que eu abraçava ou desejava abraçar, porque sempre achei que as pessoas não escutavam músicas tristes. As pessoas querem viver só os sabores doces, e o amargo fica escondido, porque não queremos passar pelo lado ruim. Não queremos sentir saudade, se estrepar, terminar um relacionamento, mas é necessário. Quis falar sobre essa minha vivência com o amargo e como ele me ajuda amadurecer todos os dias”, conta Melly.

Ao longo das 12 faixas, com influências de pagodão, R&B e ijexá, a artista reflete sobre ansiedade, medo, insegurança e elabora esses sentimentos a partir de entendimentos diferentes. A primeira faixa, “Falar de Amor”, que conta com produção do duo Deekpaz, aborda a ansiedade de um término recente; “Cacau”, ao descrever um amor que durou menos do que o imaginado, metaforiza o amargor natural da fruta, além fazer referência a expressão soteropolitana “cair cacau”, quando cai uma tempestade. Já “Derreter e Suar” se debruça sobre a incerteza de certas relações – segundo Melly, a faixa é um desabafo sobre a busca por experiências imediatas. “Gosto de atropelar algumas coisas, sou muito irreverente em alguns sentidos. Quero aprender os momentos e os processos, mas acabo me tornando uma pessoa muito ansiosa. Em ‘Derreter e Suar’, eu tentei jogar a ansiedade para lá e me permitir”. Por outro lado, “Paraíso” e “Domingo” mergulham em fases doces do relacionamento; Enquanto “Rio Vermelho”, com participação de Russo Passapusso, cria uma ambientação do verão nas praias do bairro de Salvador e exalta o tempo presente. Em “10 Minutos”, Melly e Liniker cantam sobre o desencontro de interesses e a reconciliação em um relacionamento.

O disco tem direção musical e produção assinada por Melly e colaboração de Ícaro Santiago, Theo Zagrae, Deekpaz, Marcelo Delamare, Zamba, Tainã Trocolli, Panda, Eric Manigga e SEKO. Amaríssima chegou junto de um curta, dirigido por Edvaldo Raw, em que Melly protagoniza o casal da história ao lado de Camilla de Souza Damião. “A ideia era conectar os visualizers do disco e criar um curta a partir disso. Tive a ideia de ser um filme, mas não sou atriz e não sei atuar, então foi um processo de me descobrir – e eu me joguei. Estudei sobre atuação e a Camila me ajudou muito no processo para eu me sentir mais natural e confortável”.

“Acertar é massa, mas eu acho que é mais importante quando a gente erra, que aí fica marcado e nos permitimos ao aperfeiçoamento. Acho que errar é o processo mais difícil e bonito de amadurecer”

De forma sensível e envolvente, Melly parte das imperfeições e da dor para reconhecer que o amargo pode ser tanto um incômodo quanto um antídoto essencial. Para ela, lidar com o erro (e as suas consequências) é a melhor e a pior parte do processo de amadurecimento – e a partir desse passo essencial, é possível se reconhecer. “Acertar é massa, mas eu acho que é mais importante quando a gente erra, que aí fica marcado e nos permitimos ao aperfeiçoamento. Acho que errar é o processo mais difícil e bonito de amadurecer”. Referenciando João Bosco ao definir o disco com o trecho “O amor quando acontece a gente esquece logo que sofreu um dia”, da canção “Quando o Amor Acontece”, Melly sintetiza que Amaríssima destaca os fins que podem abrir margem para novos começos. “A gente precisa terminar, sempre há algo novo para começar – e tem muita beleza nisso”.

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ARTISTA: Melly