Metáforas e sinestesias de Assucena

Depois se seis anos como parte do grupo As Baías, a cantora e compositora desenha seu próprio caminho e prepara primeiro disco solo, no embalo do single “Parti do Alto”

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Fotos: Divulgação

“É um encontro comigo mesma”, diz Assucena sobre a criação do seu primeiro trabalho solo. A palavra “artista solo” também não condiz com a realidade, porque a cantora e compositora de Vitória da Conquista, na Bahia, conta com uma rede de colaboradores, Mas, pela primeira vez em seis anos – o período em que integrou o grupo As Baías, ao lado de Raquel Virgínia e Rafael Acerbi –, ela vai assumir o controle das decisões artísticas. “São conversas internas que acontecem o tempo inteiro. Preciso encarar de forma madura para não me repetir, quero trazer novidade, também sei ser cênica, minimalista ou exagerada”.

O conceito do disco, ainda sem nome ou data de lançamento, nasceu na pandemia, quando olhava para algumas letras e canções nunca gravadas. As Baías, grupo indicado três vezes ao Grammy Latino, ficou um ano e oito meses sem shows presenciais. E como a artista conta, a ideia inicial dos amigos de faculdade era gravar apenas dois discos, que no final se tornaram três, mas os integrantes continuariam, também, em suas carreiras individuais.

“As demandas foram surgindo e fomos nos prendendo. A gente tem uma visão de mercado e artística muito distinta. A pandemia apareceu como uma oportunidade de a gente parar”, explica. O trio chegou a um consenso em junho de 2021, anunciaram o final em setembro, e Assucena lançou o single solo “Parti do Alto”, no dia 7 de janeiro deste ano. “Quando você participa de qualquer coletivo, vão existir intersecções e renúncias, a parte mais dolorosa. Renunciar à ideia que o coletivo não aceitou”, pontua.

A composição estava engavetada desde 2018, mas foi escolhida para apresentar ao público a nova fase da cantora justamente por sua contemporaneidade. O violão de nylon vai de encontro aos sintetizadores oitentistas, ao passo que a voz poderosa da artista brilha conforme a cadência cheia de pausas. “‘Parti do Alto’ tem algo parecido com outra composição das Baías, ‘Apologia às Virgens Mães’, onde o samba aparece como quebra e profanação. A quebra intervém para apresentar um ato dramático”, comenta.

A construção da sua identidade parte da MPB, mas também deseja provocar e ir além das noções pré-estabelecidas. “Quero extrapolar lugares sonoros em uma conversa com o contemporâneo. O samba canção sempre foi um norte, um estilo que formou minha atitude musical”, reflete. Outra influência forte vem das grandes cantoras brasileiras: “A relação que tenho com a identidade feminina pelo canto sempre foi profunda. Fiquei encantada desde que vi Elba Ramalho, Gal Costa, Maria Bethânia, Elza Soares, Rita Lee, Elis Regina. Intérpretes de compositores de norte a sul e de épocas muito distintas. Do ponto de vista temporal e geográfico, carregam o Brasil no canto, cada uma a seu modo”.

Ao mesmo tempo, Assucena gosta tanto das sonoridades de Luísa Sonza, Pabllo Vittar e MC Rebecca, como também pode ir do brega ao pop em um piscar de olhos. “Gosto daquilo que me toca, pode ser Hermeto Pascoal ou Marilia Mendonça, vou ouvir. Do meu lugar, não busco o mainstream a priori, mas quero entender a nossa relação com a música brasileira, o nosso trunfo artístico”, aponta.

“São conversas internas que acontecem o tempo inteiro. Preciso encarar de forma madura para não me repetir, quero trazer novidade, também sei ser cênica, minimalista ou exagerada”

Próximos passos

Quando Assucena conversou com o Monkeybuzz, estava em processo de pré-produção das músicas, escritas principalmente durante o período pandêmico. Acima de tudo, é um trabalho criado dentro de casa, que reflete o mood de sua autora: “Não vou fazer um grupo confessional, literal ou textão, mas o trabalho de uma artista que encara as próprias metáforas e sinestesias”.

A banda que a acompanhou na gravação de “Parti do Alto”, também vai ser responsável pelas músicas do álbum – Vitor Wutzk (violão, guitarra e sintetizadores), Bianca Predieri (bateria e programação) e Ivan Gomes (baixo). Juntos também tinham preparado uma versão de “Ela”, como uma homenagem ao disco Ela (1971), de Elis Regina, no ano dos 40 anos da morte da cantora.

A princípio, o single seria lançado no dia 8 de março, no Dia Internacional da Mulher, mas por conta de trâmites burocráticos, a música ainda não foi lançada. “Por eu ser uma mulher trans, acabou ganhando outra conotação depois da Linn da Quebrada e os pronomes serem uma questão muito presente pra gente”, lembra da repercussão do BBB 22, onde diversos participantes erraram o pronome da artista, mesmo Lina tendo “ela” tatuado no rosto. Além disso, Assucena quis trazer uma nova leitura sonora para a canção: “A versão da Elis é extremamente triste. Quis trazer uma mulher contemporânea porque mesmo com dor no peito, ela dança”.

Em paralelo aos shows do seu repertório autoral, a intérprete está na estrada com o show “Rio e Também Posso Chorar”, uma homenagem ao disco Gal A Todo Vapor (1971). “A Gal tem uma importância fundamental na minha vida, ela pariu a artista que sou”. Lançado apenas três anos após o decreto AI-5, Gal contou com novos colaboradores porque os seus parceiros estavam exilados. Ela gravou Jards Macalé – “Hotel das Estrelas” -, Luiz Melodia – “Pérola Negra” – e Moraes Moreira (Novos Baianos) – “Dê Um Rolê”. Há planos para uma regravação do disco no futuro, mas ainda sem previsões.

Outro projeto em andamento: um romance, que vem sendo trabalhado desde 2018. Mas que vai continuar no forno até pelo menos o ano que vem, para a autora focar todas as energias na música. As palavras e a poesia são importantes meios de expressão, então, arriscar-se em um novo formato está sendo natural para ela. Entre as suas autoras favoritas, não poderia deixar de citar Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Rachel de Queiroz e a contemporânea Gabriela Soutello.

As artes são refúgios, mas também servem como lentes para enxergar o mundo. 2022, o ano escolhido para estrear de novo, será um ano decisivo no cenário político e coletivo. “Que país é esse? A gente não sabe onde vai dar. Qualquer artista está catalisando esse universo de sentimentos. Há esperança, mas muitas dificuldades precisam ser superadas”, pondera Assucena.

Analisando especificamente os espaços possíveis para os artistas independentes, há inúmeros desafios fora da lógica das gravadoras. Se no mainstream é necessário abrir mão de certas coisas, o midstream tem menos reconhecimento financeiro e penetração no público. Mas, aos poucos, Assucena vai encontrando cada vez mais lugares para suas ideias e criações. A gente já se vende todos os dias, seja trabalhar na padaria ou ser médico, vendemos mão de obra, mas precisamos entender o lugar que queremos vender”.

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ARTISTA: Assucena

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