Mitos e verdades sobre “África Brasil”

O 14º álbum da carreira de Jorge Ben Jor foi dissecado pela jornalista Kamille Viola no livro digital “África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou para Toda a Gente Ver”.

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Fotos: Michael Ochs Archives/Getty Images

Ao longo dos anos, a figura de Jorge Ben Jor se manifestou de forma misteriosa na vida da jornalista carioca Kamille Viola. Em 2018, quando a repórter se debruçava nos estudos sobre alquimia, astrologia e hermetismo, recebeu um convite inesperado:  dissecar o disco África Brasil (1976). O resultado da pesquisa faz parte da coleção Discos da Música Brasileira, da Edições Sesc, que conta também com livros digitais sobre Da Lama Ao Caos (1994), do Chico Science & Nação Zumbi, e Acabou Chorare (1972), dos Novos Baianos.

Em África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou para Toda a Gente Ver, Kamille resgata histórias e personagens que fazem parte da trajetória do músico carioca. Além de entrevistar o próprio artista, conhecido por ser pouco chegado à imprensa, reuniu depoimentos de nomes como Mano Brown, Marcelo D2 e BNegão, assim como falou com Gilberto Gil, Lúcio Maia, Dadi Carvalho, entre outros.

Antes de investigar as mitologias do África Brasil, a autora já havia tentado realizar uma biografia autorizada do músico no início da década passada, mas o projeto não vingou. Entretanto, a presença de Jorge permaneceu em sua carreira, seja em encontros inusitados, quando cobria eventos ou nas apresentações no Circo Voador. “Sou da geração que pegou a mudança do analógico para digital. Quando começou a ter MP3, tive acesso ao repertório antigo do Jorge, que eu não conhecia. Até então, o mais antigo era A Banda do Zé Pretinho (1978)”, lembra a jornalista.

"Sou da geração que pegou a mudança do analógico para digital. Quando começou a ter MP3, tive acesso ao repertório antigo do Jorge, que eu não conhecia. Até então, o mais antigo era 'A Banda do Zé Pretinho’(1978). Durante um tempo, dizia que o 'África Brasil' era o melhor, hoje eu não consigo escolher um preferido” (Foto: Daniela Dacorso)

Ainda na virada do milênio, encontrou em um sebo a discografia completa do Jorge, e se encantou com o álbum Força Bruta (1970). “Durante um tempo, dizia que era o melhor, hoje eu não consigo escolher um preferido, tendo ouvido tanto a obra dele”, conta a autora. Agora a relação mística tem a ver com a sua herança familiar: “Minha avó é desse universo, tem 99 anos, ainda viva, mas muito velhinha. Ela fazia parte de uma ordem mística, era astróloga, então em casa já tinha um pouco disso. E isso tem tudo a ver com as coisas que o Jorge estudou na época dos discos”.

Estamos falando sobre a chamada “trilogia mística”, formado pelos álbuns A Tábua de Esmeralda (1974), Solta o Pavão (1975) e África Brasil (1976). No último, há duas faixas que falam sobre o assunto: “Hermes Trismegisto Escreveu” e “O filósofo”. O tema sai de cena no trabalho seguinte, A Banda do Zé Pretinho (1978), mas não deixa de ser recorrente. “Quando o entrevistei, Jorge falou que estuda isso até hoje, é muito curioso. O tema religioso e a alquimia estão sempre presentes em sua obra. Se você pensar em uma música mais ou menos recente, como “Alcohol” (de 1993), ele aparece no clipe como se fosse um alquimista e fala sobre o mago”, explica a jornalista.

Ao contrário dos dois primeiros, que contam com arte de Aldo Luiz, reproduzindo Nicolau Flamel e Tomás de Aquino, respectivamente, a capa do terceiro não saiu como o esperado, inclusive várias coisas deram errado. Como recuperado no livro, em entrevista de Ruy Fabiano, publicada em janeiro de 1978 no Jornal da Música, Jorge deixa claro que o desgaste foi tanto que decidiu mudar de gravadora – deixou a Philips e entrou no casting da Som Livre:

“Os meus últimos LPs – África Brasil e Solta o Pavão – não saíram com a qualidade técnica que eu esperava. O último, então, foi demais. Tive o maior cuidado com as gravações, já sabendo das limitações do estúdio Havaí, onde o disco foi feito. Queria participar da mixagem e já tinha apresentado minhas sugestões para a capa. Pois bem: quando cheguei de viagem, encontrei o disco pronto, mal mixado, com uma capa que não tinha nada a ver com o que eu queria”.

