Móveis Em Movimento – Dez Anos De “Idem”

Estreia da big band brasiliense Móveis Coloniais de Acaju faz dez anos

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Dez anos passam muito rápido, não? Parece que foi há, no máximo, quatro, cinco anos, que Móveis Coloniais de Acaju estreava em disco. Na verdade, Idem não era o primeiro disco dos sujeitos, que já existiam como banda sete anos antes desta primeira bolacha chegar aos ouvidos de gente além dos circuitos subterrâneos de festivais como Porão do Rock, Brasília Music Festival e Bananada. Neste primeiro momento underground, o grupo já havia registrado composições em um EP homônimo, privilégio de espectadores dessas apresentações pioneiras e de uns poucos jornalistas bem informados.

Naquele distante 2005 era impossível não admirar uma canção como Copacabana, quarta faixa de Idem, a primeira que ouvi. Era um ano complicado, de renovação em minha vida e lembro de sorrir ao me deparar com a nervosa trama de Ska e fanfarra, urdida por algum maluco com zero ortodoxia em relação a informações musicais. Se há algo válido no surgimento de bandas como Los Hermanos e em seus seguidores (grupo do qual Móveis faz parte, não adianta negar, mas de uma forma bastante peculiar) é a valorização de uma estética carnavalesca ideal, diferente do parentesco fácil com o desfile de Escolas de Samba de Rio e, vá lá, São Paulo, mais próxima da celebração pura e simples da rua, do mito, da bebedeira e festa como forma de compensar a dureza do resto do ano. Um Carnaval de aula de Sociologia da PUC-Rio, mas, ainda assim, um Carnaval. Não sei se esse exemplo serve aos candangos da banda atualmente, mas seu som, pelo menos nesse primeiro álbum, segue esse rumo.

Para entender essa sonoridade do primeiro disco dos brasilienses, acho que é preciso entender a gênese “hermânica”, no caso, o primeiro álbum do grupo de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante lançado em 1999. Além da existência de sucessos como Anna Júlia e Primavera, havia canções como Aline, Quem Sabe, Tenha Dó, Azedume, entre outras, com uma mistura interessante de Ska, Hardcore e Rock Independente americano como contraponto a essa tal apropriação do Carnaval enquanto uma espécie de musa inspiradora maior. O resultado é uma música, digamos, nervosa e intensa, dada a pulações máximas quando executadas ao vivo. É possível imaginar jovens no país inteiro ouvindo essa mistureba nova e eficaz e se convertendo rapidamente. Los Hermanos deixaria esse lado mais rasgado de suas influências a partir do álbum seguinte, Bloco Do Eu Sozinho (2001) para seguir um caminho todo próprio, mas a semente desse lado mais feliz de suas canções estava lançada e daria frutos.

Quando Idem chegou, cerca de cinco anos depois dos primeiros efeitos de Los Hermanos e resgatando aquela felicidade urgente, o terreno estava armado e se mostrava bastante convidativo para seu brilhantismo ser devidamente apreciado. Muita gente sentia falta desse espírito brincalhão, apenas insinuado en passant e deixado de lado. Quando Seria o Rolex chegou aos canais de audição mais antenados, a semelhança com o uso dos metais e o andamento da canção já deram sinal imediato de reconexão. No entanto, a voz de André Gonzales se destacava como um importante elemento diferencial. Com registro mais grave mais versatilidade que a dupla de vocalistas cariocas Camelo e Amarante, ele deu o toque de identidade marcante ao grupo. Além disso e não muito depois de notar a distinção nos vocais, o próprio dinamismo das canções de Móveis Coloniais de Acaju se mostrava também diferente. Há mais tempo para apreciar as nuances instrumentais, levadas adiante por dez sujeitos numa formação pouco convencional, que abrigava flauta transversal (a cargo de Beto Mejia), gaita cromática e escaleta (ambas com Eduardo Borém) além de dois saxofones, tudo integrado ao contexto de baixo, bateria, guitarras e teclados.

A alma de marchinha carnavalesca já surge de cara na primeira canção, Perca Peso, feita para ser apreciada num salão de bailes do interior em clima de catarse total. A letra é pura galhofa, com o impagável verso de abertura “Você tem alergia a micose e sempre passa mal, tome logo Melhoral” fazendo a festa de quem está disposto a pular. Em alguns momentos, há pequena pausa na pulança pura e simples para apreciação de faixas mais lentas, nunca bundonas. Aluga-se-Vende é um bom exemplo, com bom trabalho de guitarras e metais, marcando o ritmo e abrindo espaço para alguma psicodelia do Planalto Central. Menina-Moça tem bossa e malandragem herdadas que misturam Jovem Guarda e Jorge Ben, com sambadas tortas na cara da sociedade antes mesmo desse conceito ser, digamos, inventado. Cego, sem trocadilho, não vê o que há pela frente e baila uma dança meio própria e desconexa no meio das outras pessoas, enquanto a enguitarrada Esquilo Não Samba tem bateria nervosa, baixo pulsante e uma determinação de não manter nada em seu lugar, abrindo com o profético verso, “muito prazer, eu sou você amanhã”, desembocando numa espécie de Ska-Marcha, com metais malandros e boêmios.

E Agora, Gregório? tem psicodelia verborrágica que rima “Samsonite” com “sanduíche” para contar a história de alguém que se, com a licença da expressão, bateu com a caçuleta em meio ao caos do cotidiano. Swing Um e Meio tem instrumental de metais sorrateiros, chegando a lembrar algum desenho animado dos anos 1940, engata numa levada Skacore clássica, propulsionada pelo baixo e bateria, abrindo espaço para Do Mesmo Ar, que já tem condução mais clássica e guitarras mais pesadas. A folia se mantém com Sadô Masô e Receio Do Remorso, nervosinhas, puladinhas, farra total em disco e irrecusáveis ao vivo.

Idem é uma cartada impactante na mesa da mesmice instalada na indústria musical daquele 2005. Tanto que, apesar de lançado via Tratore e feito barulho na imprensa especializada, a banda ainda precisou de tempo para ganhar mais projeção no cenário nacional. A carreira de Móveis Coloniais de Acaju ainda conta com outros dois álbuns, C_mpl_te (2009) e De Lá Até Aqui (2013), além de participação em EP’s e discos-tributo. Atualmente, está em excursão pelo país tocando Idem em sua totalidade. É, no mínimo, imperdível uma apresentação destas e você tem o dever de prestigiar, caso apareça na sua cidade.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.