Minha loucura tem trilha sonora

Dentro da noite, o Noporn encontrou espaço para a dor da morte e o gozo da vida. E cantando perdas, conversando transas e bebendo champagne, a banda marcou a memória clubber paulistana e é a COVER STORY de agosto no Monkeybuzz

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Fotos: Lucas Sant'Ana/Monkeybuzz

Na década de 1980, no Rio de Janeiro, Liana Padilha era uma recém-formada artista plástica “que fazia roupas, pinturas e bijoux”. Lá conheceu Regis Fadel, que também “fazia roupas” e, juntos, viraram companheiros de trabalho e de vida. As experimentações com arte, moda e música começaram ali, mas a vontade era a de “dominar o mundo”, e o passo mais próximo disso foi morar em São Paulo, cidade que era “a ponte com o que acontecia lá fora”.

Liana e Regis montaram a Sucumbe a Cólera, no começo dos anos 1990, uma marca que incorporava o “faça você mesmo” dos punks e conversava sobre “ser sexy em um momento em que os amigos morriam com AIDS”. Sem reprimir o desejo e a sexualidade, era para gente “jovem, ousada e colorida”, Liana explica. Uma das principais participantes do Phytoervas Fashion, semana que antecedeu o que seria o São Paulo Fashion Week, a Sucumbe fez parte de um momento específico da produção cultural por aqui: Alexandre Herchcovitch, Fause Haten e Walter Rodrigues eram nomes que nasciam, Erika Palomino registrava como ninguém a cultura jovem paulistana na Ilustrada, e a moda brilhava os olhos, com a esperança de virar um assunto valorizado no país.

Se o Noporn fosse uma pintura, qual seria? Abstrata ou uma mini escultura. Vocês estão mais diurnos do que antes? Às vezes sim, mas gostamos da noite pra criar. Quem foi a pessoa mais festeira que vocês conheceram em São Paulo? Fernando Zarif e Zeca Gerace.

Na segunda metade da década de 1990, Liana e Régis conheceram Luca Lauri – e se infiltraram ainda mais na paixão que já mantinham pela música. Web designer, Luca tinha acabado de virar DJ, depois de participar de um concurso da DMC, realizado quando o selo veio para o Brasil. “Eu mandei uma fita K7 para o grupo, com um set de House e Acid-Jazz. Eu batalhei até a final no clube Cha Cha Cha, no bairro do Itaim, em São Paulo”, ele recorda do começo nas picapes. “E desde então eu nunca mais parei”, conta. 

Os três viraram grandes amigos, realizaram juntos um laboratório musical e foram construindo aos poucos o que seria um projeto, que reuniria referências eletrônicas, pedaços de filmes assistidos e um pouco das histórias que encontravam pela noite. “Aprendemos muita coisa juntos”, diz Liana. “Eu, particularmente, aprendi quase tudo com o Regis. E até mesmo a sobreviver sem ele”. Foi no dia 26 de junho de 2000, que a Folha de S. Paulo noticiou a perda de “um dos representantes da vanguarda do estilismo nacional, que introduziu conceitos pops e futuristas na moda brasileira”. O estilista Regis Fadel falecia aos 37 anos de idade.

Sem Regis, não houve Sucumbe. Mas foi em função da falta, que o Noporn nasceu. “Comecei a falar poesias em cima das bases produzidas pelo Luca. Eu estava triste e foi assim que eu me curei. Criando, era a única maneira de continuar existindo”, explica. Mesmo não compreendendo por completo o que construíam, os dois continuaram. “Perdemos um parceiro precioso, ficamos esvaziados e tristes. Mas decidimos sair, ver as pessoas e fazer elas dançarem”. Na noite, tocaram e cantaram em casas como o Supperclub, o Madame de Ferro e o Vegas, dentro de festas que marcaram gerações, como o Electroshock e o Strip Poker. “É estranho olhar para trás agora, mas foi como aprendemos a transformar a dor em beleza”, recorda. “Com a música, doía menos”. 

