Minecraft: sonorizando a liberdade

Como a Ambient Music permitiu que o jogo ganhasse uma ambiciosa trilha sonora, pautada na limitação tecnológica e impulsionada pela subjetividade do jogador/ouvinte

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Foi-se o tempo em que as trilhas sonoras eram consideradas elementos secundários na construção de um jogo eletrônico. Exemplos da importância de uma música para a narrativa dos jogos não faltam: os famosos e simples temas de Super Mario Bros, os emocionantes arranjos 8-bit de Chrono Trigger, as trilhas orquestradas e contemporâneas de Ico, Final Fantasy, God of War, entre tantos outros. A música tem se tornado um elemento primordial na criação de jogos, principalmente pela forma como consegue imergir o jogador na narrativa de uma forma envolvente. Como no cinema, a trilha sonora de um jogo imprime, muitas vezes, a sensação do jogador ou até como este “deve” se sentir – se naquele momento é prudente sentir medo e ficar alerta, se ele pode descansar e relaxar, ou até mesmo dar dicas sobre o que deve ser feito.

Dessa maneira, há uma intrínseca relação com a história de um jogo, o que se torna uma peça essencial para a construção de um bom acompanhamento musical. Entretanto, o que fazer quando um jogo não tem história? Quando tudo que o jogo oferece são ferramentas para explorar um mundo imenso, gerado aleatoriamente e que, para cada jogador, traz desafios e terrenos diferentes. Como se cria uma música para uma narrativa que tem, em sua essência, a ausência de qualquer predefinição? Como se sonoriza essa liberdade?

O jogo em questão é o mundialmente conhecido Minecraft, sucesso de crítica e público que completa 10 anos de seu lançamento em 2021. Basicamente, é um jogo construído todo em blocos – simulando a estética pixelizada, porém realizado em uma perspectiva 3D. Quando você começa um jogo novo, cria-se um mundo repleto de biomas, climas, relevos e monstros no qual você pode explorar e construir coisas como bem entender. Seja jogando no modo de sobrevivência, no qual é preciso coletar recursos para viver, ou no modo criativo, em que todos os materiais estão disponíveis para construir diferentes edificações, quem dita todas as escolhas é o jogador. Por esta característica de livre arbítrio ao extremo, o jogo atraiu um público bastante diverso, desde crianças (servindo inclusive como software educacional) até gamers adultos atraídos por um estilo mais competitivo de jogo. Quando estava sendo desenvolvido, a ausência de uma narrativa a priori foi um dos maiores desafios para o responsável pela trilha sonora do jogo: o jovem alemão de 22 anos, Daniel Rosenfeld.

Daniel não vem de uma formação profissional musical ou de trilha sonora. Quando (mais) jovem, brincava com seu irmão em plataformas de criação de música de forma despretensiosa e randômica, aprendendo, na base de tentativa e erro, a criar paisagens sonoras. Daniel entrou em contato com Minecraft quando conheceu o produtor do jogo, Markus Persson, através de uma comunidade online – na época tanto Daniel quando Markus eram desconhecidos no mundo dos videogames, porém fãs alucinados de jogos independentes. Aos poucos, uma relação de confiança estabeleceu-se entre os dois: Markus lhe mostrava projetos de jogos que tinha e Daniel lhe mostrava trechos de suas composições. Assim, o garoto amador que experimentava fazer música em seu computador recebeu uma proposta para criar uma trilha sonora para um jogo cujo princípio norteador era que o jogador pudesse fazer o que quisesse dentro de um mundo gerado aleatoriamente: uma missão nada fácil.

É irônico como a liberdade que o jogo pregava não se aplicava à tecnologia de som empregada nele. Por se tratar de um jogo amplo e extenso, alguns sistemas tiveram de ser priorizados e, entre eles, não estava a engine de sonoplastia e trilha sonora. A Daniel foi dado sinal verde em uma perspectiva criativa, porém, ele não poderia exigir além do que a programação do jogo permitia. Uma liberdade, pero no mucho. Contudo, essa mesma limitação fez com que Daniel tivesse que trabalhar de forma estratégica, tirando o melhor proveito do espaço que tinha, mas sem deixar que isso sacrificasse seus impulsos criativos. Uma das maiores vontades do jovem produtor era sair do escopo estereotipado de jogos independentes com uma trilha sonora Chiptune – produzida a partir de chips antigos de videogame e que empregavam uma característica bem simples, tal como o tema clássico de Super Mario Bros. Com todas as regras desafiadoras para qualquer compositor, Daniel conseguiu trazer uma solução simples e elegante para o problema: a Ambient Music.

Influenciado pela Ambient Music desde cedo, o produtor ouvia nomes como Aphex Twin e Chris Clarke. Assim, para compor a trilha, Daniel se apoiou em elementos típicos do gênero como repetições, ambientações, timbres de piano e sintetizadores. Ele procurou criar texturas com o menor número possível de informações que pudessem dar ao ouvinte alguma instrução de como se sentir. Em entrevista para a Red Bull Music Academy, Daniel comentou que sua premissa era de fazer uma música que fosse genérica, mas que ainda soasse única e diferente. Dessa forma, Daniel se apropria da referência primária do jogo que é dar ao jogador a liberdade de poder trilhar suas próprias histórias com a parte sonora servindo a diferentes propósitos. Apesar de contar com arranjos calmos e suaves em boa parte das músicas, as sensações que as composições trazem, aliadas às narrativas que os jogadores criam, são fortemente diversificadas. Essa é uma das genialidades da trilha: ela deixa espaço para que o jogador atribua o sentido necessário para sua história.

A trilha sonora de Minecraft é única pois alia um dos princípios norteadores da Ambient Music à proposta livre do jogo: a característica altamente subjetiva. Uma das limitações da engine de som era que as músicas não seriam colocadas no jogo quando um episódio acontecesse, mas de uma forma aleatória. Portanto, uma mesma música poderia aparecer quando o sol nascia, ou quando o jogador estivesse bem fundo em uma caverna construída uma mina. A Ambient Music cai como uma luva nessa proposta. Daniel disse que, por vezes, jogadores vem relatar a ele memórias do jogo que ficaram marcadas porque uma música começou a tocar de repente.

Dez anos após o lançamento do jogo, a trilha sonora de Minecraft continua a despertar interesse para além da comunidade de jogadores. Recentemente, o selo Ghostly International lançou uma edição comemorativa da trilha sonora em dois volumes no formato vinil – mas também disponível para streaming. Como o jogo é atualizado constantemente pela Microsoft, o produtor de 32 anos continua a criar trilhas para o jogo. Portanto, Minecraft aumenta cada vez mais as possibilidades que os jogadores têm de conduzir suas próprias histórias e, por sua vez, Daniel encontra novos espaços em que ele pode inserir suas músicas. E a trilha de Minecraft está longe de ser composta apenas de músicas calminhas, afinal é uma parceria entre as histórias dos jogadores e o imaginário de Daniel Rosenfeld.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.