Sobre o disco

Ainda assim, para muitos fãs, África Brasil representa o melhor e – há quem diga – o último ótimo disco do músico. O 14º álbum da carreira de Ben Jor foi gravado em estúdio de 16 canais, durante 10 dias com um elenco de peso. Além da sua banda Admiral Jorge V, formada por Dadi (baixo), Gustavo Schroeter (bateria), Joãozinho da Percussão e João Vandaluz (piano), ele contou com quase 15 músicos de apoio e sete vocalistas. Dois arranjadores foram escalados, José Roberto Bertrami para orquestra, e Marco Mazzola para os vocais e a produção, mas quem realmente fez a magia acontecer foi o próprio Jorge.

“Essas entrevistas são muito antigas, fico me perguntando se ele colocaria uma capa com uma figura histórica, não tem como saber. Encontrei em entrevistas ele reclamando, não dizendo o que faria”, conta a jornalista. O trabalho marca a transição do artista, que muda do violão para a guitarra, uma Ibanez, comprada por Dadi, porém trocada após uma oferta irrecusável de Jorge: um baixo Fender Precision.

Como o próprio nome indica, África Brasil propõe o encontro “da influência da música africana nas sonoridades brasileiras”. Em entrevista à Kamille, Jorge explica: “Você anda o Nordeste todo e vai ver os ritmos: forró, baião, xaxado. Tudo vem da África. Tudo, total. O próprio funk americano, o blues, são ritmos que vieram”. Além das invenções sonoras, as letras também refletem temas comuns do “universo jorgebeniano: futebol, amor, medievalismo, negritude e infância”.

Processo de apuração

Durante as pesquisas, a jornalista descobriu o trabalho do professor de Direito da UNB, Marcos Queiroz, pelo Twitter: “Ele postou que usava Jorge Ben nas aulas e aquilo me chamou super atenção. Ele fala do ponto de vista de um homem negro, como ‘Zumbi’ quebra com a ideia do mito da democracia racial, porque Zumbi anuncia uma vingança, um levante, ele chama as pessoas pelo nome das regiões que foram sequestradas”.

Para Marcos, “Zumbi é a canção mais importante da música brasileira”. Isso vale para suas diferentes regravações: em Tábua de Esmeralda, ela aparece no violão; em África Brasil, surge com arranjo arrojado e doses de o Soul e Funk norte-americanos. A composição “anuncia uma possibilidade que não era muito colocada nos anos 1970, de que a canção popular pode falar de questões das quais não se falava”. O registro, lançado há mais de 40 anos, se mantém contemporâneo na forma e no conteúdo. Outra inovação do Jorge foi o cantar falado, que seria então popularizado no Rap, Axé e até mesmo no Funk.

Na época, entre as críticas, alguns saudosistas do violão lamentaram a ausência do instrumento, enquanto outros celebraram as mudanças sonoras. No mergulho no mar de informações e mitos sobre o músico – Kamille encontrou até mesmo sua (lendária) data real de nascimento, 22 de março de 1939 –, e também se deparou com exemplos recorrentes de racismo: “Mesmo quando a crítica queria elogiar, caía em estereótipos racistas – ‘selvagem’, ‘primitivo’. Estereótipos para associar o homem negro ao não civilizado. Assim como associar o Jorge ao estereótipo de homem ingênuo, como se não soubesse como criou essa sonoridade ou inventou essa batida do violão. Isso o acompanhou até recentemente, se bobear ainda acompanha, mas ele não lançou mais disco”.

A personalidade reservada do artista se assemelha à descrição dos alquimistas, aqueles seres silenciosos, que moram longe do ruído cotidiano. No caso de Jorge, em sua suíte no Copacabana Palace, escondido da pandemia por ser grupo de risco. De um lado, vê o Corcovado, e do outro, o Pão de Açúcar. A notícia de que, além da diretora do hotel, Jorge seria o único morador do local gerou comentários nas redes. “Muita gente ficou chocada: ‘mas ele tem tanto dinheiro assim?’. Pensei, poxa, as pessoas não têm noção da grandiosidade da carreira dele”, comenta Kamille. Conforme encontrado pela pesquisadora, em 1969, “Mas Que Nada”, faixa de Samba Esquema Novo (1963), já possuía mais de 45 regravações nos Estados Unidos, incluindo versões de nomes como Dizzy Gillespie e Ella Fitzgerald.  A jornalista completa: “o quanto ele não deve receber de royalties, né?”.

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