Foi em uma noite no Xingu – o antigo Ferro’s Bar, da Martinho Prado, no bairro da Bela Vista, parte da história LGBT nacional –, que ambos se deram conta de que o Noporn tinha acontecido pra valer. No entanto, se a melancolia tinha sido o motivo, o objetivo continuava o mesmo que os três planejaram no projeto inicial: “seduzir, brilhar e ser lindo”. Liana lembra que em um dia, especificamente, a dor ficou muito aguda. “Passamos horas fazendo uma jam e formatando algumas letras. E esse foi o embrião do nosso primeiro álbum”.

Qual foi a melhor noite do Noporn? A primeira festa Rebola, no Rio de Janeiro, em setembro de 2015, e o carnaval de 2018, também no Rio, com a festa Onda. Nessa última teve o Arthur Braganti, da Letrux, e o Lucas Freire tocando pela primeira vez. Por que vermelho, rosa e prata? Segredo… [risos] São cores que eu amo misturar quando pinto. E também eram as cores de uma coleção do André Lima, que serviu de base para Maiô da Mulher Maravilha.

Lançado em 2006, o disco homônimo era a reunião de tudo o que tinha sido vivido. Com produção de Dudu Marote, do selo Segundo Mundo, tem participação do guitarrista Edgard Scandurra, nas faixas “Janela”, “Dois” e “Exc Main Niz”. Assim como a noite, o álbum parecia abraçar a dor e o gozo, de um jeito misterioso, onde não se sabia ao certo quando começava um e terminava o outro.

No lugar da palavra cantada, o álbum trouxe a escolha de Liana pela canção falada – o que virou uma característica expressiva sua. “Sempre falei sozinha, gosto da minha voz. O meu pai é poeta, cresci ouvindo poesia e sempre tive vontade de viver de uma forma sensível”, lembra. “Eu não sei cantar, mas eu amo falar. Então eu fiz do meu jeito”. As inspirações vêm de Laurie Anderson, Cocteau Twins, Billie Holliday e Sade às influências de Maiakovski, Isadora Duncan e todas as cantoras de cabaré e clubinhos enfumaçados.

Foi neste álbum também que o Noporn lançou o seu maior hit, “Baile de Peruas”. A letra foi uma colaboração com o estilista André Lima, que reuniu críticas dos jornalistas em relação aos seus desfiles e pediu para que Liana transformasse a acidez em canção. Nascia a música da “temporada que apresentou uma coleção que não deu certo”, onde “a lantejoula apareceu de novo, de novo, de novo” e que “acabou forçando a barra”. “Baile de Peruas” virou trilha de um novo desfile de André Lima, se transformou em marchinha do circuito fashionista, ao passo que a própria sátira do clubinho das modas. 

Liana Padilha ao lado de Lucas Freire, novo integrante do Noporn

No clipe de “Baile de Peruas”, estrela a produtora de moda e atriz transexual Renata Bastos. Musa da dupla, ela é um dos exemplos de como o Noporn andou junto de uma geração LGBT, principalmente a que estava na balada na virada do milênio. “Estivemos presentes desde o começo do Mix Brasil, por exemplo, e tocamos em algumas paradas. Acredito que essa identificação é porque falamos de liberdade e de tesão, de afetos e de medos. Nós temos um som do clube escuro, da cortina de paetê, dos dry martinis e dos champanhes”, Liana avalia, enquanto defende que o som nunca teve a pretensão “de lacrar”, uma vez que sempre veio de aspectos muito pessoais. “Acho que foi um caso de sedução não intencional entre as duas partes, porque essa sempre foi a parcela mais afetada pela ignorância e pela hipocrisia, quando as questões são os desejos e os direitos”.

A moda vale a pena hoje? Sempre como expressão, cada vez menos como forma de poder. Com quem da MPB vocês gostariam de fazer uma parceria? Rita Lee e Roberto de Carvalho.

Depois do boom noturno, veio o intervalo. Durante dez anos Liana e Luca não tiveram mais lançamentos e se afastaram um pouco das boates. Ela voltou para o Rio, e ficou lá durante um tempo – hoje mora em São Paulo – e voltou a pintar e a construir o Tintapreta, um novo projeto pessoal sobre música e pintura. “Estávamos fazendo coisas para pagar as nossas contas”, contam e dão risada. “Foi então que saiu o [filme] Beiramar, do Felipe [Matzembacher] e do Márcio [Reolon]”, conta. “Tinha Noporn na trilha e um novo público nos conheceu e pediu por shows”.

Mas a fagulha não atiçou o fogo de imediato. Liana diz que não é artista Pop, é artista plástica, e para “falar sobre alguma coisa, tem que ter sobre o que falar”. E, se o Noporn, mesmo que não pornográfico já era erótico, resolveu que o sexo seria o assunto. E foi assim que surgiram as primeiras composições de Boca, o segundo álbum da dupla, lançado em 2016, que conta com participações de artistas como Thiago Pethit, em “Leite”, e Arthur Braganti, da finada Séculos Apaixonados, na faixa título.

“Se o primeiro fala sobre a perda e gerações destruídas por um vírus transmitido sexualmente, o segundo [Boca] é declaradamente sobre sexo”. Liana conta que a estrutura do álbum foi pensada como a de um romance. São os seus escritos sobre o primeiro contato, a paixão e a transa, a violência e o fim – tudo, em episódios noturnos, como é bem típico do Noporn. Na faixa de abertura, se canta “boca na boca, pau na mão” e a volúpia segue no segundo single, sobre quem “chegou assim, cavalo puro”, de “boca grande, braços firmes, olhos fixos, mãos e dedos duros” até terminar, em “Ex Culpa”, pensando “que não era amor, era só medo” e refletindo sobre quem “saiu batendo a porta”. Liana conta que o sexo tem isso de trazer questões como nascimento, crescimento e morte. “São os ciclos da relação, com um pouco de violência e paixão”.

A poética do Noporn, ambos explicam, vem dos questionamentos sobre o sexo e a pornografia desde o começo. “Eu sempre me perguntei por que a violência é normalizada e o sexo é escondido, porque a sexualidade é ensinada pela indústria pornô e não por professores em escolas. Isso faz com que a gente coloque o sexo num lugar proibido, sujo e errado e não no lugar da potência geradora de vida, de afeto e de conexão”.

No país que elegeu Bolsonaro, fazer música é… Sempre foi e sempre será difícil fazer música, mas tem tanta coisa mais importante que eu me considero uma pessoa de sorte. Faço o que eu amo e sou livre, mas quando diante do caos, nos resta criar zonas de escape. A música mais sexy que existe é… A dos gemidos. A noite é gay? O mundo é sexual.

O disco, apesar de ser lançado há dois anos, faz cada vez mais sentido conforme cresce a ideologia e a prática conservadora no país e no mundo. “Sexo e liberdade são expressões políticas”, ambos defendem. A sexualidade mal canalizada ou mal-entendida, como se sabe, cria todo tipo de disfunção. Desde que a atual política se mostra cada vez mais preocupada em interferir nos nossos direitos individuais, do que trabalhar as necessidades coletivas, o sexo é político, sim, bem como o corpo é político. Ele é absoluto e livre”.

Quando pensam em projetos futuros, refletem sobre fazer ainda mais pinturas, músicas e, quem sabe, rodar de carro pelo país. Luca Lauri vai dar uma parada nos shows, pretende estudar um pouco mais, mas participará eventualmente de algumas apresentações. Por isso, o Noporn conta agora com um novo integrante, Lucas Freire, produtor e baterista, que fez parte das bandas DORGAS e Séculos Apaixonados e, desde 2018, colabora no Tintapreta de Liana. E um terceiro álbum deve surgir, trazendo, claro, outros causos da noite. “Quero falar de papéis sexuais, sobre novas formas de amor, posses e liberdades”, Liana adianta.

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ARTISTA: NoPorn