Menos virtuose e mais melodia: as lições de Yvette Young

Conversamos com a guitarrista que, à frente do power trio Covet e com dedilhados que aliam emoção e técnica, tornou-se uma das referências do Math Rock atual

 1,199 total views

Fotos: Divulgação

Se você procurar pelo nome de Yvette Young na internet, as duas perguntas mais frequentes relacionadas a ela são: qual guitarra ela usa? E qual é a afinação? A compositora e multi-instrumentista americana vem se tornando referência no cenário de Math Rock e Post-Rock desde 2015, quando lançou o EP Currents, primeiro trabalho da Covet, sua banda de música instrumental.

Ao lado dos músicos David Adamiak no baixo e Forrest Rice na bateria, o trio lançou o segundo disco technicolor em junho, um registro de dez músicas lapidadas ao longo de um ano. Todas as faixas começam com ideias que Yvette diz “escrever com a voz primeiro”, depois canta a melodia para si mesma traduzir na guitarra. Em entrevista ao Monkeybuzz, a artista dá a dica: “não se preocupe em soar técnico ou impressionante”.

Conhecida pelo dedilhado rápido, ela está menos interessada na virtuose e mais de olho em riffs emocionantes. Entre seus ídolos e referências, estão bandas como ttng, toe e American Football, além de compositores como o japonês Ryuichi Sakamoto e o islandês Ólafur Arnalds. “São vários gêneros fluindo, costumo brincar que somos Adventure Rock (risos). Música que conta história, eu espero. Cada música é uma história que eu levo alguém a algum lugar por meio dos meus tons e melodias”, explica. Uma mistura entre Shoegaze e Rock Progressivo –instrumental até então.

O mais recente disco investiga novas misturas sonoras em arranjos complexos, como, por exemplo, o som de violinos em “odessa”. Além de uma exímia guitarrista, a compositora cresceu estudando piano e violino, mas garante que, mesmo vindo da música clássica, sempre amou contracultura. Duas faixas do novo registro ganharam vocais de Yvette, que já cantava em seu projeto solo, baseado em “uma vibe Emo Folk”. O single “Parachute” fala sobre sentir medo e se arriscar. Já “Farewell” foi a maneira que a artista encontrou para escutar a música que ela própria queria escutar para crer que “tudo vai ficar bem”, mesmo quando parece impossível encontrar o lado positivo.

A voz complementa as faixas, mas seu receio em manter a banda instrumental ao longo do disco effloresce (2018) e dos últimos singles vinha da categorização. “Tinha medo de ser definida como uma banda encabeçada por uma mulher, queria que fosse sobre música e não carregar essa atenção. Entendi que não tenho que provar nada a ninguém, que se foda, é seu problema”, conta. Afinal, Yvette compõe porque precisa: “quero honrar as músicas, se ela precisa [de voz], nunca descarto a possibilidade”.

Entre os mais de 50 vídeos, o registro mais acessado em seu canal do YouTube tem mais de um milhão de visualizações. Em 2018, Yvette gravou uma versão da música “Shibuya”, do primeiro álbum, para o IGTV da página “Guitars are Better”. O post gerou uma porção de comentários negativos dizendo que “a guitarra não estava plugada” e que ela não sabia tocar a própria música. Decidiu responder com um vídeo tutorial feito no celular para calar qualquer dúvida sobre sua competência. Ao longo dos anos, a guitarrista construiu uma rede de apoiadores e, hoje, deseja ser um bom exemplo: “seja destemida e faça o que você quiser”.

O novo disco nasce em meio a seus projetos paralelos: além de multi-instrumentista, ela se dedica à pintura e todas as capas da Covet são de sua autoria. E quando não estava em turnê com a banda, fez os primeiros shows de seu projeto solo. “Tocar sozinha é mais assustador, não tem ninguém para te cobrir. Não sou perfeita, vou errar, você vai ver isso. Com eles é divertido, a gente dá risada dos shows ruins e ficamos super animados com os bons”, lembra dos dias na estrada, uma realidade suspensa no momento.

Uma boa apresentação precisa emocionar e ser capaz de prender a atenção do público e silenciar os ruídos do espaço. Algumas das melhores memórias da adolescência de Yvette são relacionadas a escapar da rotina para ir a shows. “Sempre me interessei em como as pessoas se expressam. Nunca pensei em estar no palco”, diz. A primeira vez em que comprou uma guitarra foi quando estava hospital – seu coração teve problemas relacionados ao distúrbio alimentar pelo qual ela passava havia anos. Sua atenção migrou da aparência para o que conseguia fazer com as mãos “Estava confiante, porque conseguia me ensinar algo”.

Com o tempo, ela entendeu algumas maneiras de continuar construindo otimismo. “Estou tocando mais do que pintando, gosto de ambos igualmente. Depende da estação, a chave para se manter interessada é alternar. Burnout? Muda para o piano, pintura, arrumação, isso torna as coisas mais estimulantes”, explica. Durante o atual período em quarentena na casa dos pais em San Jose, na Califórnia, a lição está sendo aprender a gravar em casa.

O isolamento também rendeu vídeos para empresas de guitarras, demonstração de pedais e colaborações com outros músicos. Em abril, ao lado da banda So Much Light, Yvette lançou um cover da música “Cars and Girls”, do disco From Langley Park To Memphis (1988). A releitura do grupo oitentista Prefab Sprout está à altura da original. Além de apreciar o climão do Shoegaze, ela trabalha brilhantemente com timbres da música Pop e também ama grupos Indie. “Queria estar em uma banda assim”, brinca sobre a sonoridade do single colaborativo.

“Estou tocando mais do que pintando, gosto de ambos igualmente. Depende da estação, a chave para se manter interessada é alternar. Burnout? Muda para piano, pintura, arrumação. Isso torna as coisas mais estimulantes”

Ao mesmo tempo em que está animada para colocar novas músicas no mundo, a musicista entende que momento exige, sobretudo, reflexão. “Espero que seja algo positivo para as pessoas que estão fragilizadas. Há uma violência necessária acontecendo”, medita sobre o mundo exterior. Dentro de casa, há a possibilidade de expressar a sua criatividade por meio da arte, seja visual ou musical.

Por mais que adore a possibilidade de tocar ao vivo, Yvette está sem pressa para retornar a rotina agitada. “Amo compor e também gosto do processo de gravação. Viajar sem privacidade pode ser cansativo. Você precisa estar disposta a não dormir e a comer mal. Sempre desisto de ser saudável no meio da turnê (risos)”, conta. No momento, a mulher elétrica do Math Rock aprende novas técnicas na guitarra, explora as possibilidades da voz e sonda colaborações. Inquieta e curiosa, vive na busca constante de sons para encaixar nas melodias que passam pela sua cabeça – uma tarefa sem data para terminar.

 1,200 total views

Autor: